Sombreamento

 

Arborização de pastagens

Novilhas atingem idade para reprodução cinco meses antes que aquelas criadas sem sombra

Rogério M. Dereti* e Vanderlei Porfírio da Silva**

Os animais criados em sistemas pastoris são endotérmicos, ou seja, mantêm a temperatura corporal gerando dentro de si ou dissipando, por meio de mecanismos de adaptação, o calor necessário para manutenção das funções vitais. A geração deste calor depende da alimentação, da atividade física, da fase do ciclo de vida (crescimento, lactação, prenhez, etc.) e do ambiente externo. A temperatura corporal interna deve ser mantida dentro de certos limites, constituindo uma estreita faixa de variação, ideal para o funcionamento adequado do organismo. Quando a temperatura externa sobe ou desce além de certos valores (zona de conforto térmico), ocorre um gasto maior de energia para manter a temperatura corporal dentro dos limites adequados. Além da temperatura, fatores como tipo de radiação solar incidente, umidade do ar, velocidade dos ventos, características topográficas, vegetação e espaço disponível para os animais (lotação) relacionam-se ao conforto térmico por interferirem na geração e na eliminação de calor pelos animais. Quanto maior a umidade relativa do ar, mais baixa é a tolerância ao calor, pela diminuição da eficácia das trocas térmicas.

Excessos de calor ou de frio aumentam a necessidade de energia para a manutenção de funções vitais, desviando energia que seria utilizada para fins produtivos. A necessidade de adaptação constante a um meio ambiente de amplas variações térmicas provoca uma situação de estresse que diminui a imunidade e interfere sobre as funções de crescimento, manutenção e reprodução dos animais. Pesquisas mostram que novilhas em crescimento em pastagem arborizada, por exemplo, atingem condições para reprodução (idade para cobertura) até cinco meses antes do que aquelas em pasto sem sombreamento. Portanto, o gasto de energia, seja para dissipar calor ou para aumentar a produção, interfere diretamente no resultado dos sistemas de produção pecuários.

O Brasil é um país que comporta grandes variações climáticas entre as regiões e mesmo dentro de cada uma delas. Grande parte dos sistemas de produção pecuários aqui adotados não leva em conta os extremos de temperatura e umidade entre as estações do ano e, em alguns casos, na mesma estação. A capacidade de adaptação dos animais a estes extremos é constantemente testada, ao custo da perda de eficiência produtiva em diferentes graus. Bovinos são animais originários de regiões de transição entre bosques e campos/savanas e estão adaptados à presença de árvores que servem como referencial espacial, como recurso alimentar eventual e também abrigo. Embora existam controvérsias acerca dos valores, admite-se que o limite superior de conforto térmico, isto é, a temperatura a partir da qual os bovinos sofrem estresse por excesso de calor, é de 32º a 35ºC para raças zebuínas e de 25º a 29ºC para raças europeias. Em dias quentes e de forte insolação, a sombra dá conforto aos animais.

Trabalhos de autores como Matheus Paranhos, no País, mostram que tanto bovinos europeus, zebuínos e ovinos em regime de livre escolha passam maior parte do tempo à sombra. Vacas com livre acesso à sombra têm maior ingestão de alimentos e maior produção leiteira. A falta de sombreamento, por outro lado, causa diminuições de 10% a 20% da produção ou mais. Caso existam outros fatores negativos concomitantes, as perdas podem ser maiores. No centro-sul brasileiro, a temperatura do ar, no verão, foi reduzida em até 8°C, e a incidência de radiação solar global foi 80% menor sob a proteção de árvores dispostas em renques plantados em nível. Excesso de temperatura pode alterar o comportamento de pastejo, reduzindo a ingestão de alimentos em até 10% (em alguns extremos pode parar a ingestão por horas).

Rogério M. Dereti comprova resultado do sombreamento de pastagens

Em tempo frio, os renques de árvores funcionam retendo calor e como quebra-vento. A radiação de onda longa recebida pelo corpo do animal protegido sob as copas ou próximo delas, melhora o conforto térmico. Uma redução de 33% na velocidade do vento (de 10 km/h para 6,6 km/h) pode resultar em 10% de economia de energia. Outro aspecto importante é que a presença de árvores, ainda que dispostas em renques lineares equidistantes e não na forma habitual de bosques, facilita a expressão de comportamentos naturais, como a busca de privacidade pelas vacas no momento do parto, referencial espacial para deslocamento e interação social dos animais.

Vacas leiteiras têm alta sensibilidade às modificações ambientais. A produção aumenta ou diminui rápida e intensamente frente aos estímulos do ambiente, sejam eles de natureza climática, nutricional ou interação com seres humanos. Esta sensibilidade é tanto maior quanto maior for o grau de especialização dos animais, em particular no que diz respeito às variações no metabolismo. A manutenção de um ambiente mais estável quanto às variações da temperatura e das demais condições microclimáticas contribui para uma resposta produtiva constante e consistente. Neste sentido, a introdução planejada do componente arbóreo em sistemas de produção pecuária fornece proteção contra as intempéries, melhora as condições para a expressão de comportamentos naturais dos bovinos e, consequentemente, traz benefícios produtivos e sanitários, além de melhorar o bem-estar dos animais.

*Médico-veterinário da Embrapa Gado de Leite **Engenheiro-agrônomo Embrapa Florestas