Sobrevoando

Cruzamento

Toninho Carancho

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Há um bom tempo atrás fui jantar a convite de um amigo junto com um criador de gado canadense. Fomos comer uma boa carne, obviamente.

Conversando com este cidadão vim a saber que ele era, na época, presidente da Associação Canadense de Criadores de Charolês.

Sujeito conhecedor de gado. Pareceu- me também bastante sincero e até inocente, sem malícia. Tenho quase certeza de que outro dirigente de associação de raças não teria dito o que ele falou naquela noite.

Lembro que ele começou falando que ficou bastante surpreso com a quantidade de gado Charolês que viu no Paraná e, principalmente, no Rio Grande do Sul. Mais do que isso, ficou impressionado, negativamente, com a quantidade de gado puro que viu nas fazendas visitadas. Achou um exagero. Disse que no Canadá os fazendeiros tinham algumas cabeças puras e o restante do gado era cruzado com outras raças. Que o gado puro, independente da raça, servia somente para a produção e a venda de reprodutores, tanto machos quanto fêmeas, e que a produção de animais para o abate se dava na maior parte com gado cruzado, por um motivo bastante óbvio, são mais produtivos.

Nas palavras dele, não se deve utilizar animais puros para o abate e sim para promover cruzamentos. Ele mesmo tinha algumas vacas charolesas, suficientes para produzir o número adequado de touros e novilhas para a venda. O restante do gado era cruzado com Hereford e seguia todo para abate, com resultados superiores aos charoleses puros e também aos herefords puros.

Dei uma risadinha, daquelas de canto, quando ele falou isso. Ele estava certíssimo. Estava na nossa cara, mas não conseguíamos ou não queríamos enxergar.

Ele deu o exemplo do Charolês, mas poderia ser qualquer raça. Nós, como criadores apaixonados, queremos transformar nosso rebanho em um padrão único, raça única, independente do que vamos fazer com estes animais.

Não tenho a certeza se hoje em dia as coisas mudaram muito neste sentido, acho que não.

Outras coisas que ele disse naquela noite também se fixaram na minha memória. Disse que iria à França escolher touros e que normalmente comprava bem barato, pois escolhia aqueles que os franceses não queriam, mas que para ele eram os melhores para a pecuária canadense.

Pergunto: quantos de nós teríamos a coragem de comprar um touro no exterior que tivesse tirado o sétimo lugar numa categoria? Eu acho que sei a resposta. Nenhum de nós. Nós só compramos os grandes campeões, não importando se são os mais adequados à nossa criação ou não.

Outra, falou que gostou muito dos touros e tourinhos que viu, mas que não gostou das fêmeas em geral. Achou muito grandes e pesadas, masculinizadas. Também neste ponto acho que esta é uma tendência nossa, ficar com as vacas mais pesadas e grandes, não necessariamente as melhores (quase nunca são).

Enfim, foi uma completa aula de pecuária dada em apenas duas horas de conversa e isso há mais de 15 anos. Valeu mais que muito curso que tem por aí. E de graça.