Leite

Rondônia é produtor de leite

Estado dobra produção em dez anos, a maior da Região Norte e da Amazônia Legal e a nona do país

Maria Luiza de Araujo

A Região Norte representa 5,7% da produção brasileira de leite, da qual Rondônia responde sozinha por 46,21%. “O potencial da produção é muito grande”, garante Paulo Moreira, pesquisador que coordena o Núcleo de Apoio à Pesquisa e Transferência de Tecnologias da Embrapa Gado de Leite, instalado na capital Porto Velho.

“Tecnicamente é simples triplicar a produção do estado com as tecnologias disponíveis hoje. As condições objetivas para isso existem - água, calor, luminosidade, terra. Falta mudança de comportamento do produtor. Penso que aqui necessita-se de uma mãozinha do estado, sem paternalismo exacerbado”, analisa Moreira.

O principal estudo sobre a produção brasileira é do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) - a Pesquisa da Pecuária Municipal, atualizada até 2010. Os dados oficiais de 2011 serão divulgados no mês de outubro. Em 2010, portanto, o rebanho leiteiro rondoniense era da ordem de 3,5 milhões cabeças. Foram ordenhadas 1,082 milhão de vacas, com produção de 802,969 milhões de litros.

Genética Girolando reina no estado

Levando-se em consideração que, em 1999, ano de criação do Programa de Desenvolvimento da Pecuária Leiteira do Estado de Rondônia (Proleite), a produção foi de 408,750 milhões de litros, o aumento foi de 96,44% em uma década. A estimativa da Embrapa para 2011 é uma produção de 841,092 milhões de litros. O volume de produção do estado, que na década de 2000 chegou a crescer até 11% ao ano, em 2011 aumentou em torno de 5%, em relação a 2010.

Os dados da Secretaria da Agricultura, Pecuária e Regularização Fundiária (Seagri) indicam que quando se comparam dados preliminares da quantidade de leite cru, resfriado ou não, adquirido e industrializado nas plataformas dos laticínios com Inspeção Federal, Estadual e Municipal de 2011 com 2010, observa-se um déficit de 1,73%. Em 2010, foram beneficiados 792,874 milhões de litros e, em 2011, 779,361 milhões, o que representa, diariamente, uma produção média de 2,2 milhões de litros.

A produtividade média de curral, ou seja, individual, é de cerca de 4,6 litros/vaca/dia, com lactação média de 240 dias. Quando se leva em consideração vaca total, ou seja, vacas secas e lactantes, numa lactação também de 240 dias, essa média cai para 3 litros/ vaca/dia.

“A atividade se apresenta como importante fonte econômica para Rondônia, além de promover a fixação do homem no ambiente rural produtivo, evitando o êxodo, criando postos de trabalho no campo e na cidade”, afirma o secretário Anselmo de Jesus. Os dados indicam uma movimentação pelo estado e pela região de cerca de R$ 440,2 milhões e R$ 1,7 bilhão, respecivamente, respondendo pela sustentação econômica básica de 38,8 mil famílias da agricultura familiar do estado e de 95,2 mil da Região Norte, que produzem matéria-prima para abastecer as indústrias beneficiadoras rondonenses de leite.

De acordo com o Núcleo da Embrapa, Rondônia é atendida por uma rede de 50 estabelecimentos oficiais de médio e grande porte que industrializam leite nas mais diferentes variações: UHT, pasteurizado, em pó, condensado, creme, manteiga, queijos e soro em pó, sendo que 70% do leite industrializado é exportado na forma de muçarela para mercados do centrosul do país.

RADIOGRAFIA DO REBANHO

A quase totalidade do rebanho é de Gado Girolando. Moreira explica que não existe raça europeia para leite: “Existe, mas rara, a composição 7/8 HZ [holandês/zebu]. O contingente de 3/4 HZ já é bem maior, mas a Genética Girolando reina no estado grande maioria é composta de 5/8 e meio-sangue”. O contingente de animais sem raça definida também é expressivo.

Vale destacar a existência de pelo menos 20 produtores de Genética Gir Leiteiro, de excelente qualidade, na avaliação do pesquisador.

São cerca de 40 mil unidades produtivas, que 96% possuem até 30 vacas. Caracterizam-se pelo perfil de exploração familiar, em que a mão de obra empregada é predominantemente da família. O Núcleo da Embrapa identifica alguns problemas na atividade. Embora exista crédito para financiamento, os produtores enfrentam a falta de regularização fundiária na quase totalidade do estado e a burocracia. O alto custo dos insumos, a pouca oferta de serviços de máquinas e equipamentos e, muitas vezes, a falta de formação profissional adequada dos técnicos da assistência, também atrapalham.

Dentro da porteira, as questões são de administração deficiente da propriedade; falta de produção em escala; baixa qualidade das pastagens, da terra e da mão de obra; baixo potencial genético dos animais e dos índices reprodutivos, além de alta incidência de parasitas.

É preciso levar em conta também, fora da porteira, a má qualidade de estradas vicinais para escoamento da produção, a alta instabilidade da energia elétrica, que gera graves problemas de armazenamento em tanques de resfriamento, o baixo nível de organização dos produtores e a deficiência na coleta do produto.

POLÍTICA PÚBLICA

“Os resultados apresentados já são significativos. Os esforços de política pública têm contribuído de forma positiva para a melhoria do perfil sócio- cultural do produtor, em especial na concepção e na internalização de novas tecnologias que refletirão no desenvolvimento sustentável da pecuária leiteria de Rondônia”, garante o secretário.

É de se destacar o trabalho do Proleite, programa de melhoria do manejo alimentar, sanitário, genético, da qualidade da ordenha e capacitação técnica. Como sustentação econômica ao projeto, foi criado, em parceria com os laticínios, um “Fundo de Apoio à Pecuária Leiteira – Fundo Pró-Leite”, resultante de um entendimento entre indústria e Governo, em que deu incentivo tributário de 35% sobre o ICMS pago pelas indústrias e, em contrapartida, elas disponibilizaram, espontaneamente, 1% das suas arrecadações brutas para formação.

O Governo, considerando a importância da participação de todo o segmento do agronegócio leite na organização da cadeia produtiva e na administração dos recursos do fundo, criou a Câmara Setorial do Leite em 2001, atualmente denominada Conselho de Desenvolvimento do Agronegócio Leite do Estado de Rondônia (CONDALRON), composto por 23 entidades da iniciativa privada e governamental.

O Proleite é composto por nove projetos: Capacitação Técnica e de Produtores Rurais; Tourinhos Melhoradores Gir e Holandês; Inseminar; Manejo de Pastagens; Controle de Cigarrinhas das Pastagens; Eficiência dos Carrapaticidas; Controle e Erradicação da Brucelose e Granelização do Leite. Foram repassados 300 animais e 60 mil doses de sêmen de Gir e Holandês Puro Sangue, apresentando 36 mil e 22.055 nascimentos viáveis meio sangue Holandês-Gir, respectivamente.

CRIADORES

“Acredito que Rondônia tem potencial para estar entre os quatro maiores estados produtores de leite do Brasil”, afirma Lázaro Fernandes de Almeida, que há 19 anos é proprietário da Fazenda Pé da Serra, em Nova União. Ele afirma que o local reúne o maior plantel Gir Leiteiro do estado.

O criador considera que a produção de forragens para alimentação dos animais é favorecida pelas condições naturais de Rondônia. A fazenda conta com cerca de 500 fêmeas entre Gir e Girolando e utiliza um sistema de produção a pasto durante a época das águas. Durante a seca, suplementa com silagem de milho, canade- açúcar e alimentos concentrados, formulados e fabricados na própria fazenda.

Na parte reprodutiva, trabalha com Inseminação Artificial (IA), Transferência de Embrião (TE) e Fertilização in Vitro (FIV), utilizando touros provados e trabalhando com acasalamento dirigido. “Obtemos o máximo do ganho genético esperado, qualidade e garantia dos animais comercializados”, garante o criador.

A média de produção leiteira das fêmeas da fazenda está em torno de 13 litros/vaca/dia, trabalhando somente com uma ordenha. Além da produção de leite e da comercialização de animais melhorados geneticamente, a fazenda também faz recria e engorda de machos com finalidade de corte.

O município de Jaru é o único que figura na lista do IBGE de 2010 entre os 20 maiores produtores de leite. É lá que fica a fazenda Curralinho, que tem 22 anos e há 12 trabalha com Gir Leiteiro. O proprietário, Geovani Nunes Barroso, considera que a raça está em ampla ascensão em Rondônia. Cria os animais a pasto e na seca com silagem de milho. Também trabalha com IA, TE e FIV e o plantel é formado por 100 animais que produzem 950 l/dia, média de 10 litros por animal.

Geovani Nunes destaca o baixo custo para produzir leite no estado e aposta no Gir

Para ele, as perspectivas da atividade são as melhores possíveis. Entre as qualidades do estado, ele destaca a fixação do produtor no campo e o leite de baixo custo. “Os principais problemas são produtividade baixa, falta de conhecimento técnico, preço baixo, genética e monopólio”, afirma Barroso. “Rondônia é um estado que está em amplo crescimento, clima ótimo para produzir, tem uma boa logística e é o portal de entrada para a Amazônia. É um estado abençoado”, garante.

Em Cacoal, fica a Dallas Genética de José Elias dos Santos. Trabalhando com Nelore, ele viu a necessidade de Rondônia em relação ao leite e entrou em contato com criadores de Gir Leiteiro em Minas Gerais e no Distrito Federal. Comprou várias doadoras e começou a trabalhar com TE, IATF e FIV em busca de fazer F1 e 3/4 Holandês. “Este é o gado de leite para nossa região, que é quente. O gado pasta mais, tem menos carrapato e menos mosca-do-chifre. O futuro do gado de leite para a Região Norte é o Girolando”, garante Santos.

São 12 vacas em ordenha, com média de 15 litros, e de 30 a 35 vacas em lactação. “Estamos só começando, mas com muita esperança que, em pouco tempo, vamos conseguir aumentar bastante a nossa média de leite por animal”, conta Santos, que quer chegar aos 1.500 l/dia. Para ele, um dos principais problemas enfrentados é a falta de mão de obra qualificada: “Já contratamos vários funcionários de Minas Gerais que desanimam em pouco tempo porque é uma atividade muito exigente, mas estamos otimistas, pois Rondônia está em pleno desenvolvimento e logo estaremos competindo com Minas e os estados do Sul”, garante.