Do Pasto ao Prato

 

“OURO NEGRO” DA ÍNDIA DESPONTA

Saiu o novo relatório do USDA sobre mercado mundial da carne bovina. Os dados são interessantes, pois há algumas mudanças importantes.

A Índia deverá se tornar o maior exportador de carne bovina mundial em 2012 devido à expansão do rebanho leiteiro, às melhoras na eficiência, aos maiores abates e à competitividade de preços no mercado internacional, particularmente com relação ao Brasil.

As exportações da Índia são exclusivamente de carne de búfalo congelada. De acordo com o mais recente Censo Indiano de Animais (2007), os búfalos representam aproximadamente um terço do rebanho bovino do país. Eles são preferíveis aos bovinos devido a sua adaptabilidade às condições climáticas e ao alto teor de gordura do leite, à medida que a produção leiteira impulsiona o setor bovino. A lei federal da Índia proíbe o abate de todos os gados (machos e fêmeas), bem como de animais (bovinos ou bubalinos) produtivos em leite. Assim, a produção de carne bovina ou de búfalo é direcionada pelo abate de bubalinos, que é permitido, apesar de restrito a machos e fêmeas não produtivas.

As exportações indianas fizeram grandes progressos no Oriente Médio, África do Norte e Sudeste da Ásia (mercados importantes para o Brasil), à medida que toda a carne de búfalo tem menor preço e é produzida de acordo com o padrão halal. Além disso, é uma carne magra, com características combinadas positivas importantes para os processadores.

Os ganhos de produção são em grande parte destinados ao mercado de exportação. A demanda doméstica está limitada pelas instalações com cadeia de frio e pela preferência dos consumidores por proteínas não de bovinos, como produtos de aves, produtos lácteos e os aumentos, dessa forma, meramente acompanhando o crescimento populacional.

A produção global de carne bovina em 2012 será de 57 milhões de toneladas, ou seja, a cada seis quilos de carne bovina produzidos no mundo, um vem do Brasil. A previsão de exportação foi revisada em 497 mil toneladas a mais, para um recorde de 8,7 milhões de toneladas, impulsionadas por Índia, Colômbia, Austrália e Nova Zelândia. As importações por parte da Venezuela, Rússia e Estados Unidos estão aumentando por causa da demanda mais forte, que não é satisfeita pelas ofertas domésticas. A produção de carne bovina dos Estados Unidos está levemente menor; as exportações permanecem virtualmente sem mudanças.

PRINCIPAIS PRODUTORES

Índia: a produção deverá crescer significantemente (220 mil toneladas) para 3,5 milhões de toneladas, baseada na expansão do rebanho leiteiro, maiores abates e competitividade de preços no mercado global de carnes, particularmente em comparação ao Brasil. Como as exportações representam 44% da produção, o crescimento nas exportações apoia o aumento da produção.

Austrália: a produção aumentou levemente, para 2,2 milhões de toneladas, calcada nas melhores condições de pastagens e ofertas de alimentos animais, resultando em pesos historicamente altos das carcaças. A produção da Nova Zelândia também foi revisada para cima, para 652 mil toneladas, à medida que as melhores condições de pastagens no final do ano passado adiaram alguns abates até 2012 e o peso das carcaças aumentou.

Coreia do Sul: a produção foi revisada para 340 mil toneladas, com base nos abates refletindo maiores estoques, preços menores do gado, elevados custos dos alimentos animais e os planos do governo para abater vacas de menor desempenho.

Estados Unidos: a produção deverá ser levemente maior, em 11,5 milhões de toneladas, à medida que os animais colocados em confinamento no final de 2011 foram comercializados no começo de 2012, graças à seca. As safras de bezerros de 2011 e de 2012 foram revisadas para baixo; a safra 2011 é a menor desde 1950.

Rússia: a previsão de produção foi reduzida em 45 mil toneladas, para 1,3 milhão de tonelada, à medida que a lucratividade na indústria de lácteos, da qual a carne bovina é subproduto, encoraja os produtores a reter vacas e novilhas.

Egito: o recente foco de febre aftosa resultou em uma diminuição na revisão, para 280 mil toneladas. Venezuela: a produção foi revisada para baixo, para 285 mil toneladas, compensada por um aumento nas importações para suprir a demanda.

EFEITO ÍNDIA

As exportações da Índia foram revisadas em 250 mil toneladas a mais, para 1,5 milhão de toneladas, tornando esse país o líder mundial em exportações. A expansão da demanda por importadores sensíveis aos preços, principalmente no Sudeste da Ásia, Oriente Médio e África impulsionaram um aumento no número de exportação orientada aos abatedouros. O status de febre aftosa da Índia permanece um obstáculo significante para a expansão do acesso a mercados.

A maior produção na Austrália e Nova Zelândia aumentarão as ofertas e as exportações aumentarão para 1,4 milhão de toneladas e 544 mil toneladas, respectivamente. A forte demanda dos Estados Unidos, particularmente, para processamento de carne bovina, pesará mais do que o alto dólar australiano e suportará maiores exportações aos Estados Unidos.

A renovação das relações comercias da Colômbia com a Venezuela permitirá que suas exportações aumentem para 100 mil toneladas e também impulsionará os envios de animais vivos.

As exportações do Brasil foram revisadas para marginalmente menores, para quase 1,4 milhão de toneladas, à medida que o declínio na demanda iraniana somente será parcialmente compensado pelos ganhos nos mercados alternativos como Egito e Venezuela.

As exportações da União Europeia (UE) foram revisadas para baixo em 20 mil toneladas, para 445 mil toneladas.

IMPORTADORES DE CARNE

As previsões de importações dos Estados Unidos foram aumentadas em 166 mil toneladas, para 1,1 milhão de toneladas, à medida que as ofertas domésticas escassas, a forte demanda e as amplas ofertas da Oceania compensam o dólar fraco.

A previsão de importações da Rússia foi revisada para cima em 85 mil toneladas para 1,1 milhão de toneladas, pela menor produção e pelas novas condições de acesso a mercados pela acessão à Organização Mundial de Comércio (OMC). A Rússia é o maior importador de carne bovina do mundo, hoje.

A renovação das relações comerciais da Venezuela com a Colômbia facilitará maiores importações, que deverão se elevar para 325 mil toneladas com relação à previsão de outubro, para 125 mil toneladas. As ofertas também virão do Brasil e animais vivos (para abate na Venezuela) serão fornecidos pela Colômbia e pelo Brasil.

COMENTÁRIOS BEEFPOINT

O Brasil já é o segundo maior mercado mundial de carne bovina do mundo, ficando apenas atrás dos EUA. Consome mais carne bovina do que os 27 países da União Europeia juntos. Incrível para um país emergente como o nosso. Isso reforça ainda mais a importância e força do mercado interno. Precisamos trabalhar mais para que a carne bovina melhore a imagem junto ao consumidor.

O ranking dos exportadores muda um pouco esse ano. Índia em primeiro, com o búfalo muito barato e expansão desse rebanho. O “ouro negro”, como é chamado na Índia, tem muitas vantagens em relação ao bovino: muito rústico, produz leite rico em gordura e a lei permite seu abate.

Em segundo lugar, vem a Austrália, que está conseguindo vender mais carne por dois motivos: acesso aos EUA e Japão, que o Brasil não consegue vender por não ter negociado status sanitário e também por ter preços mais competitivos que o Brasil.

Para o Brasil, mais importante do que ser o maior exportador de carne do mundo, é ter uma venda rentável de carne. Atualmente um dos melhores mercado do mundo, para todo tipo de produto, é o mercado interno, o próprio Brasil. Precisamos aproveitar mais isso. Fonte: dados do USDA, análise BeefPoint.

Miguel da Rocha Cavalcanti é engenheiro-agrônomo e coordenador do BeefPoint, site especializado na cadeia produtiva da carne bovina (www.beefpoint.com.br)