Boi Vivo

 

GADO em pé tem importância econômica

No Pará, graças a este segmento, a pecuária ultrapassou o PIB da agricultura no estado

Alex Silva e Alcides Torres*

O Brasil detém o maior rebanho comercial de bovinos do mundo, é o segundo produtor e o maior exportador mundial de carne bovina.

Além da consolidada posição dentro da cadeia, o Brasil conquistou há dez anos outro importante nicho de mercado, a exportação de gado em pé.

Em 2011, foram embarcadas 401,9 mil cabeças, segundo dados do Ministério do Desenvolviento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), um aumento gigantesco em relação a 2003, ano em que esse tipo de comércio teve início.

Atualmente, o Brasil é o quarto exportador de bovinos vivos. Em número de cabeças comercializadas, o País é superado por Canadá, México e Austrália. Veja Tabela 1.

Em 2011, o faturamento foi de US$439,9 milhões, 31% menor que o resultado de 2010, ano de números recordes. A redução no volume exportado foi de 37,5%.

O real valorizado frente ao dólar fez com que o preço médio por cabeça exportada alcançasse o maior valor já registrado, US$ 1.094, e tal fato contribuiu de forma significativa para a queda nos embarques.

A Venezuela, o maior cliente do Brasil, desvalorizou a moeda no final de 2010 e reduziu o poder de compra do país no mercado externo, o que, somado a um produto brasileiro mais caro, prejudicou os embarques.

ESTADOS EXPORTADORES

No Brasil, Pará e Rio Grande do Sul, até 2005, eram os principais exportadores de bovinos vivos.

A partir de 2006, com o aumento do preço da arroba nas principais praças pecuárias (Rio Grande do Sul, inclusive), o Pará se consolidou como maior exportador de gado em pé, detendo 95,5% do embarque em 2009. Figura 1.

São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul e Amapá, ao longo dos últimos sete anos, também tiveram alguma participação neste mercado, mas com pequena representatividade. Veja tabela 2.

PRINCIPAIS DESTINOS

O Líbano foi durante quatro anos, de 2003 a 2006, praticamente o único comprador de bovinos vivos do Brasil. Nesse período, o número de cabeças exportadas cresceu 11,26%.

Em função de questões religiosas e culturais que envolvem o abate e o manuseio da carne consumida no país, o Líbano é um grande comprador de bovinos vivos.

A partir de 2007, políticas econômicas malsucedidas, entre elas, o tabelamento de preços, que desestimulam a produção, fizeram com que a Venezuela fosse obrigada a importar matéria-prima para abastecer as empresas locais.

Com isso, por conta da proximidade geográfica, do tamanho do rebanho, além da empatia entre governos, o Brasil tornou-se opção de fornecimento de animais vivos para aquele país.

O volume de animais importados pela Venezuela em 2007, primeiro ano dessa relação comercial, foi 35% maior do que o número de animais enviados para o já tradicional importador, o Líbano.

A demanda venezuelana consolidou o mercado brasileiro de exportação de gado em pé. Em 2011, os venezuelanos compraram do Brasil quatro vezes mais que o Líbano. Figura 2.

Seguindo uma tendência de crescimento, em 2009, bovinos vivos exportados pelo Brasil começaram a atender também o mercado egípcio.

Aproximadamente, 8,3 mil bovinos foram exportados para o Egito naquele ano.

Em 2011, a Turquia, importou 10,8 mil animais e a Jordânia, que pela primeira vez comprou do Brasil, embarcou 1,29 mil bovinos. Existem negociações para a abertura de novos mercados, na África e na Europa.

Para exportar bovinos vivos é preciso obedecer a uma série de protocolos sanitários e de bem-estar animal. O Brasil cumpre todos os requisitos.

No certificado zoosanitário, como parte das exigências, devem constar informações sobre o controle de doenças (aftosa, encefalopatia espongiforme bovina, tuberculose e brucelose), o estado clínico de cada animal, o controle de endo e ectoparasitas, o tipo de alimentação a que esses animais foram submetidos (não é permitido alimentação com proteínas de origem animal), a limpeza de todos os veículos utilizados no transporte e até mesmo declarações de que os animais foram criados em regiões totalmente livres de radioatividade.

PRÓS DA EXPORTAÇÃO

A exportação de gado em pé, além de ser uma alternativa de venda, principalmente diante de um quadro com diminuição no número de compradores, com a concentração do setor frigorífico, agrega valor para o pecuarista.

Produtor capitalizado investe na atividade com reflexo direto no aumento nas vendas de insumos, por exemplo.

Em 2011, para a geração total de riquezas do país, o produto interno bruto, que totalizou R$ 3,7 trilhões, a pecuária contribuiu com 6,6%. Os setores antes da porteira possuem a maior participação dentro do PIB da pecuária, 54%.

Sendo assim, como consequência direta da exportação de animais vivos, por exemplo, está o aumento na geração de emprego na indústria de insumos, que inclui os segmentos de produção de sementes, defensivos, fertilizantes, medicamentos, suplementos minerais, rações, produtos para reprodução, maquinários e equitabelapamentos, entre outros. Isso tudo porque o pecuarista recebe mais pela arroba vendida.

Também são gerados empregos diretamente relacionados às exportações de bovinos vivos, por exemplo, tais como mão de obra portuária nas áreas de pré-embarque, compra de animais, transporte, responsáveis técnicos, fiscais, despachantes, etc.

No Pará, maior exportador de bovinos vivos do País, foi justamente a partir do início das exportações que a pecuária do estado superou a agricultura em resultado do PIB. Figura 3.

Diante disso, fica claro que a exportação de bovinos vivos é importante para o crescimento do setor pecuário e, consequentemente, para a economia dos estados exportadores.

BOI VIVO NÃO É VILÃO

Existem correntes de pensamento que atribuem à atividade o crescimento da ociosidade dos frigoríficos, em função da restrição de matériaprima.

Porém, na média dos últimos cinco anos, a exportação de gado em pé representou 2,9% da ociosidade média da indústria do país.

A exportação de bovinos vivos vai a encontro do perfil das exportações do Brasil, tradicional fornecedor de commodities, assim como de produtos acabados. É assim com a soja e é assim com o minério de ferro, por exemplo.

O minério de ferro, aliás, ocupa o primeiro lugar na lista de commodities exportadas pelo Brasil. Em 2011, 78,8% da produção brasileira de minério foi exportada.

O fato de uma parcela de produtos primários ser exportada não significa menos investimentos na cadeia ou exportação de empregos, riquezas e renda. Uma atividade não exclui a outra, e é assim com a exportação de bovinos vivos. A venda externa de bovinos vivos nos moldes atuais não concorre com a exportação de carne bovina.

2012

Em 2012, os embarques começaram apresentando resultados semelhantes aos do ano anterior.

Entre janeiro e fevereiro, foram embarcadas 73,8 mil cabeças, praticamente o mesmo volume do primeiro bimestre de 2011.

Porém, o ano está caracterizado por uma crise econômica mundial e a moeda venezuelana está desvalorizada. O cenário pode mudar.

*Consultores da Scot Consultoria