Do Pasto ao Prato

 

O TIRO NO PÉ DO BOI EM PÉ

O recente pedido ao governo, feito pelos frigoríficos, de taxar a exportação do boi em pé em 30%, foi um tremendo tiro no pé dos frigoríficos. O setor vinha construindo uma aproximação entre os elos da cadeia, que tem uma relação adversária há muito tempo. O projeto Pecuária do Brasil, conduzido pela Abiec, é uma dessas iniciativas. E esse pedido de taxação fez recuar muitos avanços. O setor produtivo se sentiu “traído”, como muito bem resumiu Carlos Viacava no artigo “A cadeia quebrada”. E o pior é que tudo isso poderia ser evitado.

O pedido de taxação de 30% não faz sentido. É um ataque à economia de mercado. A única razão para o alto percentual escolhido é copiar o pedido da indústria automobilística contra carros importados. Pode-se resumir como um número grande o suficiente para inviabilizar qualquer negócio.

E por que isso poderia ser evitado? O mercado de exportação de gado vivo é pequeno e que não está crescendo. O Brasil exporta cerca de 400 mil animais por ano. É muito pouco, o equivalente a duas plantas de 1.000 animais por dia. Ou apenas 1% do abate total brasileiro.

E não vai crescer por questões muito simples. É muito caro exportar gado em pé. Isso só ocorre em situações e segmentos de mercado muito específicos. Quando o comprador não tem cadeia de frio para armazenar e distribuir carne resfriada/congelada e precisa levar o gado vivo para ser abatido em local muito próximo e no momento em que vai ser consumido. Outro motivo são as questões religiosas, quando se deseja realizar uma cerimônia que envolva o abate de um animal.

A terceira razão ocorre em casos muito específicos de reconstrução de rebanho ou quando um país destruiu o plantel comercial e quer, artificialmente, manter a estrutura de abates funcionando, como é o caso da Venezuela.

Ou seja, são motivos muito específicos e dos quais não se espera que aumentem. Se esses fatores não se expandem, não aumenta a demanda por exportação de boi em pé. Lembrando que é muito caro transportar gado vivo em navio, da mesma forma que é muito caro trazer gado vivo do Pará, do Mato Grosso, de Rondônia para se abater em São Paulo. Isso só ocorre quando em algum lugar se tem animal muito barato e em outro há uma grande necessidade de gado em pé. Descontando-se os casos específicos citados, o comprador também prefere comprar carne e não boi, pois é caro viajar com boi vivo.

Mas, eu entendo a lógica dos frigoríficos, apesar de não concordar com ela. Para quem tem frigoríficos no Pará - o JBS tem quatro -, o mercado de boi vivo é um novo concorrente. E sempre que aumentam os números de compradores, a tendência é aumentar o preço do produto. A exportação de boi em pé no Pará deve estar piorando as margens de rentabilidade dos frigoríficos de lá, e eles estão buscando formas de aumentar a lucratividade. Criar reserva de mercado é uma delas.

E por que, hoje, se exporta apenas gado em pé do Pará? Porque não basta ter porto, é preciso ter preço baixo. Quando o Pará começou a exportar, tinha o preço mais baixo do Brasil. Com o “boi-navio”, o preço se equiparou com as demais regiões do Brasil.

Outro ponto que apareceu nos comentários sobre o assunto é de que o varejo é o culpado de tudo isso. Sem fazer papel de advogado, eu apenas não vejo relação entre os assuntos. As margens e poder de compra do varejo são similares em todo o mundo. Não imagino que o problema seja porque no Brasil o varejo pressiona muito mais a indústria do que em outros países. Posso estar enganado, mas entendi o comentário como uma tentativa de se criar uma cortina de fumaça e desviar o assunto.

Outro ponto surpreendente da questão é que os mesmos frigoríficos que pedem a sobretaxa ao boi em pé, são os que sofrem com as restrições do governo argentino à exportação de carne. O pedido contra o boi em pé é muito parecido com o que o governo federal argentino faz contra a cadeia da carne de lá. Ou seja, desde que me seja favorável, não me incomoda uma medida injusta do governo. Acredito que o setor produtivo deva buscar uma menor intervenção da esfera federal. Quanto menos ingerência, impostos e taxas em nosso setor, melhor.

Deveríamos lutar por menos impostos e não por mais. Vamos trabalhar para diminuir todos os impostos, e aumentar nossa competitividade como país, para vender mais carne no mercado interno e externo. Temos de facilitar a exportação de todos os nossos produtos.

E qual é um dos grandes problemas do setor? Enquanto os frigoríficos brigam com o boi em pé, que representa 1% do volume de abate do Brasil, temos um problema pelo menos 30 vezes maior, que é o abate clandestino. Esse é um tema, muito mais difícil de ser debatido e melhorado. Porém, muito mais importante para o setor. Se conseguirmos diminuir a informalidade, todos ganham: produtores, frigoríficos, consumidores e até o governo. Só não ganham os informais.

Esse pedido de sobretaxa do boi em pé, lembrou-me um caso antigo de ruptura entre produtores e frigoríficos. A criação de tabela de descontos e classificação, lá no início de 2005. O que desencadeou as acusações formais de cartelização do setor de frigoríficos junto ao CADE. Um momento em que as relações entre produtores e indústria ficaram à beira de um colapso.

Errar é humano. Na gestão de crises, os especialistas recomendam três coisas: 1 -reconhecer que errou; 2 - pedir desculpas e 3 - agir. Acredito que esta seja a melhor receita. Obviamente, é improvável que aconteça.

Temos de trabalhar para construir uma relação e uma sensação de harmonia no setor produtivo. Lembrando que estamos num negócio e relações de longo prazo. Um produtor vai vender por muitos anos para o mesmo frigorífico. Faz todo sentido termos uma melhor relação entre comprador-vendedor quando se possui múltiplos negócios ao longo dos anos. Precisamos trabalhar para que isso avance e, para tanto, precisamos de uma mudança de postura e mentalidade.

Miguel da Rocha Cavalcanti é engenheiro-agrônomo e coordenador do BeefPoint, site especializado na cadeia produtiva da carne bovina (www.beefpoint.com.br)