Mercado

Inércia, incertezas e expectativas

Segundo a tendência histórica, o comportamento observado no período de 24 de abril a 23 de maio foi semelhante ao anterior (23/03 a 23/04/2012), sem mudanças significativas e tendendo a reduções de preço e no número de negociações. Ao observar os índices históricos, vemos que os meses de abril e maio são considerados “fundo de safra”, caracterizando, de fato, o período final de oferta abundante de animais terminados e, possivelmente, um leve indício de que as margens de todos os segmentos da cadeia produtiva podem melhorar. Se essa previsão se confirmar, os preços para o segundo semestre podem aumentar e o mercado, se recuperar.

É claro que nos encontramos, ainda, em fase de transição. Contudo, recentes acontecimentos, como os casos de Encefalopatia Espongiforme Bovina - EEB (“Vaca Louca”) nos EUA, a diminuição da participação de fêmeas nos abates, a redução da qualidade de pastagens e o tempo que os animais terminados em confinamento devem levar para atingirem as condições de abate deram maior sustentação ao mercado brasileiro, inclusive o futuro, e podem sinalizar que nos próximos meses pecuaristas bem preparados, indústria e atacado tenham motivos para respirar um pouco mais aliviados. O ligeiro aumento observado na demanda interna de carne bovina, bem como a alta do preço da soja, importante insumo para aves e suínos, são bons exemplos. Vale, no entanto, lembrar que os custos de produção neste ano também estão maiores, o que pode, ocasionalmente, mudar o ritmo das negociações, visto que o produtor que não confina acaba sendo quase obrigado a abater os animais, mesmo a valores inferiores.

O início do período foi marcado pela volta da pressão de baixa e pela evolução das escalas de abate, que colocaram a indústria em posição mais confortável do que no período anterior, porém, em algumas das praças analisadas, devido à boa qualidade das pastagens ainda foi possível para o setor produtivo reagir à pressão. Já a seca e a antecipação do frio em outras regiões causaram prejuízos marcantes, o que também faz com que não seja possível prever, ao certo, como alguns mercados irão se comportar.

Embora o início do confinamento esteja próximo e para este ano seja esperado aumento de até 13% no volume de animais confinados, segundo a Associação Nacional dos Confinadores, também é possível que haja uma lacuna entre duas fases distintas: o fim das pastagens de qualidade e o envio dos animais terminados no cocho para o abate (que deve ocorrer no último trimestre). Nesta fase de transição, é possível que haja aumento no número de negociações e os indicadores da ESALQ/BM&F para o mercado futuro já indicam valorização da @. Apesar disto, o momento atual ainda é de cautela, sendo maio considerado o principal mês de piso de preços no primeiro semestre (houve queda de 13% entre os períodos de safra e entressafra, sendo que a atual referência da @ está em R$ 94,00). Além disto, maio é, tipicamente, o mês de menor sustentação de preços, o que pode ser comprovado na prática, visto que nem o costumeiro aquecimento de vendas de início de mês aconteceu.

O mercado de reposição iniciou o período com boa movimentação no Pará, no Maranhão e em Tocantins, sendo que a procura por animais jovens nas três localidades teve aumento significativo. Já em São Paulo, Mato Grosso do Sul e Minas Gerais o movimento foi contrário, com volume de negócios aquém do esperado.

No que diz respeito às exportações, houve aumento nos embarques de miúdos tanto em volume quanto em receita, porém, para a carne bovina in natura, há tendência de queda. No mês de abril, foram exportadas 69,2 mil toneladas do produto, “carro chefe” no quesito receita. De acordo com a SECEX (Secretaria de Comércio Exterior, do Ministério de Desenvolvimento, Indústria e Comércio), valor que representa uma redução de 1% em relação ao total exportado em março. Também diminuiu o número de fazendas aptas a exportar carne in natura para a Europa, de acordo com a lista divulgada pelo Ministério da Agricultura, que conta, no mês de maio, com 1.895 propriedades. A demanda do bloco econômico em questão, que vem apresentando queda desde o início do ano, novamente recuou e, como importante fator de competição, a Índia desponta no mercado mundial, com a habilitação de três unidades frigoríficas para exportação. Para o Brasil, é um alerta, visto que o país é concorrente direto em mercados menos exigentes e, com a queda na demanda e na quantidade de fazendas aptas a exportar aos europeus, os embarques diminuem. Ainda em relação a exportações, os problemas sanitários dos EUA não representam expectativas de aumento de mercado para o Brasil, posto que os clientes dos americanos não compram nossa carne.

O consumo no mercado interno na primeira metade do período atual, apesar de os feriados serem normalmente considerados fatores de aquecimento nas vendas, não deu sinais muito positivos, sendo que, ainda, neste início de período, foram os cortes de dianteiro os mais vendidos. Já no final do período analisado, houve suave elevação do consumo e pode ser observada ligeira melhora também no escoamento de cortes traseiros. Embora tenha sido tímido em relação ao período anterior, com relação ao mesmo período de 2011, foi constatado crescimento de 1,4% no mercado interno.

Como mostra a tabela, o Brasil não está sozinho nesta fase de desvalorização, sendo que o preço pago pela @ do boi gordo no mundo teve queda em todos os países analisados.

No Brasil, o preço pago pela @ do boi gordo a prazo seguiu o mesmo comportamento do período anterior, com alguns altos e baixos, porém, apontando para queda e desvalorização frente aos preços da carne. O leve aumento observado no consumo e a contínua desvalorização das cotações acabaram por favorecer a indústria.

Os valores médios pagos à vista foram de R$ 94,12 em São Paulo; R$ 87,47 em Minas Gerais; R$ 84,45 em Goiás; R$ 87,31 no Mato Grosso do Sul; R$ 84,84 no Mato Grosso; R$ 86,60 no Pará; R$ 92,55 no Paraná; R$ 99,00 em Santa Catarina e, no Rio Grande do Sul, R$ 3,17/kg. O gráfico mostra a evolução dos preços a prazo.

A média do deságio aos pecuaristas foi de 1,98%, representando uma queda de 5,6% na diferença média entre os preços pagos à vista e a prazo, considerando-se os estados avaliados.

O preço médio do bezerro atingiu R$ 650,88, aumento de 0,95% em comparação ao período anterior. Os preços alcançaram R$ 690,00 em SP; R$ 630,00 em MG; R$ 654,50 em GO; R$ 684,00 no MS; R$ 622,50 no MT; R$ 590,00 no PA; R$ 696,00 no PR e R$ 640,00 no RS.

Para a categoria que mais se destacou no mercado de reposição na maioria das praças, ou seja, o boi magro, a média ficou em R$ 1.128,23, representando alta na maioria destas regiões. Pará, Paraná e Rio Grande do Sul são exceções.

Os índices médios de relação de troca entre ambas categorias e o boi gordo sofreram recuos, comprovando a desvalorização da @ do animal terminado. Para a relação desmama/ boi gordo, a média do período teve queda de 1,31%, fechando em 2,25 e, para a relação boi magro/boi gordo, o índice fechou em 1,29, valor que representa queda de 1,52%.

O mercado acredita ter finalmente atravessado o chamado “fundo de safra”, quando os preços chegaram ao piso e o mercado esteve inerte. A especulação no período foi grande e a pressão de baixa por parte da indústria voltou a rondar pecuaristas, atacado e varejo. Apesar disso, mesmo com ritmo ainda lento de negociações, é possível crer em sustentação de preços, aumento de consumo e, consequentemente, melhores cenários futuros.

Natalia Laperuta e Andrea Brasil Boviplan Consultoria