Mulheres na Pecuária

 

Elas vão à luta na PECUÁRIA

Trocar experiências e aprimorar o negócio são os objetivos do grupo que reúne pecuaristas de vários estados

O Dia Internacional da Mulher, em 8 de março, foi de comemoração. Especialmente para as integrantes do Núcleo Feminino do Agronegócio (NFA) também foi dia de trabalho. As 24 associadas participaram de um Dia de Campo sobre Integração Lavoura- Pecuária-Floresta (ILPF) na fazenda Santa Brígida, em Ipameri/GO, pertencente à pecuarista Marize Porto Costa. O compromisso foi o segundo de 2012, a primeira reunião de rotina aconteceu em 6 de fevereiro e a agenda promete ser recheada neste ano.

Disposição não falta a elas, empenhadas em tocar as propriedades da maneira mais produtiva e rentável possível. Por causa disso, não estão interessadas em burocracia e esquemas rígidos: o NFA não tem estrutura jurídica, nem mesmo sede. Costuma se reunir mensalmente na Sociedade Rural Brasileira, na capital paulista. Mas, como organização é fundamental, tem estatuto e recolhe uma taxa semestral para pequenas despesas.

Sem compromissos com grupos políticos ou econômicos, em 2011 o NFA realizou dois encontros públicos, o primeiro em junho na Feicorte, quando promoveu uma palestra sobre modernização da pecuária, com Thereza Cristina Corrêa da Costa Dias, secretária de Desenvolvimento Agrário, Produção, Indústria, Comércio e Turismo de Mato Grosso do Sul, com participação do ex-ministro da Agricultura e coordenador do Centro de Agronegócio da Fundação Getulio Vargas, Roberto Rodrigues.

O segundo ocorreu em novembro, no auditório da Dow AgroSciences, com um debate bastante proveitoso sobre ILPF, também com Marize e outros participantes. A secretária de Agricultura paulista, Mônika Bergamaschi, abriu o evento, que foi elogiado pelo mercado.

O início

Há nove anos, Carla de Freitas começou a pensar que seria interessante chamar outras mulheres para conversar e discutir os problemas comuns em relação ao dia a dia das fazendas. Afinal, ela teve que aprender na prática a tocar a propriedade herdada do pai, em Rondônia, depois que uma experiência de administração conjunta com o então marido não deu certo.

O começo foi difícil: o gerente e o capataz foram embora, os índices de produtividade eram baixos – fertilidade ficava em 60% - e os problemas se avolumavam. Carla contratou uma consultoria e começou a profissionalização do negócio. Hoje, a propriedade particular cria Nelore elite e na empresa familiar trabalha com cria, recria e engorda de Nelore e cruzamento industrial com Angus e Charolês.

Há nove anos, a pecuarista Carla de Freitas teve a ideia de formar o grupo feminino

Paranaense, a pecuarista tem três filhos, dois médicos e um zootecnista, e hoje é casada com Rodrigues. Depois de morar 20 anos em Rondônia, até 2001, foi viver em São Paulo, de onde continua a tocar os negócios, viajando mensalmente para as fazendas. Como vice-presidente da Associação Brasileira do Novilho Precoce, conheceu Francisco Vila e a ideia do grupo de mulheres começou a tomar corpo. Ela tinha relacionamento com Cristina Bertelli, na época gerente do Agrocentro. Outra que começou a conversar foi Maria Stella Damha, depois chegou Rosalu Queiroz: estava formado o núcleo inicial.

As primeiras reuniões foram em 2010, mas ainda bem informais, jantares, almoços, reuniões em casa. Começaram a estabelecer regras. Carla foi escolhida presidente e Rosalu, vice. Outras mulheres foram sendo chamadas e o grupo começou a crescer. Pelo estatuto, a presidência é de um ano, com possibilidade de uma reeleição.

Nos dois anos que ficou à frente, Carla escolheu a gestão como centro dos debates do NFA: “qualquer administração tem de ser voltada à gestão. Esta é uma dificuldade sentida pela maior parte dos produtores. O tema foi votado entre as associadas e começamos a convidar pessoas que pudessem fazer palestras para nosso grupo ou grupos maiores”, conta a pecuarista.

Nova presidente

Em novembro de 2011 houve eleição e a médica-veterinária pela USP, consultora de pesquisa e desenvolvimento de produtos para a agropecuária e pecuarista Sílvia Morgulis foi eleita presidente. A vice é Rosalu Queiroz, a tesoureira Cláudia Platzeck e a secretária Nathália Serio, filha de Lídia Regina Massi Serio, também participante do grupo.

Casada com Sergio Morgulis, sócio diretor da Minerthal, tem três filhos, dois advogados e a caçula, veterinária. Silvia administra três propriedades, em São João da Boa Vista e Guaraçaí/SP. Faz seleção de Guzerá para venda de tourinhos, cria, recria e engorda de Guzonel, além de ter seringueiras e laranjais.

“Queremos que o núcleo consiga um ritmo de trabalho que perpetue sua existência. A Carla fez um excelente e difícil trabalho de decolar o avião. Precisamos, neste ano, fixar a rota e alcançar uma velocidade de cruzeiro. Como já estamos com o número completo de participantes, vamos planejar a formação de novos núcleos”, explica Sílvia. Ela acredita que um grupo muito grande pode atrapalhar a dinâmica.

O tema gestão vai continuar em 2012, com destaque para novas técnicas. “Talvez esta seja uma característica feminina: colocar a casa em ordem e trabalhar em equipe. As mulheres têm mais facilidade nisso”, considera Sílvia. As reuniões mensais também prosseguem porque são eficazes, o que não quer dizer que, eventualmente, não possam fazer eventos maiores.

Grupo eclético

O NFA não traz apenas pessoas de fora para as palestras. Lídia Regina, por exemplo, falou sobre a própria experiência e os resultados que obtém com a Curva ABC (agropecuária de baixo carbono).

Com propriedades em Mato Grosso do Sul e Paraná, tem como principal atividade a cria, recria e engorda. Trabalha com Nelore e mantém cruzamentos com Bonsmara, Angus e Montana. Além de Natália, outras de suas filhas, Tatiana e Júlia (que criou a logomarca), fazem parte do grupo.

Maria Stella, uma das pioneiras, tem sua principal fazenda em Pereira Barreto/SP. Faz cruzamento entre Angus e Nelore e confinamento de Nelore, atendendo mercados internacionais. Também planta soja, milho, cana e feijão. “As discussões sempre ajudam meu trabalho, pois através delas tenho uma sensibilidade do que acontece no mercado de cria e recria. As informações são parâmetros interessantes tanto pelo lado dos fundamentos de oferta como pelo da demanda, formando, desta forma, uma idéia sobre os preços praticados, o que me ajuda analisar os mercados futuros dos animais”, analisa. Ela também fez uma palestra sobre como operar na Bolsa de Valores.

A presidente da raça Marchigiana, Eliane Massari, tem propriedades em Monte Alegre /SP e Balsas/MA. Trabalha com cruzamento industrial e faz ciclo completo com Marchigiana e outras raças. “Nossas reuniões são verdadeiras preciosidades no quesito gestão”, conta. “Além dos encontros, trocamos informações por e-mail, sempre que há uma dúvida. São as trocas de experiências que nos fazem crescer cada dia mais em nossa atividade”, conclui.