Sala de Ordenha

 

Indústria de lácteos reclama das margens

Diante dos altos custos de produção e preços praticamente estabilizados no atacado e no varejo, a indústria de laticínios se vê incapaz de reagir para recompor as margens.

Quando analisamos os preços praticados no varejo, a maior parte dos derivados subiu pouco mais que a inflação. Outros se mantiveram abaixo, como o queijo. Entretanto, os preços ao produtor subiram mais do que os derivados na gôndola. Fica evidente que, tomando como base janeiro de 2007 (índice 100), os preços ao produtor subiram mais do que as cotações no atacado.

Estas margens mais apertadas podem ser vistas no gráfico, no qual calculamos a diferença entre os preços no atacado menos o preço da matéria-prima para cada produto, levando em conta a quantidade de quilos de leite necessária para produzir derivados. O valor residual é corrigido pelo efeito inflacionário, sendo aplicado o fator 100 novamente para janeiro de 2007. Embora o queijo esteja em situação melhor, os demais estão com rentabilidade piorada. Além disso, analisando os últimos dois ou três anos, a tendência é declinante, desafiando de fato as margens industriais. O produtor, por sua vez, também teve de lidar com custos mais elevados.

Para Laercio Barbosa, presidente da ABLV (Associação Brasileira de Leite Longa Vida), uma das explicações possíveis para que o preço pago ao produtor tenha subido mais que no atacado e no varejo está nos investimentos promovidos na ampliação dos parques industriais.

Ocasionou uma disputa mais acirrada na busca do leite no campo. “A indústria saiu na frente e antecipou-se para atender a demanda, adotando uma política de preços para atrair mais leite, mas tudo tem limite” diz Carlos Humberto Mendes de Carvalho, presidente do Sindicato das Indústrias de Laticínios e Produtos Derivados do Estado de São Paulo (Sindileite/SP).

Segundo Luiz Fernando Esteves Martins, presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Queijo (ABIQ), desde a febre de exporexportação, em 2004/2005, as indústrias têm investido anualmente valores muito altos no aumento de capacidade instalada, em grande parte do território nacional, o que fez do leite uma matéria-prima disputada”.

Barbosa complementa: “Uma região onde essa situação é mais clara é o Sul, no RS e em SC. Além disso, acredito que os produtores estão mais organizados e tendem a ter mais força nas negociações.”

Ou seja, a indústria acabou pagando um valor alto para os produtores, o qual não foi repassado ao consumidor, como bem lembra Cesar Helou, diretor-comercial do Laticínio Bela Vista: “Se estiver muito caro, a dona de casa não leva o produto”. Para ele, o varejo está trabalhando com altas margens há algum tempo e não há como aumentar mais. Martins ainda lembra que o brasileiro paga mais caro por um queijo para sanduíche do que norte-americanos e europeus.

Mesmo com os preços mais altos para a matéria- prima, a produção não cresce no ritmo do consumo, sustentando os preços ao produtor. O Brasil está, a cada ano, aumentando a dependência do mercado externo, ainda que os valores estejam próximos da autossuficiência. As margens dos laticínios ficam mais apertadas a cada dia.

Em relação ao porquê da oferta não acompanhar o consumo, Martins aborda a questão da expansão dos laticínios, justificando que as fábricas processadoras ficaram prontas antes da resposta na produção. “Quando a indústria aumentava o preço em 5-10%, o aumento de produção era quase imediato. Nos dois últimos anos, aumentamos em 15% ao ano e a produção subiu muito pouco”, contrapõe Barbosa.

Carvalho lembrou de um ponto crítico da produção leiteira: “A atividade é difícil, há problemas com a mão de obra e concorrência de outras atividades”, diz. Já Helou não vê assim. Para ele, a produção tem aumentado muito e o número de produtores no Brasil acompanha.

Segundo os industriais, a situação não parece favorável nas projeções para 2012. O crescimento deverá ficar um pouco abaixo das marcas de 2011, que já foram menores que em anos anteriores. “Está ocorrendo uma desaceleração do consumo em 2012. O Produto Interno Bruto crescendo 3% influencia negativamente a taxa de crescimento do setor”, analisa Carvalho. Barbosa lembra que o aumento da inadimplência e a restrição ao crédito também complicam.

“O setor lácteo deve ter fechado 2011 com crescimento de 5%, um bom número. No entanto, o último trimestre foi decepcionante”. Com opinião diferente, Helou diz não sentir a desaceleração e acredita que são as marcas mais caras a sentir retração.

“A situação está insustentável, com indústrias apresentando sinais de dificuldades devido à rentabilidade negativa nos últimos meses. Uma correção significativa dos preços ao produtor será feita, com queda nominal nos preços ainda no primeiro semestre”, conclui Barbosa. A grande questão é como dividir a conta. O fato é que os preços da matéria-prima são, afinal, o resultado das forças do mercado.

Marcelo Pereira de Carvalho, diretor-executivo da AgriPoint Maria Beatriz Tassinari Ortoloni, analista de Mercado do Milkpoint