Caindo na Braquiária

Papel das matrizes na produção de carne futura

O sol ainda não havia raiado no horizonte e, do alto da plataforma sobreposta aos currais de espera de um dos maiores frigoríficos do País, a visão que se tinha era de entristecer qualquer cidadão que ama uma boa vaca Nelore. Todo o frigorífico estava reservado por um único criador que abateria naquele mesmo dia 800 vacas criadeiras. Questionado sobre quem abateria matrizes daquela excelente qualidade, Jaime, o gerente da matança, respondeu com um misto de tristeza e indignação: “Não são apenas 800 e sim 16.000 matrizes do mesmo criatório, as quais ocuparão nossa escala para os próximos 20 dias”.

Esse pecuarista, que no passado recente era um dos maiores produtores de bezerros do Pantanal, afirmava: “Com a valorização das terras no Pantanal e o baixo valor pelos bezerros de qualidade, decidi, por enquanto, partir para a recria, na qual a margem de lucro é maior. Sei que voltarei a fazer bezerros, pois quem foi criado vendo vaca parir não consegue ficar fora da cria. Estou certo que vaca será ainda objeto de cobiça no futuro próximo”.

Assim que cheguei na ExpoLondrina encontrei Guilherme Torres, um dos bons amigos que fiz e lídimo representante da boa cria. Ele é mais um dos inúmeros pecuaristas que substituíram a atividade pela recria- engorda, esclarecendo que o fator que vem pesando no sistema é a necessidade de mão de obra de qualidade, a qual pode ser menos qualificada e em menor quantidade no sistema de engorda.

Sob a égide dos frigoríficos, é um fator que vem se tornando uma cena comum. Quando falamos de matrizes de qualidade, tratamos do aumento na procura da novilha meio-sangue Angus para engorda e abate, na qual a carne apresenta gordura clara, ótima maciez e cobertura de gordura, sendo vendida por melhores preços a nichos de mercado mais exigentes. Considerada por muitos a “Rainha da pecuária brasileira” pelos seus apanágios reprodutivos, essa matriz F1, naturalmente precoce e fértil, apresenta uma versatilidade inigualável, servindo de base para outros programas de produção.

Viajando do Rio Grande do Sul ao Pará, podemos encontrar a F1 “Rainha da cria” sendo utilizada como receptora de embriões, como base para a formação do Brangus ou mesmo servindo de barriga para animais tricross que se encaixam dentro de programas de carne especiais como o Bonsmara, o qual vem sendo usado sobre a F1 para produzir a carne do programa Bonsmara Beef. Não podemos nos esquecer ainda do Wagyu, que vem usando essa F1 Angus como mãe dos tricross da raça para gerar o Kobebeef, tão valorizado e procurado nos restaurantes finos de São Paulo.

Como se não bastasse, quando pensamos no sistema de produção do superprecoce, animal abatido antes da primeira muda de dentição, a F1 Angus entra como a base ao ser inseminada com outras raças europeias, tais como Hereford, Simental, Pardo de Corte, Charolês, criando aí o produto com alto metabolismo requerido na engorda do superprecoce, o qual deve ganhar, se possível, na faixa de 1.800g/dia.

Uma explicação prosaica para a migração da cria para a engorda é a facilidade da compra de bezerros por preços atrativos, somada a nosso sistema de recria e engorda a pasto. Mesmo sabendo que toda comparação é odiosa, quando observamos a pecuária americana atual, encontramos uma estratificação de rebanho bem diferente da nossa, onde o pasto é reservado à produção de bezerros, permanecendo para os confinamentos a responsabilidade pela engorda dos mesmos, não havendo praticamente a recria. O reflexo primeiro é o alto desfrute obtido pelo rebanho norte-americano (acima de 35%), maior produtor de carne no mundo com apenas 90 milhões de cabeças, face a nossas 200 milhões de cabeças.

Devemos nos conscientizar que, se queremos fugir dessa vetusta realidade de nossa pecuária e dobrar a produção de carne na mesma área, não há outro caminho que não seja manter vaca no pasto, melhorando-as paulatinamente através da seleção e utilizando- as no cruzamento industrial com raças maternas para, assim, produzir os excepcionais tricross que deverão ser confinados, seja após uma pequena recria nas áreas de integração Lavoura-Pecuária ou mesmo confinados tão logo sejam desmamados.

Se nosso País realmente quiser duplicar a produção de carne na mesma área, basta fazer cruzamento e melhorar pastagens, mas se o Brasil almejar triplicar a produção de carne não há outra alternativa senão, além de cumprir as necessidades anteriores, dobrar o rebanho de fêmeas, passando a 80 milhões de vacas de corte no pasto, e ainda continuar crescendo o sistema de engorda no confinamento, onde todo e qualquer macho de corte será terminado para abate.

Alexandre Zadra - Zootecnista [email protected]