Entrevista do Mês

 

ANGOLA, a pátria-irmã do Brasil

Um gigante está prestes a despertar e o nome dele é Angola. Trinta anos de guerra civil devastaram a infraestrutura e a agropecuária do país africano, que, com uma economia calcada em petróleo e diamantes, investe fortemente para reconstruir sua nação. Considerados irmãos, os brasileiros têm papel fundamental no processo. Um deles é Rodolfo Wartto Cyrineu, diretor da Suporte Rural Consultoria, que fala mais sobre este novo mercado.

Adilson Rodrigues [email protected]

Revista AG - Após 30 anos de guerra civil, Angola tenta reconstruir o país. Como os brasileiros estão contribuindo para este processo?

Rodolfo Wartto Cyrineu - Angola e Brasil são países com muitos pontos em comum, em função de serem colonizados por Portugal. O fato das duas nações terem o português como idioma oficial já facilita muito as relações comerciais. Neste aspecto, há muitos brasileiros envolvidos na reconstrução do país, como executivos, construtoras ou mesmo mão de obra qualificada na construção civil.

Revista AG - Com qual periodicidade costuma visitar o continente africano?

Rodolfo Cyrineu - Iniciamos nossos primeiros trabalhos em 2009 para fazer avaliação técnica de uma propriedade rural. Desde então, estamos sempre aumentando a frequência de viagens àquele país.

Revista AG - O país africano já foi o 4º produtor mundial de café, agora quais são as prioridades definidas para a agricultura e a pecuária?

Rodolfo Cyrineu - A reconstrução do país começou pela infraestrutura, como prédios, moradias, estradas e ferrovias. Agora, estão iniciando a retomada da agropecuária, com implantação de alguns projetos privados. Há grande interesse pelo governo local na retomada da agropecuária angolana.

Revista AG - A meta é para que o país recomponha a produção animal e vegetal em quanto tempo? Há ambição de se tornar fornecedor de alimento para o mundo ou apenas em atender plenamente a demanda interna?

Rodolfo Cyrineu - Ainda não foi definido um plano de metas para agricultura. Mas existe a intenção de retomar a produção agropecuária tanto para abastecer o mercado interno como também para exportação de alguns produtos específicos.

Revista AG - Quais os insumos agropecuários brasileiros que mais têm sido exportados para os africanos?

Rodolfo Cyrineu - Todos os insumos, as máquinas e os equipamentos são importados. Além disso, o país africano já figura entre os maiores compradores de carne bovina brasileira. Quase a totalidade dos alimentos consumidos por lá são importados.

Revista AG - Em relação às sementes de pastagem, em especial, quais as principais cultivares adquiridas do Brasil?

Rodolfo Cyrineu - Em termos de pastagens, as mais utilizadas são a Bracharia brizantha e a Brachiaria decumbens.

Revista AG - Sal mineral e medicamentos veterinários também ocupam grande destaque no “carrinho de compras”?

Rodolfo Cyrineu - Alguns medicamentos veterinários são oriundos do Brasil. No entanto, muito do sal mineral é importado da Europa.

Revista AG - Tem muito brasileiro indo morar em Angola para trabalhar com pecuária ou são os técnicos brasileiros que vão até lá para treinar a mão de obra?

Rodolfo Cyrineu - Ainda há poucos brasileiros indo atuar na agropecuária, pois o país ainda está numa fase muito inicial de retomada. A grande maioria dos brasileiros vai para trabalhar na construção civil.

Revista AG – A entrada no país esbarra em um processo dificultoso?

Rodolfo Cyrineu - Para mão de obra especializada não há dificuldade. Basta uma empresa angolana fazer um contrato de trabalho com pessoas qualificadas que não há problemas. Já pessoas sem qualificação são mais difíceis de ingressar no mercado angolano, resultado de uma política de proteção dos trabalhadores locais.

Revista AG - Animais, sêmen e embriões de bovinos, caprinos ou ovinos estão na pauta de importações? Quais as principais raças adquiridas?

Rodolfo Cyrineu - O Brasil tem realizado exportação de gado Nelore. Porém, há um certo preconceito com a raça, principalmente porque lá o manejo dos animais é realizado por pastores, que acompanham a pé o lote de animais, criados soltos normalmente. Neste caso, bovinos Nelore, principalmente vacas com crias novas, podem investir contra o pastor e, também, como não existem cercas, ainda tem o risco dos animais fugirem.

Revista AG - Gado vivo também está sendo embarcado rumo a Angola? Como é esse mercado?

Rodolfo Cyrineu - Há um processo de envio de animais vivos, principalmente para iniciar o povoamento das fazendas recémmontadas.

Revista AG - Ainda existe um rebanho considerável de bovinos na Angola? Há alguma raça remanescente que valha a pena ser utilizada em cruzamentos industriais?

Rodolfo Cyrineu - Os números não são muito confiáveis. Acredita-se que há cerca de 2 milhões de cabeças de gado, principalmente da raça Sanga (nativa), além de um pouco de animais da raça Bonsmara.

"A economia angolana é sustentada basicamente pelo petróleo e, em segundo lugar, por diamantes. Isto gera recursos para o país investir em tecnologia, infraestrutura e educação, que são as bases para um crescimento sustentável."

Revista AG - Quanto aos pecuaristas, qual o contingente angolano existente atualmente?

Rodolfo Cyrineu - São poucos os pecuaristas atuais. Muitos se localizam na região Sul do país, onde o clima é semiárido, com média de 55% de prenhez. Também é muito comum pastores com lotes entre 20 e, no máximo, 200 animais.

Revista AG - Em termos de reprodução, deve ser implementado programas de inseminação ou o foco inicial é a monta natural? Quais os itens mais importantes desta pauta?

Rodolfo Cyrineu - Pelo início do processo de retomada da agropecuária, o uso de touro é a maneira mais confiável, em função de falta de mão de obra qualificada. A exceção são alguns projetos específicos, com possibilidades maiores de investimento.

Revista AG - Quando o país maturava retomar o crescimento, uma recente crise do petróleo adiou um pouco os planos. Como isso afetou a população e o empresariado local?

Rodolfo Cyrineu - Com a crise americana eclodida em 2008, houve forte retração no preço do petróleo. Como a principal renda do país é com o petróleo, registrou- se uma forte queda na economia angolana, resultando em diversos projetos paralisados e muitos nem mesmo saindo do papel. O impacto foi muito grande. Imagine de um dia para o outro você contar com apenas 25% da renda mensal que você possuía. Isso foi o que aconteceu por lá. No entanto, com o preço atual do petróleo acima do US$ 100,00/ barril, a economia tem retomado seu crescimento e os investimentos voltaram a acontecer.

Revista AG - Entretanto, hoje, podemos dizer que o país goza de um momento próspero?

Rodolfo Cyrineu - O país tem vivido um momento de prosperidade em função dos grandes investimentos oriundos do petróleo para a reconstrução nacional. Muitas obras públicas e privadas vêm sendo realizadas, dando velocidade à economia local.

Revista AG - Com isso, teria condições de ultrapassar a África do Sul, por exemplo?

Rodolfo Cyrineu - A economia angolana é sustentada basicamente pelo petróleo e, em segundo lugar, por diamantes. Isto gera recursos para o país investir em tecnologia, infraestrutura e educação, que são as bases para um crescimento sustentável. Como a máquina econômica voltou a acelerar, o país terá condições de se tornar uma “Califórnia africana”, podendo superar, inclusive, a própria África do Sul.

Revista AG - Ou seja, o país está com um bom dinheiro em caixa para investir. Isso pode ser deveras positivo para os empresários brasileiros?

Rodolfo Cyrineu - Não apenas para empresários brasileiros, mas a todos aqueles que desejam contribuir de forma significativa com o desenvolvimento angolano e saibam trabalhar em meio a uma cultura diferente de seu país de origem.

Revista AG - Brasil e Angola tem um relacionamento muito amigável. Como começou essa história?

Rodolfo Cyrineu - Essa história começou com a colonização portuguesa de ambos países, depois pela vinda maciça de escravos originários de Angola ao Brasil, influenciando a nossa cultura. O fato de o Brasil ter sido o primeiro país a reconhecer a independência de Angola também tem tido importante papel nesse relacionamento, além da própria língua portuguesa, comum aos dois países.

"Sendo o Brasil líder mundial em agropecuária tropical, o fato de Angola possuir o mesmo clima facilita muito a transferência de tecnologia rural. De 80% a 90% de todas as tecnologias adquiridas são provenientes do Brasil."

Revista AG - Particularmente à agropecuária, a localização de Brasil e Angola no mesmo trópico é o que tem facilitado o intercâmbio de tecnologias entre os dois países?

Rodolfo Cyrineu - Sim. Sendo o Brasil líder mundial em agropecuária tropical, o fato de Angola possuir o mesmo clima facilita muito a transferência de tecnologia rural. De 80% a 90% de todas as tecnologias adquiridas são provenientes do Brasil.

Revista AG - Apesar que mesmo em outros setores há uma apreciação muito grande dos produtos brasileiros pelos angolanos. As roupas seriam um bom exemplo?

Rodolfo Cyrineu - A população angolana feminina prefere as roupas brasileiras, em função do corpo da mulher angolana ser mais parecido com o da mulher brasileira, como dizem por lá. Também a influência das nossas novelas é fator importante, pois leva a moda e o dia a dia dos brasileiros aos lares angolanos.