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ABATE PRECOCE

Suplementação adequada é potencial redutor da idade de abate dos bovinos, indo muito além do ganho compensatório, o qual, na verdade, é apenas parcial

Gustavo Rezende Siqueira*, Flávio Dutra de Rezende**, Marcelo de Toledo Piza Roth**, Matheus Henrique Moretti**, Rodolfo Maciel Fernandes** e João Alexandrino Alves Neto**

Os índices da pecuária nacional apresentaram melhora constante nos últimos anos. Na avaliação realizada pelo Fórum Nacional Permanente da Pecuária de Corte da CNA, com base nos dados do IBGE e do SECEX/MDIC, que está disponível do site da ABIEC (http:// www.abiec.com.br/download/balanco. pdf), pode-se constatar a evolução permanente da pecuária brasileira. De 1994 a 2009, o número de animais abatidos anualmente aumentou 67,7%, a exportação em volume aumentou 428,5% e, em valor, 763,3%. Já taxa de abate aumentou em 37,4% e o peso da carcaça em 8,9%, esses são aumentos consideráveis, mas aquém do potencial da pecuária nacional.

Considerando apenas o abate de machos, que em 2011 representou 63% dos animais, tem-se que 91% destes foram classificados como boi (IBGE, 2012), ou seja, apresentavam mais de 36 meses. Neste contexto, existe uma lacuna tecnológica que pode e deverá ser preenchida pela pecuária Brasileira, a fim de atender as demandas de consumo dos mercados interno e externo. É com base neste foco de melhoria dos índices produtivos que este artigo será escrito.

O Pólo Regional da Alta Mogiana, com sede em Colina/SP é uma unidade da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (APTA), que por sua vez é um órgão da Secretária de Agricultura e Abastecimento de São Paulo. Nesta instituição, vem se desenvolvendo um projeto desde 2005, cujo objetivo central é avaliar os efeitos da suplementação na recria e terminação de bovinos de corte, sobre as características produtivas e econômicas. Esses estudos são desenvolvidos pela APTA em parceira com universidades como a Unesp e a UNIFEB e também com o apoio de agências de fomento (FAPESP, CNPq, CAPES e FINEP) e empresas do setor produtivo. A dúvida central da equipe executora deste projeto é conhecer os efeitos cruzados da suplementação, ou seja, o quanto a suplementação oferecida aos animais na seca afetaria o desempenho durante a época das águas subsequente e também na terminação a pasto ou em confinamento. Vários modelos para avaliar esses efeitos foram testados (Quadro 1) e alguns encontram-se em andamento. Nos dois primeiros anos foram utilizados animais de cruzamento industrial (Nelore x Angus) e nos demais anos a raça utilizada foi a Nelore. Os testes foram realizados em áreas de pastagens de capim Brachiaria brizantha cv. Marandu ou Capim Tanzânia.

Uma consideração importante é que nesses experimentos todos os animais foram abatidos com no máximo 24 meses, o que já representaria um enorme avanço na pecuária nacional.

Na maior parte da pecuária brasileira o desmame dos bezerros ocorre nos meses iniciais da seca (maio a julho). Então, o bezerro que recebia uma dieta de alta qualidade nutricional composta por leite e pasto de verão, passa a ter a disposição em muita das vezes pasto seco, com níveis ínfimos de proteína e elevados de fibra. Na maioria dos casos esses animais perdem peso, o que resulta em aumento da idade de abate.

Para exemplificar essa situação, em um ano de falta de forragem os animais perderam cerca de 13 kg em um período de 85 dias (04/08 a 28/10), ou seja, tiveram uma perda diária de -0,136 kg/dia. Já nos demais experimentos onde houve correto planejamento forrageiro, a média de ganho em peso foi de 0,274 e 0,459 kg/ dia, utilizando suplemento proteico (1g/ kg) e suplemento protéico energético (3 a 5 g/kg), respectivamente. Em um período médio de seca de 120 dias, com esses ganhos em peso os animais conseguiram elevar o peso corporal em 1,2 e 2,0 @, respectivamente. Considerando que na maioria dos empreendimentos agropecuários, ocorre perda de peso nesses animais, pode-se considerar esses ganhos muito bons.

Nelore terminado em capim Tanzânia. Também foram testados animais de confinamento

Levando em conta apenas o custo da suplementação, o Lucro Alimentar (Receita bruta menos o custo com a suplementação) nas duas estratégias foi muito semelhante, R$ 92,14 para os que receberam proteinado e R$ 96,47 para os que receberam protéico energético. Neste ponto, cabe uma ressalva, pois quando se aumenta a suplementação o custo alimentar fica maior, porém, o animal também fica mais pesado e poderá ser terminado em um tempo menor. Quando se considera a terminação em pastagem, que normalmente ocorre na época das águas pode- se atribuir um ganho de peso médio de 0,5 kg/dia (pasto e suplemento mineral). Considerando que os bezerros não fossem suplementados, os mesmos estariam 2 @ mais leves que os que receberam suplemento protéico (1 g/kg), ou seja, levariam pelo menos dois meses a mais para serem abatidos. Caso fossem comparados ao que receberam protéico energético o período seria três meses.

A maioria dos leitores deve estar perguntando, MAS E O GANHO COMPENSATÓRIO? Se eu não suplementar um animal na seca, quando chegar a época das águas ele ganha mais peso e alcança o outro que foi suplementado?

Essas realmente são as perguntas que TODOS fazem. Por isso, montamos protocolos de trabalhos como o apresentado no Quadro 1. Nestes experimentos, tínhamos animais com diferentes tipos de suplementação na seca e com a mesma alimentação no verão, permitindo avaliar o possível ganho compensatório.

É verdade que este ganho existe, muitas vezes os produtores adotam esta estratégia. O primeiro fato, é que, é raro a existência deste ganho compensatório total, na maioria das vezes ocorre o que chamamos de ganho parcial. O animal não suplementado recupera parte do ganho comparado ao suplementado, não igualando o peso final dos animais. Nos trabalhos desenvolvidos pela nossa equipe observarmos que 83% da diferença obtida no final do período de seca é mantida pelos animais até a entrada no confinamento. O que confirma o ganho compensatório parcial. Outro detalhe sobre o ganho compensatório é que na maioria das vezes é fruto do desenvolvimento de componentes não-carcaça (rúmen, intestino, fígado entre outros). Esta porção do animal não é considerada quando vai ao abate, pois remunera-se apenas pela carcaça.

Ainda com relação à forma com que o animal ganha peso, nossos estudos têm apresentado resultados muito interessantes. Temos observado que o mesmo kg de peso corporal ganho por um animal que recebe apenas suplemento mineral é diferente daquele que recebe suplementação protéica, energética e da combinação das duas. Tem-se chamado de rendimento do ganho a relação entre o ganho em carcaça e o ganho em peso corporal. Estes estudos mostram que, em média, quando um animal recebendo sal mineral ganha 1 kg de peso corporal, ele está acumulando 510g de carcaça, já um animal suplementado com proteína e energia ganha cerca de 550g de carcaça com o mesmo ganho em peso corporal. Essa diferença, a princípio, pode parecer pequena, mas não é.

Desta forma, podemos afirmar que além de reduzir a idade de abate, o uso da suplementação promove melhorias no ganho em carcaça.

*Pesquisador da APTA Regional, Pólo Alta Mogiana, Colina-SP, Professor do Programa de Pósgraduação em Zootecnia da FCAV-Unesp, Campus de Jaboticabal - [email protected] **Alunos do Programa de Pós-graduação em Zootecnia da FCAV-Unesp, Campus de Jaboticaba