Sanidade

  

Cocciodiose obvina

Doença é sinônimo de perdas financeiras e mostrou-se presente em 100% das propriedades examinadas em Minas Gerais

Saul Hatem Honorato*

Em cada sistema de produção, os bezerros são considerados o futuro do negócio, uma vez que os mesmos são responsáveis pelo avanço genético, relacionado à produção de carne ou leite e, ainda, à reposição natural do rebanho. Somamos a isso o grande desafio que hoje os animais desta categoria são submetidos dentro dos sistemas de exploração. Explicando, assim, os cuidados no manejo e na criação que estes animais requerem. A interação de fatores ambientais, manejo, parto, fornecimento do colostro, cura do coto umbilical e fornecimento de dietas líquida e sólida, associados com os agentes infecciosos, desafiam constantemente a resistência destes bezerros e resultam na ocorrência de doenças que causam elevadas taxas de morbidade e mortalidade.

A coccidiose ou eimeriose bovina trata-se de um assunto de grande relevância para a pecuária, tanto de corte, quanto de leite, hoje, no Brasil, por ser uma enfermidade ainda pouco diagnosticada e com uma alta correlação a enormes perdas econômicas. Perdas estas sempre ligadas ao baixo desempenho e ao atraso no desenvolvimento dos animais acometidos, possuindo ainda um fator agravante, que é a irreversibilidade do quadro em questão devido à destruição das células do intestino.

OCORRÊNCIA

Um estudo recente realizado em fazendas tecnificadas de Minas Gerais mostrou que a coccidiose está presente em 100% das propriedades e em 66% dos animais, manifestandose em qualquer lugar onde bezerros são criados, e que seu maior impacto ocorre em animais de até um ano de idade. Outro fato importante é a característica climática do país, que apresenta condições ideais para a multiplicação da coccidiose.

AMBIENTE- FATOR CHAVE

O ambiente no qual os animais estão inseridos pode ser um fator de sucesso ou de insucesso no controle da coccidiose. Alta densidade de animais, confinamento, diversidade de faixas etárias convivendo juntas, acúmulo de matéria orgânica, bezerreiros com pastagem alta (que não permita a penetração de raios solares), dentre outras falhas de manejo, são responsáveis pela proliferação de diversas doenças, principalmente a coccidiose. As situações de estresse, com interferência na imunidade dos animais, também é responsável pelos surtos da doença. Devemos levar em consideração, ainda, que o acúmulo de água em forma de represas, tem contribuição expressiva para a contaminação, por se tratar de ambientes favoráveis à presença e à resistência dos oocistos (formas contaminantes da doença). Estes oocistos, que são liberados nas fezes dos animais contaminados, são os responsáveis pela recontaminação do meio ambiente e pela proliferação da coccidiose. Os mesmos são muito resistentes às intempéries climáticas e aos desinfetantes comuns, o que facilita sua permanência no ambiente por períodos prolongados. Resistem também ao congelamento (-30ºC), porém, são eliminados na presença da luz solar e com temperatura acima dos 35ºC e baixa umidade. Explicando, assim, o cuidado no manejo dos bezerros, evitando áreas baixas, úmidas, com acúmulo de matéria orgânica e com pastagem que impeça a penetração dos raios solares. Devemos nos atentar também à qualidade da água fornecida a essa categoria animal, uma vez que represas formadas pelo acúmulo de chuvas no período chuvoso tornam-se fonte de contaminação no período de seca.

DINÂMICA DA INFECÇÃO

A contaminação se dá pela ingestão de oocistos esporulados presentes na água ou nos alimentos contaminados com fezes de animais portadores da coccídea. Quando entram nas células intestinais, dão continuidade ao ciclo de vida, causando uma destruição das mesmas e, quando este parasitismo é intenso, pode ocorrer destruição de áreas muito extensas do intestino, desprendimento de fragmentos de mucosa e até hemorragia. Isto fará com que haja um acúmulo de líquido no interior do intestino, que resultará em diarreia, podendo evoluir para choque e morte, devido ao desequilíbrio eletrolítico. Acomete, na maioria das vezes, animais jovens, podendo também ocorrer em animais mais velhos, em propriedades onde haja um manejo incorreto ou os animais estejam submetidos a estresse. Eventualmente, verificamos a ocorrência de surtos de coccidiose entre bovinos adultos, envolvendo vacas no período de transição, garrotes em confinamento ou criados em regiões de alta umidade e temperatura.

SINAIS CLÍNICOS

A coccidiose pode se apresentar de duas formas: clínica e subclínica. Sendo a primeira responsável pelo aparecimento de diarreias, apresentando sangue ou não, que podem variar de intensidade, ter diferentes durações, acompanhadas de desidratação e diminuição da ingestão de alimentos. Já a forma subclínica é mais frequente, sendo responsável pelas perdas econômicas ligadas ao baixo desemdesempenho dos animais, tornando-se a forma mais preocupante devido à ausência do diagnóstico preciso pelo produtor. Os principais sinais são queda na ingestão de alimentos, diminuição da conversão alimentar e, consequentemente, atraso no desenvolvimento. É de suma importância realizar o diagnóstico diferencial para quadros de verminoses, desnutrição e deficiências alimentares. Estas variáveis dependem da individualidade de cada animal e ainda da espécie de Eimeria em questão. Eimeria zuerni e E. bovis são consideradas as mais patogênicas para os bovinos. O fator mais preocupante é que, mesmo após um animal se recuperar de um quadro clínico destes, os danos causados ao intestino são irreversíveis. Impedindo assim que o animal expresse ao máximo o seu potencial genético.

DIAGNÓSTICO

O diagnóstico da doença pode ser feito por meio do histórico da propriedade, avaliando quadros de diarreias nos animais jovens, manejo, instalações, relatos de atraso no desenvolvimento, e, principalmente, através da realização do exame parasitológico de pesquisa de oocistos por grama de fezes (OOPG), realizado pelos laboratórios, e da identificação da espécie de Eimeria envolvida.

TRATAMENTO

Os tratamentos usuais realizados para quadros de coccidiose possuem duas desvantagens. Primeiramente, inicia-se, na maioria das vezes, após o surgimento dos sintomas, ou seja, depois que o intestino do animal já sofreu danos, e segundo, a dificuldade da utilização de medicamentos adicionados à ração ou à água, uma vez que animais acometidos diminuem a ingestão dos mesmos e podem receber subdosagens. É importante ressaltar a prática da terapia de suporte, com a reidratação dos animais acometidos, o tratamento de infecções secundárias e a retirada dos mesmos do ambiente contaminado.

Animais apresentando diarreia, relacionada à coccidiose

Como várias outras doenças, é impossível a erradicação total da coccidiose. Porém, é importante ressaltar seu controle por meio de boas práticas de manejo dos animais. Dentre elas, manter os animais em ambientes limpos, garantir o fornecimento de água e alimentos de ótima qualidade, fornecer o colostro nas seis primeiras horas de vida, evitar sombreamento e umidade excessiva dos bezerreiros, realização de um monitoramento da coccidiose na propriedade, dentre outras. Garantindo, assim, a saúde dos animais jovens, bem como seu melhor desenvolvimento e desempenho produtivo.

*Coordenador de Serviços Veterinários da Bayer Saúde Animal