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Suplementação garantia de bezerros sadios na seca

Categoria responde bem ao período, que é crítico para o animal e a forrageira

Luiz H. Pitombo

A pecuária de corte de ciclo mais curto, que representa um caminho fundamental frente aos muitos desafios enfrentados pelo setor, não dispensa atenção ao reforço alimentar dos animais. Isto desde que economicamente viável e estrategicamente necessário dentro de uma visão global do sistema produtivo.

Especificamente para a categoria dos bezerros desmamados, quer sejam machos para a engorda ou fêmeas candidatas à reposição, a situação é particularmente interessante e importante, como reconhecem técnicos e pesquisadores. Esses animais jovens têm boa conversão alimentar e demandam uma quantidade inferior de suplemento na comparação com um animal mais erado e de maior tamanho. Com esse reforço nutricional, é possível contribuir para a redução dos efeitos do estresse decorrente dessa nova etapa da vida e se fará com que cheguem mais cedo à reprodução ou à terminação a pasto com uma necessidade menor de energia para acabamento. Enfim, se ganha tempo, ou melhor, deixa-se de perdê-lo, acelerando o giro dos animais e, portanto, do capital.

Embora já possam ser considerados ruminantes funcionais a partir dos quatro meses de idade, o leite é ainda importante fonte de nutrientes quando são separados das matrizes entre os sete ou oito meses de vida. No estresse por que passam, os níveis de cortisol presentes no organismo são bem elevados e inibem a ingestão de forrageiras. Para complicar a situação, na maioria nas regiões pecuárias situadas no Brasil Central, esta fase coincide com o período seco do ano, o que baixa a qualidade da forragem.

Desta forma, o fornecimento de uma suplementação com o chamado sal proteinado, por exemplo, irá fazer com que as perdas de peso sejam menores, como aponta o engenheiro-agrônomo Sérgio Raposo de Medeiros, pesquisador da área de nutrição animal da Embrapa Gado de Corte, em Campo Grande/MS. Essa menor diminuição de peso, como acrescenta, também será positiva frente ao chamado ganho compensatório, que ocorrerá posteriormente com a recuperação dos pastos. Isso porque nesse processo biológico “nunca será reposto tudo aquilo que o animal perdeu, mas quanto menos precisar compensar melhor”, justifica.

Para o uso dessa suplementação protéica estratégica, que, como avalia o pesquisador, aumenta entre os pecuaristas, será fundamental ter uma oferta de pasto, que possui degradação ruminal estimulada, possibilitando um aumento na ingestão. Uma falha comum é deixar os animais num pasto raspado, lamenta Medeiros, quando o correto seria manter áreas diferidas como reserva para uso no período. Por resultar em maior economia, o agrônomo diz que a melhor opção é a aquisição de um núcleo mineral e aditivos, com a mistura do farelo de soja e milho, por exemplo, acontecendo na propriedade.

Ganho compensatório viabiliza maior produtividade no futuro

Quando do fornecimento deste proteinado, ele aponta alguns aspectos a serem observados. Para que todos os animais tenham acesso, evitando-se problemas de competição, deve-se dar preferência, por exemplo, a dois cochos com 3 m de comprimento cada, ao invés de um único com 6 m, para que exista opção aos animais submissos.

Medeiros também recomenda que se realize uma estimativa do volume de suplemento que está sendo ingerido pelos animais, mesmo que grosseira, para obtenção de uma referência se a quantidade prevista para o ganho desejado está sendo mesmo consumida. Normalmente, o pecuarista reclama que os animais estão comendo demais, o que realmente não é econômico e pode afetar a digestão, mas o pior, segundo o pesquisador, é os animais estarem ingerindo de menos. Como os suplementos contêm ureia, lembra que será necessário realizar um período de adaptação, aumentando paulatinamente a quantidade fornecida.

OPÇÕES VARIADAS

O zootecnista Rogério Coan, diretor técnico da Coan Consultoria, comenta que a suplementação na desmama já vem sendo bastante utilizada no Brasil Central e quem não a pratica “está dando um passo para trás”, afirma. O ciclo de recria e terminação demorará por mais seis meses, com os animais se mostrando limitados em desenvolvimento ósseo e muscular.

Particularmente, nas regiões onde a pecuária de corte necessita ser bem competitiva por sofrer pressões da cana-de-açúcar e mesmo do eucalipto, mostra casos de produtores no Mato Grosso e no Mato Grosso do Sul que avançam e sofisticam o manejo. Estes conseguem bons resultados com a integração lavoura-pecuária e também adotam a suplementação durante a cria, o chamado creepfeeding, além da realizada após a desmama.

O zootecnista aponta que, independente do uso do creepfeeding, o pecuarista poderá adotar basicamente três estratégias de suplementação na seca após a desmama. A mais simples, por meio da qual se conseguirá a manutenção do peso corporal ou pequenas perdas, é aquela que se vale do sal mineral com ureia. Já como segunda opção, e mais interessante que a anterior, sugere o sal proteinado de baixo consumo, do qual os animais recebem de 1 a 3g/dia por quilo de peso vivo contendo de 40% a 60% de proteína bruta (PB). Os ganhos podem atingir entre 200 a 300 g/cab/dia.

A terceira alternativa, que é fornecida na base de 3 a 5 g/dia, é por ele chamada de suplemento proteico-energético de alto consumo, que promove ganhos diários de peso de 300 a 500g/cab e que contém de 20% a 30% de PB e 60% de NDT (nutrientes digestivos totais).

Coan considera importante o uso de promotores da eficiência alimentar nessa suplementação, como a salinomicina sódica, a monensina sódica e a virginiamicina, dando preferência a esta última pela melhor resposta que tem obtido entre os animais. Independente do sistema adotado, diz que os animais precisarão contar com uma oferta mínima de forrageira de 2,5 toneladas de matéria seca/ ha, “com folhas que permitam um pastejo seletivo e não só talos”, salienta.

Para Coan, dá um passo atrás quem não suplementa no pós-desmama

Quanto ao espaço disponível na linha de cocho, considerando o volume de suplemento a ser fornecido e a boa sociabilidade dos animais, indica que no sal com ureia este seja de 3 a 5 cm/cab, no proteinado de baixo consumo, de 12 a 15 cm/cab, e no protéico-energético, de 30 a 40 cm/cab. Para manter a necessária rotina dos animais, recomenda que no casos dos dois últimos suplementos seja respeitado o mesmo horário de fornecimento.

PASTOS DE INVERNO

Nas áreas de maior concentração de gado de corte do Rio Grande do Sul a desmama convencional, realizada de março a maio, irá acontecer numa situação diferente daquela do Brasil Central, onde a limitação existente que afeta as pastagens não é a de ordem hídrica e sim a de temperatura. Mas nessa situação existe a possibilidade da instalação de boas pastagens de inverno, garantindo a nutrição dos animais jovens. Vale lembrar que na região são frequentes animais de raças europeias de genética mais apurada e com elevadas taxas de crescimento.

Quanto aos períodos de estiagem em si, que ocorrem mais no verão, os terneiros ainda estarão aos pés das matrizes, sendo que estas sim poderão necessitar de alguma suplementação com sal proteinado ou palha de arroz. Neste ano, a seca que atingiu o estado esteve mais concentrada ao Norte, afetando regiões produtoras de grãos e não as de pecuária de corte.

Danilo Sant’Anna destaca as qualidades dos pastos de aveia e azevém no Sul

Danilo Menezes Sant’Anna, médico-veterinário da Embrapa Pecuária Sul, em Bagé/RS, cita a possibilidade de uso, no inverno, para a categoria dos desmamados, de pastos de aveia ou azevém. Eles possuem elevados teores de proteína e, quando bem manejados, podem proporcionar ganhos de peso de até 1.200 g/ dia. Além disso, conta que também são utilizadas, desde que diferidas no momento adequado, as boas e diversificadas pastagens nativas e as nativas melhoradas. A suplementação poderá acontecer de maneira equilibrada para aumentar a energia, visando acelerar um pouco mais o ganho e o acabamento para a obtenção de novilhos superprecoces.

Nesta circunstância, como em outros possíveis períodos críticos, Sant’Anna enfatiza a necessidade de uma avaliação do custo e do benefício alcançado com a suplementação, onde também existe a possibilidade de uso de silagens e feno. Ele lembra que não existe uma coincidência entre o nível ótimo do ponto de vista biológico dos animais e aquele do aspecto econômico.

Em qualquer região do País, o pesquisador da Embrapa diz que é necessário, antes de tudo, se visualizar o sistema de produção que se tem, qual o tipo, a quantidade e a qualidade das forrageiras que existem disponíveis durante o ano. Isto irá determinar a necessidade ou não de suplementação, o tipo e a quantidade.

Uma vez que o reforço alimentar nem sempre poderá acontecer durante todo o período de vida de um animal, pois os custos são proibitivos, o veterinário comenta que se fosse para eleger um momento em que ela acontecesse, optaria justamente por essa fase de recria em função da melhor conversão alimentar e dos menores volumes necessários de ração, fazendo com que esses animais cheguem mais pesados à época de terminação.