Abate Clandestino

 

Prática é tema de assembleia

Sensibilizar a população para o perigo de consumir carne abatida clandestinamente é uma das metas da Secretaria da Agricultura (Seagri), que, por meio da Agência de Defesa Agropecuária (Adab), desenvolve ações de educação sanitária em todo o estado da Bahia. Esta foi uma das colocações feitas pelo secretário estadual da Agricultura, o engenheiroagrônomo Eduardo Salles, ao participar, no plenário da Assembleia Legislativa da Bahia, da sessão especial convocada pelo deputado Mário Negromonte Júnior para debater questões relacionadas à cadeia produtiva da carne.

“O abate clandestino é resquício da cultura que prevaleceu por muito tempo na zona rural, e a educação sanitária é uma das ferramentas que nós temos para mudar essa realidade”, disse o deputado, anunciando que pretende envolver outras secretarias no debate, a exemplo das pastas da Saúde e da Educação.

“O estado não consegue ter um policial em cada esquina para enfrentar a violência, e nós não conseguimos também colocar um fiscal agropecuário em cada zona rural para impedir o abate clandestino”, comparou o secretário, destacando a importância da participação da sociedade. “A população precisa se conscientizar do risco que o consumo de carne clandestina representa para a saúde”, disse, lembrando a necessidade de ações conjuntas do Ministério Público e da vigilância sanitária das prefeituras municipais.

AÇÕES PIONEIRAS

A Secretaria/Adab implementou um projeto de descentralização do abate e desenvolveu uma planta modelo de frigorífico com capacidade de 30 a 100 animais/dia. “Dizia-se que não era possível construir um abatedouro com menos de R$ 8 milhões. Nós provamos que podemos construir com R$ 2 milhões e a planta que desenvolvemos tornou-se referência nacional, aprovada pelo Ministério da Agricultura”, informou.

O secretário lembrou que a Bahia conta hoje com 30 frigoríficos, e mais 23 estão em processo de construção, afirmando, contudo, que não é possível ter um abatedouro em cada um dos 417 municípios. Mas ele assegurou que “onde a iniciativa privada não demonstrar interesse, o estado estará presente”.

Fechando a estruturação da cadeia da carne, a Seagri, através da Adab, lançou, em outubro do ano passado, o projeto de entrepostos frigoríficos, dando sustentabilidade ao setor e criando condições para que a fiscalização seja mais efetiva.

Os entrepostos frigoríficos são estruturas modulares, com capacidade para 30, 50 e 100 carcaças, que serão instaladas junto aos centros comerciais dos municípios, onde funcionam boxes para comercialização de carnes. As carcaças saem dos frigoríficos e vão para os entrepostos, dotados de equipamentos em inox para desossa. Depois de trabalhada no entreposto, a carne será levada para balcões frigoríficos instalados nos boxes dos centros comerciais, equipados com serrafita e balança, formando um módulo que dá a concepção final à cadeia da carne. Isso garante a segurança alimentar a toda a população, que não correrá o risco de sofrer com doenças.

Salles explicou a parlamentares e dezenas de convidados à sessão especial que “este é um projeto estruturante, lançado de forma pioneira no Brasil, dando sequência ao projeto de descentralização do abate na Bahia”.

No plenário, foi discutida a construção de plantas frigoríficas com capacidade de 30 a 100 abates/dia

O diretor geral da Adab, Paulo Emílio Torres, apresentou os detalhes do projeto de Entrepostos Frigoríficos Modulares, destacando a importância estratégica. Afirmou que “nos últimos anos, a Bahia tem promovido alterações significativas nas relações entre os elos do setor, gerando melhorias na qualidade da carne e subprodutos comercializados”, declarou.

O presidente do Sindicato da Indústria de Carne e Derivados do Estado da Bahia (Sincar) reconheceu a importância das ações e assinalou que “sessões como essa são importantes para mostrar que estamos de mãos dadas. Nossos frigoríficos prestam serviços às comunidades, pois cedemos nosso espaço para os pequenos abates”, declarou.


EX-MINISTROS DEFENDEM MAIOR CONTROLE DOS IRREGULARES

O aumento dos casos de abates de bovinos sem fiscalização sanitária por todo o País está deixando preocupados também exministros da Agricultura. Francisco Turra e Roberto Rodrigues entendem que está na hora de se tomar providências e apontam caminhos para resolver o que está se tornando um grave problema de saúde pública. Uma das sugestões é a expansão do Serviço de Inspeção Federal (SIF) a todos os abatedouros do País. “Muitos estados estão fora do SIF, que é uma maneira de você controlar e enquadrar os abatedouros definitivamente”, afirma Turra, ministro da pasta entre 1998 e 1999 e, hoje, presidente da União Brasileira de Avicultura (Ubabef).

Entrevistado durante a cerimônia de comemoração dos 105 anos da Sociedade Nacional de Agricultura (SNA), Turra defendeu ainda a mudança do Regulamento da Inspeção Industrial e Sanitária de Produtos de Origem Animal (RIISPOA), que já completou 60 anos.

Também presente à cerimônia, Roberto Rodrigues, que comandou o Ministério da Agricultura de 2003 a 2006, defende a isonomia de tratamento entre todos os estabelecimentos e um nivelamento pelos padrões do SIF, mas sugere um reforço. “Podemos reforçar a fiscalização terceirizando esses trabalhos. As regras têm de ser de caráter nacional, mas a execução, terceirizada”, aponta o ex-ministro, acrescentando a ideia de se criar um ranking de boas práticas e premiações de estímulo àqueles frigoríficos que mais se destacassem no cumprimento das regras estabelecidas pelo SIF.

Exigida apenas para indústrias que vendem carne para fora do estado de origem e para o exterior, a fiscalização pelo SIF é a mais rigorosa do Brasil, segundo o MAPA, acompanhando desde o abate do boi até a chegada do produto à gôndola do mercado. Dos cerca de 1.400 abatedouros existentes hoje no País, menos de 300 são fiscalizados pelo SIF. Legalmente, a vistoria realizada pelos serviços de inspeção estaduais e municipais – a que estão sujeitos os mais de 1.000 abatedouros restantes – deveria seguir os padrões do SIF, mas, na prática, não é o que ocorre. Fonte: Rádio Web e Blog Carne Sustentável.