Caindo na Braquiária

 

Em meio à tradicional tarde chuvosa de Esteio/RS, me dirigia à sala de reuniões da Associação Brasileira de Angus, atendendo a um convite irrecusável da diretoria. O motivo de tal convocação pautava-se justamente na busca de uma resposta plausível para as irrisórias vendas de sêmen da raça para cruzamento.

Tão logo me acomodei junto aos ilustres Cairoli, Batalha, Paulo de Castro, Felipe Moura, Cassol, Fernando Velloso, dentre outros criadores de Angus, percebi que seria o único paladino da indústria de sêmen ali presente.

Após a abertura oficial do encontro ao qual Cairoli, o então presidente, deu as boas vindas a todos participantes, a pauta foi colocada à mesa, onde o assunto principal seria “O que a ABA pode fazer para estimular as vendas de sêmen Angus?”.

A primeira proposta colocada à mesa dos colegas foi de a associação premiar os vendedores campeões de sêmen Angus com um carro ou algo que o valha. Indagado, pude apresentar- lhes como ocorre a compra de sêmen pelo ângulo dos clientes criadores.

– Pois bem, meus amigos, é oportuna esta reunião para tratarmos de um tema que pode mudar a opinião sobre carne de qualidade no nosso país. Inicialmente, quero deixar claro que, após 15 anos trabalhando com cruzamento industrial, vi a glória e a decadência de muitas raças de corte utilizadas para se fazer o novilho cruzado. Nos dias de hoje, quando um criador se dirige ao vendedor de sêmen, em 95% dos casos, o mesmo já indica qual raça quer usar, permanecendo apenas a dúvida sobre qual touro escolherá para comprar o sêmen. Portanto, se quisermos que a raça Angus obtenha o mesmo sucesso do Nelore, devemos focar no mercado de carne. Ou seja, basta a ABA fechar um acordo com algum frigorífico que garanta o pagamento de R$ 2,00 a mais por arroba nas carcaças com sangue Angus, que certamente ocorrerá um verdadeiro boom da raça no país, com consequente aumento de vendas de sêmen aos criadores.

Dez anos se passaram desde aquela construtiva reunião, em que a Associação lançou com maestria a marca Angus, mundialmente conhecida, certificada por meio de seus técnicos e frigoríficos que vem premiando, no caso dos machos castrados, em até 5% as carcaças de qualidade. Desde então, acompanhamos a evolução da raça Angus, firmando- se como a raça taurina que mais vende sêmen, quintuplicando suas vendas nos últimos 5 anos e chegando a quase 2,5 milhões de doses vendidas em 2011.

Para se ter uma dimensão, somente um dos frigoríficos que exploram e tem a concessão para o uso da marca tem contratado 100.000 animais com sangue Angus para serem abatidos em 2012, o que vem paulatinamente substituindo a entrega de carne argentina pela nacional certificada às churrascarias e restaurantes que exigem carne especial.

“Em 95% dos casos, o criador já indica qual raça quer usar, permanecendo apenas com a dúvida sobre qual touro escolherá para comprar o sêmen. Portanto, se quisermos que a raça Angus obtenha o mesmo sucesso do Nelore, devemos focar no mercado de carne”

Peça relevante e fundamental para o sucesso da raça Angus no Brasil tropical, as matrizes da raça Nelore dominaram a terra “brasilis”, perpetuando-se pela tolerância aos trópicos, habilidade materna adequada para sistemas extensivos de criação e pela fisiologia que complementa, perfeitamente, a raça Angus, produzindo um ½ sangue com carcaças perfeitas para a indústria.

Com habilidosa administração e uma visão de marketing multiangular, o sr. Carlos Viacava, então presidente da ACNB, comandou uma verdadeira revolução pró-Nelore ao fechar uma parceira em 2001 com o Supermercado Andorinha para a venda da carne Nelore Natural. Na esteira da sustentabilidade, o Nelore Natural tornou-se um sucesso nacional, sendo coordenado na época pelo aplicado zootecnista Eduardo Pedroso, além de os abates técnicos terem sido acompanhados de perto por Dr. Pedro E. de Felicio, um dos maiores pesquisadores em carne bovina do país.

Em 2011, foram abatidos no Programa Nelore Natural mais de 30.000 animais Nelore no mesmo frigorífico que vem certificando a carne Angus, onde a ACNB tem como principais objetivos fomentar a raça Nelore, incentivar o uso de genética selecionada e valorizar a carne desses animais junto ao consumidor final. Produtores que levam para o abate animais que se enquadram nos padrões do programa são premiados pelo frigorífico em até 4% no valor da arroba do dia para fêmeas e até 2% para machos. A carne proveniente do programa é um produto diferenciado e chega ao consumidor com o selo Nelore Natural, garantia de origem e qualidade controlada.

O Nelore e o Angus são os exemplos fiéis de exploração positiva do elo final da cadeia, buscando lançar uma carne no mercado com selo de origem e garantia de qualidade. Esse foi a meu ver o motivo principal para que as raças se tornassem as campeãs de vendas de sêmen na atualidade.

Desde priscas eras vivenciamos as indignações gerais que vicejam entre a classe pecuária em torno de preços pagos pelos abatedouros. Mas, a despeito dos protestos alheios da classe pecuária, há sim um início de um processo de diferenciação de preço tramitando na indústria frigorifica. Basta fazermos a lição de casa, torcendo para que a indústria venda essa carne especial com preço justo, remunerando ainda melhor o pecuarista.

Alexandre Zadra - Zootecnista [email protected]