Sala de Ordenha

 

Os preços chegaram ao pico?

Marcelo Pereira de Carvalho, diretor-executivo da AgriPoint Maria Beatriz Tassinari Ortoloni, analista de Mercado do Milkpoint

Até o momento, 2012 está sendo marcado por uma variação de preços menos acentuada. Como 2011 terminou com valores pagos ao produtor acima da média histórica, a subida no primeiro semestre praticamente não foi observada. Há o risco de redução precoce de preços, como em 2008 e 2010. O leite spot já registra queda. Mas por que haveria uma reversão precoce?

Se analisarmos a oferta de leite, veremos que o quarto trimestre de 2011 teve produção inspecionada 5,4% superior, mas a demanda parece não ter acompanhado.

Apesar do aumento nos custos de produção e da seca em algumas regiões, os produtores não se mostraram desestimulados.

Entre 2008 e 2011, em números, a produção cresceu 2,561 bilhões de litros no período, ao passo que as importações cresceram 831,9 milhões de litros. Em 2012, a situação vem se agravando. Nos primeiros quatro meses, já são 430 milhões de litros, 16% acima de 2011.

Os preços de leite UHT e queijo muçarela patinam, refletindo pouca procura do consumidor. Se estoques se mantiverem, a desova pode levar a reduções de preços.

A margem bruta das indústrias apresenta um cenário delicado, marcado pela deterioração da rentabilidade industrial. Se tomarmos como base janeiro de 2007 (índice 100) e analisarmos os preços ao produtor, observamos que esses subiram mais do que no atacado (Gráfico abaixo).

Já é possível observar, segundo agentes do mercado, que o mercado spot teve redução na última quinzena. Como ele é o primeiro que se movimenta, há a possibilidade de alguma retração também no preço ao produtor.

O produtor, por sua vez, terá de se planejar, pois, de acordo com o relatório mensal USDA, a safra de soja voltou a cair, com produção mundial de 236,87 milhões de toneladas. A Conab também divulgou estimativa de 66.682,3 milhões de toneladas para a safra 2011/2012, também abaixo do estimado.

Segundo o analista da Conab Leonardo Amazonas, os preços no contrato de primeira entrega (Spot) oscilam na casa dos US$ 514,00/ tonelada. A expectativa é que não deva passar de US$ 550,00/tonelada. Por outro lado, o milho deve ter preços reduzidos. O relatório do USDA aponta clima ameno e a temporada de plantio antecipado promoverá uma safra expressiva de 375,7 milhões de toneladas. A crise na Europa leva a investimentos de maior risco, fato que também ajuda a baixar os preços das commodities.

Segundo o analista da Conab Thomé Luiz Freire Guth, aumentou a relação entre estoque e consumo, que provocou uma redução nos contratos a longo prazo. Mesmo com possíveis exportações brasileiras, é provável que sobre milho internamente.

O cenário é incerto, ainda mais considerando o agravamento da crise europeia e as incertezas relativas ao câmbio e ao preço das commodities. Porém, algo é certo: ainda que os preços ao produtor tenham variado pouco na safra, a falta de fôlego para subir nesses primeiros meses do ano já fez com que os preços corrigidos para abril ficassem abaixo de 2008 e mesmo de 2010. Com custos elevados ao produtor, se houver redução de preços, vai faltar leite.

O caminho para resolver o nó passa pelo varejo. Aliás, é curioso como todas as discussões relativas ao setor leiteiro terminam na porta daquele que é o principal responsável pelos rumos do mercado no Brasil, estabelecendo os preços de venda, as margens e sendo responsável pela maior parte do volume de lácteos vendidos.

Gráfico. Preços no atacado e ao produtor (janeiro de 2007 = 100)