Mercado

 

DO CHÃO À TRANSIÇÃO

Após muito vai e vem durante o período analisado, compreendido entre os dias 23 de março e 23 de abril, o mercado parece, finalmente, conseguir se recuperar, mesmo que, ainda, sem muita sustentação. Embora alguns afirmem que o mercado atingiu o “fundo do poço” da safra, outros acreditam em sinais de que isto já ocorreu e o que acontece agora não passa de uma fase de transição em direção aos próximos meses, quando, devido a diversos fatores, as coisas tendem a melhorar. Entre estas nuances, podemos citar a tão esperada redução no abate de fêmeas, após o término da estação de monta, que reduziu a grande oferta de animais observada nos períodos anteriores; a boa qualidade das pastagens em algumas regiões, resultado das recentes chuvas ocorridas, o que favorece a capacidade de suporte e permite que o pecuarista mantenha o animal no pasto por um tempo maior e, ainda, para aqueles que realizam a terminação de seus animais no cocho, a tendência de queda do preço do milho, que apresentou bons resultados nas colheitas da safra de verão e cuja expectativa é de boa produção também na safrinha. No que diz respeito ao sistema de terminação em confinamento, segundo estimativas da Assocon (Associação Nacional de Confinadores), a tendência de uma maior utilização desta tecnologia aponta para um aumento de 15% no volume total de animais terminados em confinamento em 2012, o que significa aumento na oferta de animais em algumas regiões para o segundo semestre do ano. Também com a proximidade do início do confinamento, os contratos futuros têm se mostrado, já neste momento, interessantes e as negociações na bolsa podem oferecer boas oportunidades para os pecuaristas.

O período iniciou com recuo na cotação do boi gordo, com o valor referência em São Paulo chegando a R$ 94,00/@ à vista. A demanda, no fim do mês de março, se manteve desaquecida pela descapitalização da população no período e, provavelmente em consequência dos feriados religiosos (fim da Quaresma e Semana Santa), permaneceu assim até o início do mês de abril. Os mercados atacadistas de carne com e sem osso tiveram fracos movimentos de venda e um leve aquecimento que pôde ser observado a partir da segunda semana do mês, quando as vendas de cortes dianteiros ganharam mais força, imprimindo um pouco mais de firmeza ao mercado. A oferta total de animais diminuiu e ainda na primeira semana do mês de abril houve, principalmente em SP e GO, um leve aumento na procura por animais de reposição, sendo que as categorias mais eradas (boi magro e garrote) foram as mais valorizadas. Contrários a esta situação, os estados do Pará, do Maranhão e de Rondônia, onde a anterior instabilidade do mercado travou as negociações de todas as categorias, passaram a enxergar perspectivas de reversão deste quadro, ajudados pela melhoria da qualidade das pastagens. Dificuldades de comercialização também puderam ser verificadas na Bahia e no Rio de Janeiro, onde uma forte estiagem de mais de 60 dias prejudicou o ritmo das negociações. Contrariando o cenário desfavorável enfretado pela maioria dos estados nesta época, aparecem o Paraná e o Rio Grande do Sul, com grande demanda por animais de reposição, acelerando o ritmo das negociações. O crescimento na demanda por animais destas categorias pode, nestes casos, ser indício de pecuaristas se preparando para o início da temporada de confinamento. Segundo análises da Scot Consultoria, esta proximidade do início dos confinamentos também tem aquecido a consulta de preços, provocando grande especulação no mercado, porém, ainda sem real efetivação de negócios. Além disso, nesta época de início do período seco em grande parte das regiões brasileiras, o produtor que não tem condições de confinar acaba optando por incrementar o fluxo de caixa da propriedade através do envio dos animais para o abate.

Apesar da redução observada na oferta de animais em fins de março e início de abril, o mercado voltou a sofrer uma leve pressão por parte das indústrias no fim do período analisado. Com o aquecimento da demanda por carne, observado a partir da segunda semana de abril, e a necessidade dos criadores de enviar os animais para o abate, as escalas evoluíram e os frigoríficos fecharam o período em situação relativamente confortável. Embora heterogêneas, a grande maioria das indústrias, até o fechamento desta análise, trabalhava com escalas que atendiam, em média, cinco dias. Em São Paulo, a referência ficou em R$ 96,00/@ à vista e R$ 97,50/@ a prazo.

Quanto às exportações, em março, segundo dados da MIDIC - Secex (Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio – Secretaria do Comércio Exterior), foram embarcadas 69,8 mil toneladas de carne bovina in natura, volume 27% superior ao de fevereiro, mas 12% inferior ao de março de 2011. A receita com a exportação totalizou US$ 340,8 milhões em março, alta de 26% frente à de fevereiro, mas queda de 13% em relação ao montante de março/11.

Segundo dados divulgados pela Abiec (Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne), no primeiro trimestre de 2012, a exportação total de carne bovina somou, em valores, US$ 1,223 bilhão, o que representa queda de 0,53% na comparação com US$ 1,230 bilhão obtido em igual período do ano passado.

Ainda segundo a Abiec, quanto ao mercado internacional, apesar da demanda europeia por carnes cair, sua produção tem seguido a mesma tendência, o que evita medidas de subvenção. A lista de fazendas aptas a exportar para a União Europeia divulgada pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) tem apresentado tendência de queda no número de fazendas habilitadas, sendo que a última apresentou um total de 1.905 fazendas distribuídas da seguinte forma: 11 no Espírito Santo; 263 no Mato Grosso do Sul; 417 no Mato Grosso; 35 no Paraná; 175 no Rio Grande do Sul; 136 em São Paulo; 406 em Minas Gerais e 462 em Goiás.

O Brasil conseguiu acessar, de acordo com o presidente da associação, mercados que tinham reduzido consideravelmente suas importações de carne bovina, como o Irã, por exemplo. No primeiro trimestre, as exportações de carnes bovinas para lá caíram 92,83%. Aos poucos, as exportações para aquele país vêm se recuperando. Ainda por causa do “efeito Irã”, os embarques totais de carne bovina nos primeiros três meses deste ano recuaram 5,71%. Em compensação, cresceram, tanto em valores quanto em volume, as vendas para os Estados Unidos (200,71% e 264,18%, respectivamente).

Para Egito e Líbia, os aumentos em valores no trimestre terminado em março foram de 220,85% e 73,25%, nesta ordem. Além disto, as vendas para os países árabes, agora livres de ditaduras, tendem a aumentar, já que o Brasil é o único país exportador no mundo que cumpre todos os protocolos religiosos, tanto árabes como judeus. Em tempo: países como Venezuela e Angola, apresentaram crescimentos de 19,28% e 19,90% no valor das exportações, respectivamente.

O preço da @ do boi gordo no mundo, considerando os 20 dias úteis analisados, apresentou queda em três dos quatro países normalmente considerados, sendo que somente a Argentina teve @ valorizada.

No mercado brasileiro, o preço pago pela @ do boi gordo a prazo sofreu altos e baixos entre os dias avaliados; tendo se firmado em fins de março, caído no início de abril, se recuperado no fim da primeira quinzena do mês e fechado o período levemente pressionado e em meio a incertezas.

Os valores médios pagos à vista, como de costume, seguem a tendência dos valores a prazo e foram de R$ 95,75 em São Paulo; R$ 88,36 em Minas Gerais; R$ 86,96 em Goiás; R$ 88,06 no Mato Grosso do Sul; R$ 84,56 no Mato Grosso; R$ 85,94 no Pará; R$ 93,40 no Paraná; R$ 98,00 em Santa Catarina e, no Rio Grande do Sul, R$ 3,21/kg PV. A média do deságio pago aos pecuaristas foi de 2,10%, 7,08% inferior ao período anterior, quando a diferença entre o preço pago à vista e a prazo pela @ ficou, em média, 2,26%.

O preço médio do bezerro atingiu R$ 644,75, contra os R$ 646,13 do período anterior (23/02 a 22/03/2012). Esta diferença representa uma diminuição de 0,22% no valor pago pelo indivíduo desta categoria. Os preços médios pagos, no período atual, pelo bezerro nas praças avaliadas foram de R$ 690,00/cabeça em SP; R$ 634,50/cabeça em MG; R$ 643,50/cabeça em GO; R$ 655,00/cabeça no MS; R$ 624,00/cabeça no MT; R$ 611,50/ cabeça no PA; R$ 676,00/cabeça no PR e R$ 623,50/cabeça no RS.

Para a categoria boi magro, o preço médio pago ao pecuarista apresentou aumento de 0,06% em relação ao período anterior. No período atual, houve queda nos estados de Minas Gerais (R$ 1.100,00/cabeça), Mato Grosso (R$ 1.040,00/cabeça) e Paraná (R$ 1.145,50/cabeça). Já os estados que apresentaram valorização do preço pago pelo boi magro foram São Paulo, com média de R$ 1.178,50/cabeça; Goiás, com média de R$ 1.108,50/cabeça; Pará, com média de R$ 1.121,00/cabeça; e Rio Grande do Sul, com R$ 1.152,50/cabeça. Apesar destas alterações, a relação de troca entre as categorias manteve os mesmos índices médios do período anterior: 2,28 entre desmama e boi gordo, e 1,31 entre boi magro e boi gordo.

De forma geral, durante os 20 dias úteis do referido período, o mercado apresentou ritmo relativamente constante nas negociações, ora mais lento, ora mais acelerado. O período que se aproxima, de transição, traz consigo expectativas de melhora para alguns setores da cadeia e uma leve tendência de queda do preço da @ por causa da pressão por parte da indústria. Além disto, colabora para este cenário uma possível e esperada elevação nos abates para os próximos dias, como tentativa dos produtores de obter receita mandando para o abate também os animais que não teriam condições de terminar no cocho, devido ao início do período seco em grande parte das regiões às quais pertencem as praças analisadas. O feriado do início do mês de maio tira um dia útil de abate, alongando as programações no início do mês e, também nesta fase, a demanda e o consumo estarão aquecidos, o que costuma ser positivo.

Natalia Laperuta e Andrea Brasil
Boviplan Consultoria