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CRUZAMENTO INDUSTRIAL volta com força total

Esta é a tendência diante da nova e promissora etapa da técnica no país

Luiz H. Pitombo

Sempre é bom quando se consegue aprender com os próprios erros ou com os dos outros, “levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima”. Na pecuária de corte brasileira esta situação se encaixa em vários momentos quando se pensa no uso do chamado cruzamento industrial e se observa a década de 1990 e o que acontece hoje.

Muitas falhas ocorreram naquela época por falta de conhecimento ou pela adoção impensada da técnica por modismo, diante das vantagens que prometia e que não deixam de ser verdadeiras, como o desempenho da progênie superior ao dos pais, quando bem realizada. Muita informação e experiência foram adquiridas desde então e sua utilização ressurge com força, o que não quer dizer que novos erros possam deixar de ser cometidos.

É preciso também lembrar que o momento pelo qual passavam o produtor e a economia nos anos 90, como um todo, era outro e não existiam muitas ferramentas de apoio. Entenda-se aqui, mais especificamente, a inseminação artificial em tempo fixo (IATF), realizada por funcionários ou equipes terceirizadas, que acabou com importantes gargalos e permitiu o uso em grande escala do sêmen de raças taurinas no ventre zebuíno, acasalamento que explora o máximo da heterose. As fêmeas de primeira geração (F1) ganharam destaque maior, já que desfrutam de maior precocidade e habilidade materna, e, hoje, por sua carne, no geral, recebem mais premiações financeiras.

Segundo o zootecnista Gilberto Menezes, pesquisador da área de Recursos Genéticos e Melhoramento Animal da Embrapa Gado de Corte, em Campo Grande/MS, a perspectiva é de que o uso do cruzamento continue a crescer por estar alinhado a sistemas de produção mais intensivos e à busca constante por aumento da eficiência produtiva, ambiental e social. Além do mais, acrescenta que “parece razoável imaginar que os protocolos de IATF tenderão a se tornar mais eficientes e de menor custo, o que viabilizará ainda mais os cruzamentos em locais onde atualmente não são”, afirma.

Um forte indício desse incremento no uso do cruzamento, como avalia Menezes, é o expressivo aumento, nos últimos anos, da comercialização do sêmen de reprodutores das raças taurinas, em especial do Angus. Também confirmam essa tendência, como observa o zootecnista, o crescente destaque de adaptados, especialmente Senepol e Bonsmara, e das compostas, em particular Brangus e Braford.

“Minha avaliação é positiva, pois o cruzamento é uma ferramenta valiosa para a produção de carne bovina, quando usada adequadamente, e que pode trazer grande contribuição em sistemas de produção mais intensivos.” Ele salienta os ganhos que são conquistados em termos de precocidade sexual, fertilidade, qualidade de carne e desempenho. Ademais, diz que permite se ajustar os recursos genéticos às diferentes condições climáticas, econômicas e sociais existentes no Brasil.

Entre os principais motivos que igualmente aponta para o crescimento mais recente do cruzamento, está o período favorável da economia nacional, que, em conjunto com as políticas sociais de governo, fortaleceu o mercado interno da carne. Tem surgido também, como lembra, nichos de mercado que demandam e remuneram a carne de alta qualidade, além do expressivo crescimento das exportações e da evolução dos protocolos de IATF.

Para Tito Mondadori, no passado havia um desconhecimento quase que total sobre as qualidades adaptativas das raças

O pesquisador soma a estes fatores a crescente necessidade de intensificação dos sistemas de produção de carne bovina em função da competição por terra com cana-de-açúcar, soja, milho e eucalipto.

É nesse mesmo contexto de incremento da produtividade e também da sustentabilidade ambiental que Lino Rodrigues, presidente da Associação Brasileira da Inseminação Artificial (Asbia), coloca o uso atual do cruzamento, destacando, entre outros benefícios, o acelerado ganho de peso resultante da heterose. “São menos hectares para a produção dessa proteína”, afirma.

Ele comenta que existe uma mudança expressiva no mercado, que busca a melhoria da produção, e que isso vem puxando de maneira significativa as vendas de sêmen, não tendo elementos para precisar o quanto disso seria em função do próprio uso da técnica e o quanto estaria relacionado à utilização do sêmen em gado puro. Mas Rodrigues acredita que os cruzamentos tendem a continuar pela crescente demanda por carne, em quantidade e qualidade, “e esta é uma das opções para se atingir tal objetivo”, ressalta.

ERROS DO PASSADO, LIÇÕES DO PRESENTE

Diferentes fatores levaram ao recuo do cruzamento industrial no Brasil ao final do século XX, com a importância de cada um variando em função de situações mais específicas. No entanto, Gilberto Menezes, da Embrapa, aponta que um fator básico, do qual todos os demais derivam, foi o de negligenciar a necessidade de se ajustar o recurso genético utilizado ao sistema de produção adotado. “Isto é fatal, pois a genética não faz milagre”, como define.

Segundo Gilberto Menezes, a genética de taurinos, compostos e adaptados está em grande ascensão

O zootecnista salienta que o sucesso de sistema de produção depende do adequado alinhamento entre manejo, sanidade, nutrição, genética, mercado, entre outros, e que cruzamento irá permitir que se combinem os diferentes recursos das raças, aproveitando-se da complementaridade e da heterose. “Naturalmente, este animal precisa receber as condições necessárias para expressar potencial genético e se isto não acontecer pode ter um desempenho pior do que um animal de raça pura.” Em outras palavras, ao se adotar um sistema de cruzamento, é necessário se pensar em todo o processo produtivo.

Uma primeira vertente da questão exposta foi a de não se dar a devida importância ao fato das raças taurinas não terem a mesma adaptação e rusticidade que as zebuínas e/ou taurinas adaptadas. Logo, quando expostas a pastagens de baixa à média qualidade nutritiva, parasitas , altas temperaturas e umidade, seu desempenho reprodutivo ficou muito abaixo do esperado, com prejuízos sérios aos criadores.

Também lembra que não foram adotadas estratégias que acomodassem as particularidades das raças europeias continentais, que tendem a possuir carcaças maiores e com terminação tardia. Por seu maior porte, lembra também que possuem maior necessidade de mantença, que se não considerada nas matrizes F1, resultará em queda na eficiência reprodutiva.

O uso de animais de baixa qualidade genética também foi um erro, pois o desempenho do animal cruzado depende do nível de heterose alcançado e, sobretudo, da qualidade genética dos animais usados no cruzamento, enfatiza o pesquisador. A possibilidade do acesso a animais de boa qualidade genética, como recomenda, deve ser um dos principais critérios ao se optar por determinada raça “e pode ser até mesmo mais relevante do que a raça em si”, adverte.

Como foi especialmente verdadeiro no passado e ainda o é, o pesquisador lamenta que a maioria dos frigoríficos não repasse aos criadores qualquer bonificação pela qualidade da carne de animal cruzado. “Esperar que o investimento em cruzamento seja pago pelo diferencial no preço da arroba ainda é utopia no Brasil, salvo raras exceções”, avalia. Assim, este será recompensado pelos ganhos zootécnicos de precocidade nas fêmeas F1, na cria, na fertilidade, no maior ganho de peso dos machos e na redução do ciclo, gerando maior giro de capital. Ele acrescenta que a adoção do cruzamento, apesar de representar parte da estratégia para produção de carne de maior qualidade, normalmente não se justifica apenas por isso. Lembra que também são importantes as melhorias nos manejos pré e pós-abate.

A falta de mão de obra qualificada representou um problema no passado, e pode ainda levar a uma limitação, pois o zootecnista salienta que devem ser adotadas novas tecnologias na área de reprodução (IATF), nutrição (suplementação energética e proteica), sanidade (intensificação de controle de parasitos), entre outros.

Menezes conta que o uso do cruzamento aumenta a demanda por uma gestão mais eficiente da propriedade, “o que ainda hoje é um sério problema, especialmente naquelas voltadas para a pecuária”, admite. Diz que ao se intensificar a produção, que pode considerar o cruzamento, caso não se tenha uma gestão adequada, seria como colocar um indivíduo que não sabe dirigir dentro do carro mais potente: “O risco de se ter um acidente é grande, rápido e sério”, lamenta.

AS PODEROSAS F1


Para a retomada do cruzamento nos últimos anos, o médico-veterinário Mário Garcia, diretor da consultoria mineira Exagro, acrescenta outros elementos que deram contribuição, como uma fase de preços em ascensão ao pecuarista e a consequente maior capacidade de investimento em tecnologias na busca de rentabilidade. Mesmo que os custos com o cruzamento aumentem um pouco, como reconhece, diz que o giro é bem maior, aumentando o retorno. Ele lembra que com 20-24 meses, um macho de cruzamento já pode ser abatido com 17 arrobas.

André Gomes observa aquecimento na venda de genética para o Centro-Oeste calcado no cruzamento industrial

O crescimento do confinamento também é indicado por ele como fator que contribuiu para o incremento no uso da técnica, pois permite atender ao requerimento nutricional dos animais para o necessário acabamento de gordura. Garcia concorda que exista uma maior consciência do consumidor sobre a qualidade do produto e disposição em pagar mais e que os frigoríficos, por sua vez, conseguiram formas de operacionalizar a compra deste produto no campo e a colocação no mercado.

Adaptados começam a aparecer ao pé da vaca Nelore

Cássio Rodrigues, igualmente médico- veterinário e diretor da Exagro, acrescenta que como os pecuaristas evoluíram tecnicamente, existe um maior potencial de aproveitamento do cruzamento. Em relação ao conhecimento sobre as raças, avalia que as associações passaram a orientar melhor os usuários.

Ele conta que é expressiva a adoção do cruzamento industrial entre as propriedades assistidas pela consultoria. A orientação que tem sido seguida é a de que em cima da vacada Nelore seja utilizado sêmen de Angus, quer da variedade preta ou da vermelha, mas acrescenta que há opções como a Hereford e mesmo outras raças, desde que sejam precoces. Posteriormente, as fêmeas F1 Angus são retidas no rebanho para entrar em reprodução em torno dos 14 meses, o que reputa como a principal vantagem do cruzamento. O motivo de várias raças terem apresentado um recuo em seu uso no passado, como analisa, reside no fato de não apresentarem precocidade.

Sobre primíparas que também mostram boa habilidade materna, diz que se está usando adaptados como Senepol e Bosmara, podendo já ser descartadas na segunda cria ou mantidas por mais um ciclo reprodutivo. Quando do descarte, diz que se realiza o desmame precoce, com a suplementação dos bezerros, para que sejam comercializadas com maior peso e somente a pasto.

Os consultores têm constatado que os maiores ganhos financeiros do cruzamento são na fase de cria. Quando a fazenda faz o ciclo completo, diz que há uma redução no retorno em comparação ao sistema de cria, pois após a desmama o diferencial passa a ser apenas o ganho de peso dos machos, o qual não é a maior vantagem, e com mais animais cruzados na fazenda, consequentemente, as despesas com controle sanitário aumentam.

Para pecuaristas que fazem somente recria e engorda, diz que é preciso estarem atentos quanto ao adicional de preço pago por esses animais, pois, embora ganhem mais peso, pode valer mais a pena comprar um garrote comum de 18 meses pelo mesmo valor.

Ele também acredita que o cruzamento veio para ficar, mesmo num cenário de preços não favoráveis como este do ciclo de baixa, pois comenta que as propriedades se ajustam e os ganhos zootécnicos persistem.

INTERESSE DA INDÚSTRIA

O zootecnista Tito Mondadori, diretor técnico do Núcleo Paulista de Criadores de Angus e encarregado do setor de extensão e fomento do Programa Carne Angus Certificada, tem avaliação similar a outros sobre as falhas do passado que trouxeram um descrédito na adoção do cruzamento. Entre essas, aponta o uso de raças tardias; o desconhecimento quase que total, na época, tanto de associações como de pecuaristas sobre o desempenho das raças em cruzamento e sua adaptação ao clima, as deficiências no manejo nutricional e sanitário e as limitações da inseminação artificial, “pois ainda não se tinha a IATF”, comenta sobre este último aspecto.

Mais especificamente sobre a situação atual da raça Angus, reconhece que ela sente forte a retomada do cruzamento e que se aprimorou muito o manejo alimentar dos meio-sangues, entre outros aspectos. Ele avalia que o setor frigorífico também passou a conhecer mais sobre o que é carne de qualidade.

Cássio Rodrigues e Mário Garcia apontam que as associações passaram a orientar melhor os pecuaristas, que estão melhor preparados

Para esse crescimento dos cruzamentos com a raça, Mondadori aponta o importante papel desempenhado pelo programa de qualidade de carne da associação (ABA), que iniciou com o supermercado Zaffari no Rio Grande do Sul na década de 1990 e que, a partir de 2007, avançou para o Brasil Central, “criando uma rede de conhecimento e informação entre os criadores”, diz.

A parceria com o frigorífico Marfrig, que tem preço diferenciado para os animais certificados, foi fundamental, como salienta o técnico da ABA. Ele lembra que em determinando momento a demanda do frigorífico superava a oferta de animais, o que o levou a criar seu próprio programa com a raça, oferecendo financiamento para o setor reprodutivo das fazendas e garantia de compra do produto. Neste ano, Mondadori conta que foram inseminadas, através deste trabalho, mais de 100 mil vacas. Tanto a associação como o frigorífico têm levado orientação ao pecuarista em termos de manejo e terminação, sendo que o programa da ABA possui igualmente a parceria com o frigorífico VPJ.

 

Gabriel Isaacsson destaca que, hoje, existe uma grande preocupação em relação à boa cobertura de um touro a campo

Na região Sul do país, onde existe predominância de matrizes com sangue taurino, conta que a raça tem sido utilizada nas matrizes de corte para melhorar a eficiência do rebanho, retendo-se as fêmeas cruzadas e encaminhando os machos para o programa de carne.

Na utilização da raça hoje, Mondadori sugere que criadores deem maior atenção quanto à adequação do porte dos touros (frame) e sua rapidez de terminação, em função dos diferentes sistemas produtivos. No sêmen comercializado, no qual a raça aparece disparada na frente, entre os taurinos, segundo relatório da Asbia, existe a predominância do material importado. Mas o técnico conta que a associação brasileira vem estimulando os selecionadores no país a se envolverem mais na coleta de dados e nos programas de melhoramento, apontando que existem quatro deles no Brasil. Mondadori também acredita que o cruzamento voltou para ficar.

As raças Hereford e Braford têm igualmente apresentado um incremento nas vendas de sêmen e reprodutores, atribuído à adoção do maior volume de cruzamentos, especialmente com o Braford nacional. Essa tem sido utilizada diretamente na vacada zebuína ou nas fêmeas F1 Nelore/ Taurino.

Segundo o veterinário Gabriel Isaacsson, superintendente Associação Brasileira de Hereford e Braford (ABHB), a entidade tem parceria com os centros da Embrapa Gado de Corte e Pecuária Sul para o desenvolvimento do programa de melhoramento, denominado Pampaplus, além de chancelar outros trabalhos existentes na área. Ele conta que a associação tem realizado um controle maior dos animais que são comercializados e que existe preocupação muito grande em relação aos reprodutores que serão direcionados para cobrir a campo.

TRABALHO A CAMPO

O veterinário Pedro Gustin, integrante da diretoria da Associação Brasileira dos Criadores de Bovinos Senepol (ABCBSenepol), explica que por vezes os pecuaristas ficam em dúvida sobre como prosseguir no cruzamento industrial a partir das fêmeas F1 zebu x taurino. Se voltam com a zebuína, diz que reduzem a produtividade e, se a opção é a taurina, comenta que perdem a rusticidade. Desta lacuna, surge mercado para os adaptados, como é o caso do Senepol. “É neste ponto que pode entrar o Senepol, um produto taurino que mantém a adaptação do zebuíno”, afirma Gustin. Contudo, ela também é utilizada diretamente sobre as zebuínas, enviando ao abate tanto machos como as fêmeas meio-sangue.

Tricross tem sido a solução para sistemas superintensivos

A raça tem crescido no cruzamento, como avalia, principalmente através do uso de reprodutores a campo e que isto a permite adentrar em regiões onde inexiste mão de obra qualificada para a inseminação artificial. Gustin informa que os tourinhos da raça podem começar a trabalhar a campo com 15-16 meses de idade, na proporção de um animal para 40 fêmeas, um número que poderia subir para 50 a 60 matrizes quando com 24 meses de idade, segundo ele.

Existem diferentes grupos atuando no melhoramento genético da raça, a qual possui um rebanho puro registrado no país próximo a 16 mil cabeças. O volume ainda é pequeno, mas Gustin diz que a raça vem crescendo bastante e que existe a preocupação de que isto ocorra com qualidade. O Senepol é de introdução relativamente recente no Brasil e pode ser considerada como de porte médio, com os machos adultos pesando entre 900 a 1.200 kg e as fêmeas de 650 a 800 kg.

Mais um adaptado que vem sendo testado pelos pecuaristas brasileiros e citado pelos especialistas entrevistados para esta reportagem é a sul-africana Bonsmara. É uma das raças escolhida para ajudar na melhoria da qualidade de carne e carcaça de bovinos no Tocantins, projeto do Governo do Estado. A raça vem sendo criada a pasto e cruzada com Nelore, cujo produto é abatido com 17 arrobas aos 27 meses, a pasto.

Outra raça que vem sentindo aumento de demanda com os efeitos da retomada do cruzamento é a charolesa, segundo informa André Plastina Gomes, que preside o Conselho Técnico da Associação Brasileira dos Criadores de Charolês (ABCCharolês). Ele comenta que seu uso está concentrado na região Sul do país, mas que vendas têm ocorrido igualmente para o Brasil Central. Se a raça não apresenta precocidade acentuada de acabamento como outras, diz que o gado é capaz de agregar no rendimento e na conformação de carcaça, quando cruzada.

 


POR ONDE COMEÇAR

Cruzamento industrial requer planejamento e condições adequadas para funcionar

Luiz H. Pitombo

Quando se pensa na introdução de um sistema de cruzamento na propriedade, é necessário planejar bastante e avaliar todo um conjunto de fatores e não só que genética utilizar.

O zootecnista Gilberto Menezes, que atua no setor de Recursos Genéticos e Melhoramento Animal da Embrapa Gado de Corte, em Campo Grande/MS, aponta que existem basicamente duas vias que podem ser percorridas. Se a propriedade já possui um sistema produtivo definido, que esteja apropriado em termos de alimentação, sanidade e demais aspectos, o produtor pode, criteriosamente, buscar a estratégia de cruzamento que melhor se ajuste e proceder às adequações que forem necessárias.

A outra situação, como indica, é em vista do cenário de produção em que esteja inserido (mercado, clima, nível gerencial, mão de obra, etc.), estabelecer um novo sistema de produção, definindo, concomitantemente, as estratégias de cruzamento, nutrição, sanidade, mercado, manejo, entre outros.

Um manejo simples que o pesquisador indica para o aproveitamento das F1 Nelore/Angus em projetos de inseminação artificial é o repasse, por exemplo, com touros Senepol, Bosmara ou Caracu, encaminhando para a engorda e abate tanto machos quanto fêmeas. Nesta mesma linha, uma outra estratégia que sugere seria a de abater apenas os machos F1, mantendo as fêmeas meio-sangue para se fazer Tricross com touros Canchim, Senepol, Simbrasil, ou ainda, a depender do nível de intensificação do sistema e da disponibilidade para se fazer a inseminação artificial, optar como raças terminais o Simental e o Charolês. “As estratégias são várias e a escolha de uma delas ou de outras mais irá depender da avaliação dos diversos fatores envolvidos”, lembra.

Menezes explica que os maiores ganhos com a heterose são normalmente observados nas características de baixa herdabilidade, como as relacionadas à reprodução e à adaptação. Desta forma, enfatiza que é interessante se aproveitar as fêmeas advindas do cruzamento, como as F1, especialmente as Angus x Nelore, “que apresentam um desempenho fantástico”, comenta. O pesquisador diz que resultados de projetos da Embrapa mostram este grande potencial das fêmeas Angus x Nelore e que o próprio mercado já descobriu isso, basta se observar o forte crescimento da venda de sêmen da raça Angus nos últimos anos.

Em 2011, segundo relatório da Associação Brasileira de Inseminação Artificial (Asbia), foram comercializadas 2,3 milhões de doses de sêmen Angus entre as variedades preta e vermelha. Ela ocupou a segunda colocação nas vendas, só abaixo da Nelore, que, entre aspado e mocho, comercializou 3,2 milhões de doses.

O médico-veterinário Gustavo Pires Ribeiro, da consultoria Agropecuária [email protected], localizada em Água Boa/MT, que atua na área de gerenciamento e prestação de serviços na área de reprodução, sugere alguns aspectos importantes a serem considerados na propriedade quando se pensa em partir para o cruzamento industrial.

O primeiro deles a se dar atenção, como ressalta, é a qualificação da mão de obra para a adoção do sistema de inseminação artificial em tempo fixo (IATF), ou mesmo a possibilidade de buscar uma equipe terceirizada. Isto pensando nas condições do Brasil Central e nas limitações para a monta natural com raças que não as zebuínas, que são as que mais se adequam à região, mas que trazem pequena heterose em vacadas que já são zebuínas, como lembra. Quanto ao uso em monta natural de touros das raças Brangus, Braford, Senepol e outras, diz que são mais adaptadas às condições climáticas e devem crescer sua presença, contudo sua avaliação é de que a oferta atual de genética ainda é restrita quando se pensa em grande escala.

Cruzamento é um pouco mais caro, mas intensifica sistemas produtivos

Por outro lado, Ribeiro acredita que há ocasiões em que valha mais a pena fazer a IATF por R$ 80/prenhez com um animal “campeão de produtividade” do que manter um touro na propriedade. Para a realização desse trabalho, lembra que a fazenda precisa contar com um bom curral.

Os pastos devem estar bem divididos e manejados para acomodar as matrizes e seus produtos com boa disponibilidade de forragem. O veterinário reforça que as vacas cruzadas se alimentam mais e que dão mais leite. O controle sanitário necessita estar em dia com as vacinações básicas, como raiva, brucelose, clostridioses e leptospiroses. Esta última, como tem observado, ganha importância com a utilização dos suplementos proteinados, que têm atraído ratos para os galpões de armazenamento, os transmissores da doença.

Ribeiro acrescenta a necessidade da mineralização do rebanho e da avaliação da qualidade da vacada de base. Esta, como afirma, só lhe traz alguma preocupação quando é ruim, o que não tem se deparado nas regiões onde atua.

SUCESSO DA INTEGRAÇÃO E IATF

Dentre as fazendas que assiste e que adotam o cruzamento industrial, diz que as que têm conseguido os melhores resultados são as de agricultura que optaram pela integração lavoura/pecuária (ILP), pela qualidade da alimentação fornecida a produtos e matrizes cruzados, que são diferenciados, enfatiza. Ele conta que ainda existem muitos que pensam que com pasto ruim pode se fazer uma IATF e um cruzamento industrial, o que não é verdade. Ribeiro considera que a ILP e a IATF, com o cruzamento aí embutido, andam juntas e que representam um caminho sem volta.

Gustavo Ribeiro chama atenção para qualidade da mão de obra na IATF e escolha de touros adaptados ao Centro-Oeste

Frente ao abate total brasileiro estimado em torno de 40 milhões de cabeças/ano, não é possível apontar o quanto seria proveniente do cruzamento industrial. De qualquer forma, Ribeiro reconhece que o volume deva ser relativamente pequeno e que, por outro lado, a demanda pela carne de melhor qualidade aumenta diante de um mercado consumidor que está com mais dinheiro.

Ele conta que tem constatado a presença de supermercadistas do estado de São Paulo no Brasil Central desejando comprar animais meio-sangue ou tri-cruzados com outra raça taurina para serem terminados nos próprios confinamentos. Ele diz que estes animais possuem menor heterose e ganho de peso que os F1, mas que apresentam uma carne de qualidade superior. Existe no país programa que remunera animais deste tipo com a cotação da Esalq com um adicional de 20% sobre a arroba do boi gordo.

O zootecnista Gustavo Ribeiro informa que tem conhecimento de um grande frigorífico que pretende montar um programa próprio de carne de qualidade com animais cruzados que aumentará ainda mais a demanda por este perfil de animal