Sobrevoando

 

Casa Rosada II

Estive na Argentina. Não fui a nenhum shopping ou galeria. Fiz compras mínimas, tipo camisas do Boca Juniors para familiares. Fui ver gado, que é o que eu gosto.

Era época da exposição de Palermo, que tinha visitado tempos atrás e que continua firme, incrustada em Buenos Aires. Gado europeu de primeira qualidade e também sintéticos, Brangus e Braford muito bons. A pecuária argentina está indo para cada vez mais distante da capital e mais longe dos melhores campos. Então, o sangue zebuíno está entrando na forma destas raças sintéticas, com grandes resultados.

Também aproveitei para visitar uma central de inseminação artificial, a convite de amigos, onde pude verificar a qualidade dos touros, assim como a diversificação de tipos. Imaginava que o gado argentino teria um modelo único, o “tipo argentino”. Enganei-me redondamente. Nesta central, pude observar, nas diferentes raças, diferentes touros. Uns grandes e compridos, outros médios e fortes e ainda outros bem pequenos e gordos. Ou seja, cada touro feito para um determinado tipo de vaca e/ou para um determinado fim. Ou ainda para uma determinada região e tipo de alimentação. Não existe este tal tipo argentino. São vários, tal qual no Brasil, e imagino que também no restante do mundo.

Nesta mesma visita, tive a oportunidade de presenciar uma palestra muito interessante sobre a pecuária argentina. Gráficos, fotos e uma apresentação bastante leve e bem feita, às vezes até com certo humor.

O que mais me marcou foi o que aconteceu quando o governo Kirschner resolveu dar uma dura nos pecuaristas e trancou as exportações no intuito de baixar os preços da carne para a população nacional. No início teve algum sucesso, baixando o preço na marra. Mas no médio prazo os pecuaristas acabaram liquidando com o rebanho porque já não valia mais a pena criar gado. A Argentina perdeu cerca de 12 milhões de cabeças entre 2007 e 2011.

E agora, como um bumerangue, os preços do gado foram ficando cada vez mais altos. A mercadoria foi ficando rara e, portanto, cara. E o governo não teve mais como segurar. Fica a lição: mexer na economia, na marra, na porrada, não dá certo por muito tempo. Pode até funcionar para uma eleição e um pouco mais, mas no fim a tendência é voltar ao normal.

Mas o ponto alto da viagem estava reservado para o final. A família proprietária da central de inseminação tem como sede da fazenda uma daquelas casas sensacionais de estâncias argentinas, daquelas de filme. Foi construída pelo mesmo arquiteto da Casa Rosada, sede do governo em Buenos Aires. Tem a mesma cor e uma imponência impressionante. Rodeada por um jardim imenso, grandes e centenárias árvores compõem um cenário realmente incrível. Tive a felicidade de ser convidado a tomar um chá (com vários tipos de bolos e tortas servidos por duas funcionárias uniformizadas e de luvas brancas) com os proprietários e conversar com a matriarca, muito simpática, neta do almirante Barroso. Ela é ex-moradora do Rio de Janeiro, argentina e fala um português muito bom.

Chá das cinco naquela casa, gado de raça e o preço da arroba em alta, isso sim é que é vida.