Caprinovinocultura

 

sanidade é PRIORIDADE

Trabalho de pesquisa pretende auxiliar produtores com estratégias de prevenção às doenças que mais afetam os rebanhos de caprinos e ovinos no País

Denise Saueressig [email protected]

Condição essencial para a rentabilidade de um rebanho, a sanidade deve encabeçar a lista de prioridades de qualquer criador, independente do perfil. Como a prevenção ainda é o melhor remédio, conhecer os inimigos é o primeiro passo para um planejamento de sucesso.

Um trabalho realizado pela Embrapa pretende auxiliar os produtores no combate às principais doenças que afetam os rebanhos de caprinos e ovinos no Brasil. Um mapeamento das enfermidades foi iniciado em janeiro de 2009 em nove estados para identificar o nível de infecção dos plantéis por nove doenças. A pesquisa tem o objetivo de caracterizar o perfil zoossanitário da caprinocultura e da ovinocultura tropical por território.

Nesta etapa do trabalho, foram relacionados os estados da zona tropical com a maior representatividade na atividade: Ceará, Piauí, Rio Grande do Norte, Paraíba, Sergipe, Bahia, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Os estudos a campo incluem a coleta de amostras de sangue em propriedades e a aplicação de questionário aos produtores, com a abordagem de temas como nutrição, reprodução, sanidade e manejo geral. O objetivo é identificar os fatores de risco e o impacto econômico que as enfermidades provocam.

Até meados de abril, o trabalho a campo havia sido finalizado em seis estados, com a visita a 528 propriedades e a coleta de 12.490 amostras.

Além dos especialistas da Embrapa, estão envolvidos profissionais de diferentes instituições de ensino, tecnologia e extensão rural.

Uma nova proposta já foi elaborada para outros dez estados que não integraram essa primeira parte do trabalho. Caso seja aprovado, o plano incluirá propriedades no Rio Grande do Sul, Paraná, São Paulo, Mato Grosso, Goiás, Pernambuco, Alagoas, Maranhão, Rondônia e Pará. Além das nove doenças abordadas no estudo anterior, a Micoplasmose também será avaliada.

A veterinária Lauana Borges Santiago, pesquisadora da Embrapa Caprinos e Ovinos, lembra que a grande ocorrência de doenças e a mortalidade de animais são importantes entraves para o desenvolvimento da caprinovinocultura no Brasil. Segundo ela, a escassez de informações limita a implantação de medidas de prevenção e controle. “A ideia principal do projeto é fornecer dados concretos para o direcionamento de políticas públicas e privadas na área de defesa sanitária animal e orientar as tomadas de decisão relacionadas ao Programa Nacional de Sanidade de Caprinos e Ovinos do Ministério da Agricultura”, informa.

Entre as doenças avaliadas, três estão listadas no programa do governo: Artrite Encefalite Caprina, Maedi-Visna e Brucelose Ovina. As demais enfermidades analisadas são Linfadenite Caseosa, Clamidofilose, Neosporose, Toxoplasmose, Língua Azul e Leptospirose.

Lauana explica que o projeto também quer dar apoio tecnológico e educativo em sanidade, com ações diretas de transferência de tecnologia. “A intenção é estruturar programas de controle específicos por região”, detalha.

É PRECISO PÔR TEORIA EM PRÁTICA

Até agora, uma das conclusões do projeto foi de que os produtores retêm um bom conhecimento técnico a respeito dos aspectos sanitários. No entanto, por algum motivo, esse conhecimento não vem sendo aplicado na prática. “É preocupante, porque a implantação de medidas simples relacionadas ao manejo poderia reduzir drasticamente a mortalidade do rebanho e melhorar os índices zootécnicos”, salienta a veterinária da Embrapa.

Lauana ressalta que o produtor precisa estar consciente que problemas de ordem sanitária geram aumento dos custos de produção, queda na produtividade geral do rebanho, restrição do comércio de animais e seus produtos ou, até mesmo, riscos para a saúde pública. “A questão nutricional é outro fator de risco, porque a saúde dos animais está diretamente relacionada à alimentação. A utilização de reserva alimentar para o período seco, por exemplo, poderia garantir a nutrição adequada dos animais ao longo do ano e, consequentemente, melhorar a saúde geral do rebanho. Além disso, observamos que a verminose gastrintestinal e a Linfadenite Caseosa são alguns dos problemas mais frequentes nos criatórios de caprinos e ovinos do Brasil”, assinala.

Segundo a pesquisadora, entre as doenças analisadas, uma atenção especial deve ser dada a Artrite- Encefalite Caprina, Maedi-Visna e Brucelose Ovina, as três enfermidades contempladas pelo programa nacional de sanidade. “A principal forma de transmissão das duas primeiras doenças se caracteriza pela ingestão de colostro ou leite de animais infectados. Assim, em um rebanho infectado, as crias devem ser removidas das mães, imediatamente após o parto, e, fornecido colostro termizado proveniente de rebanho não infectado e/ou leite pasteurizado. Os animais positivos devem ser isolados do restante do rebanho. Além disso, nenhum animal deve ser introduzido na propriedade antes da obtenção de três resultados sorológicos negativos, intervalados de três meses”, recomenda.

Quanto à Brucelose Ovina, os carneiros reprodutores são o principal ponto de atuação para o controle, já que nas fêmeas o agente infeccioso permanece por pouco tempo no organismo. “Para evitar a introdução da doença no rebanho, sugere-se que sejam adquiridos, somente, animais comprovadamente negativos. Todos os animais infectados devem ser descartados. Exames clínicos e laboratoriais podem ser associados para uma efetiva avaliação na época da reprodução. Além disso, a separação dos reprodutores por faixa etária pode evitar a disseminação da doença”, indica Lauana.

PRINCÍPIOS BÁSICOS

Independente da região produtora e do perfil de cada fazenda, existem cuidados básicos que todo criador deve seguir para um manejo sanitário adequado. Segundo a veterinária, alguns desses princípios são cura de umbigo com solução de iodo a 10%; higienização frequente das instalações; garantia da ingestão de colostro pelas crias nas primeiras seis horas de vida; separação da fêmea antes do parto; pedilúvio e casqueamento preventivo; quarentena; isolamento de animais doentes e melhorar eficiência do tratamento; mineralização e nutrição adequada; e oferecimento de sombra e água limpa aos animais.

Pesquisadora Lauana Santiago: “A implantação de medidas simples poderia reduzir muito a mortalidade do rebanho e melhorar os índices zootécnicos”

O calendário de vacinação deve ser elaborado de acordo com a ocorrência de casos ou surtos de doenças infectocontagiosas em cada região. Para o controle da verminose, especificamente, recomenda-se a utilização do método Famacha. “Como última dica, no caso de problemas sanitários, deve-se evitar o uso indiscriminado de medicamentos e consultar um médico-veterinário. Na verdade, a assistência periódica da propriedade por técnicos especializados é a melhor forma de garantir bons índices zootécnicos na produção”, orienta Lauana.