Feno & Silagem

 

Alimento na RESERVA

A seca em 2012 promete ser mais rigorosa e a silagem pode ser uma forma de garantir o alimento do gado

José Luiz da Silva*

A estação seca é sempre um desafio para os produtores rurais, que precisam assegurar a disponibilidade de alimentos em quantidade e qualidade para seus rebanhos, quando os pastos secam e perdem valor nutricional. Isso afeta diretamente os rebanhos de ruminantes que, na maioria, são criados em regime de pasto, com manejo extensivo. Todas as técnicas para que possamos ter segurança da oferta de alimento devem ser planejadas no período das chuvas, quando conseguimos acumular material para ser consumido posteriormente, quer seja na forma de diferimento do pasto (“vedação de pastagens”) ou na forma de silagem. Principalmente na técnica de vedação de pasto, devemos também utilizar suplementos para corrigir as deficiências do pasto reservado pra seca. Segundo o médico-veterinário Diego Bernardes, técnico em Minas Gerais, “nesse período, os nutrientes oferecidos pela pastagem não são suficientes para o correto funcionamento do sistema digestivo do animal (ruminação), pois a falta de proteína no capim diminui o crescimento dos micro-organismos do rúmen e consequentemente a digestão da forragem, já que diminui o consumo. Com menor consumo, há menor ingestão de nutrientes e, consequentemente, menor ganho de peso ou produção leiteira”.

Além de preparar a oferta de volumoso para seca, Bernardes orienta que devemos também, principalmente no gado criado exclusivo a pasto, preparálos para entrar no período de deficiência de alimentos com condição corporal favorável, ou seja, os animais devem ter reservas corporais para que possa ‘queimá-las’ em caso de emergência ou mesmo manter o melhor peso. Para isso, também, segundo o veterinário, “devemos fornecer suplementos minerais com fontes de proteína e energia no período que precede a seca, a chamada transição. Na transição o pasto aparenta-se bom, ainda verde ou apenas começando a amarelar, porém, os nutrientes da pastagem já estão iniciando o declínio, bem como as taxas de ganho de peso dos animais”. Bernardes acrescenta que, “investindo nessa reserva também do animal no momento de transição, quando ele ainda consegue extrair mais nutrientes do pasto, o gasto no período seco sempre será menor”.

Alternativa ao volumoso

Uma das alternativas mais utilizadas e econômicas para se obter o volumoso durante a seca é através de ensilagens, segundo o engenheiroagrônomo Marcelo Ronaldo Villa. Para ele, “culturas como de milho, sorgo, capim elefante e, mais recentemente, a cana-de-açúcar, têm sido as mais utilizadas para a ensilagem, variando conforme o conhecimento local ou pela tradição da cultura em determinadas propriedades”. Mas, Villa recomenda cuidados especiais para produção e conservação de silagem. Ele explica que a ensilagem, basicamente, visa preservar as condições nutricionais da cultura, através da fermentação ácida em meio anaeróbico (sem a presença de ar). Nesse sentido, é fundamental que se utilize inoculantes especialmente formulados para cada cultura, para evitar que fungos e bactérias normalmente encontrados nas culturas se desenvolvam e comprometam a qualidade da ensilagem.

Orientando sobre as melhores culturas para se ensilar nesta época, Villa lembra que “agora estamos em plena safra do milho para silagem, bem provável que 80% dos produtores estejam ensilando nas próximas semanas, pois é uma cultura que proporcionam boas silagens”. Além dessas, o agrônomo destaca o capim elefante e a cana-de-açúcar ou cana forrageira, culturas que já vêm sendo largamente utilizada pelos pecuaristas como volumoso durante a seca. Villa explica que, “com a possibilidade de ser ensilada, a cana torna-se disponível para utilização durante todo o ano”.

Manejar corretamente o silo também é importante, pois o gado de corte é muito susceptível à qualidade da silagem que compõe a ração. No caso de confinamentos os problemas podem ser graves, com diminuição no consumo, menor ganho de peso e abscesso de fígado, resultando em prejuízos financeiros.

Atenção ao processo

Marcelo Ronaldo Villa ressalta que muitos produtores já estão habituados a fazer silagens e já conhecem passos para se obter um alimento com qualidade. Mas, mesmo assim, adverte ser necessário estar sempre atento a todo o processo, para que não haja comprometimento da qualidade técnica e sanitária do volumoso ensilado. Um dos pontos apontados pelo técnico é a necessidade de se obter, no silo, um ambiente absolutamente sem ar e com baixo pH (abaixo de 4,0) o mais rápido possível. Com o uso de um inoculante bacteriano específico e adequado, a fermentação do meio ocorre muito mais rapidamente, além de haver consumo do oxigênio residual e ainda proteger o material ensilado contra o ataque de leveduras e fungos indesejados.

Uma cultura de milho recém-ensilada tem um pH em torno de 6,0. Já o pH mínimo recomendado, para que haja uma boa conservação da forragem é abaixo de 4,0, quando, então, existe a garantia de que não estará ocorrendo a multiplicação das bactérias na silagem. O milho, por sua natureza, é uma cultura rica em açúcares e com matéria seca alta (em torno de 35%), ajudando muito o processo de fermentação, de forma natural. Por outro lado, é uma cultura que necessita de cuidados redobrados no momento da abertura do silo, pois há uma facilidade de ataque por leveduras e fungos. Toda planta contém uma quantidade própria de bactérias que, de forma natural, trabalham para a produção de diversos ácidos, e assim fazem com que o pH da silagem diminua, gradativamente, até atingir o objetivo descrito acima.

A diferença fundamental, quando se utiliza um inoculante correto é que a velocidade com que ocorre a redução do pH seja acelerada, fazendo com que o pH de segurança seja atingido rapidamente. A rápida velocidade na redução do pH pela adição do inoculante impede que as bactérias patogênicas consigam se multiplicar e produzam toxinas antes mesmo de serem controladas pelos ácidos produzidos apenas pelas bactérias naturais da planta, no caso de silagens não inoculadas.

Outro ponto relacionado a esta velocidade de diminuição do pH é a conservação dos nutrientes da silagem. Na medida em que se consegue uma redução rápida do pH, mais nutrientes da planta terão sido conservados, resultando em menores perdas. Como exemplo, silagens não inoculadas de milho podem ter perdas entre 2% à 5% por fungos, além de perdas no processo de fermentação, variando de 10% a 13% em gases, álcool e efluentes.

Feno em Pé resulta de capim vedado durante as águas

Mercado

O mercado disponibiliza aos produtores inoculantes específicos, para a produção respectivamente de silagem de milho, sorgo, cana-de-açúcar e capim. São aditivos cujos componentes são cepas bacterianas selecionadas e eficazes na redução rápida e forte do pH, possibilitando a ótima conservação da silagem.

No caso do uso de “proteinados” para período das águas e de transição, o mercado também disponibiliza produtos para cada fase específica do ano em relação ao tipo e qualidade do volumoso ofertado, além de indicar os produtos adequados e balanceados para cada categoria animal (cria, recria ou engorda) e objetivo de ganho de peso. Além disso, existem também várias opções de produtos para seca. Para que o produtor possa adequar qual melhor produto para cada situação, é recomendável que consulte um técnico da área.

Lembrete durante as águas

Há ainda quem diga que no período das águas os animais não precisam tanto de minerais. Dizem que as pastagens estão em ótimas condições, com maior oferta de minerais, proteínas e energia, por estarem verdes e vigorosas. Julgam, com isso, que o capim seja capaz de suprir todas as exigências dos animais. Contudo, segundo os técnicos, é nesse período que ocorre o maior consumo de matéria seca em virtude de um aumento de proteína, energia e assim melhor digestibilidade pelo animal. A maior atividade de digestão causa um aumento no metabolismo, com maior gasto de nutrientes pelo animal, pois se trata do período em que os animais mais ganham peso a pasto. E esse é o momento de intensificar o fornecimento de minerais. Com deficiência mineral na época das águas não é só a produtividade que cai. Os animais ficam mais suscetíveis a diversas doenças, em razão de uma depressão do sistema imunológico.

Quando produtores rurais diminuem a oferta de suplemento mineral aos animais ou, por desconhecimento técnico, fornecem produtos inadequados para a época do ano em questão tem-se como consequência uma grande redução do potencial de produção do bovino. Não é que os animais “perdem” peso, mas, sim, deixam de ganhar o que provavelmente a sua genética permitiria, não obtendo, deste modo, os ganhos reais, proveitos que geneticamente seriam possíveis com uma correta nutrição.

Para o médico-veterinário Julliano Pompei, a pastagem é a principal fonte de alimento e para 90% dos ruminantes é a única, então, esta teria por obrigação fornecer todos os nutrientes necessários para os animais, porém, isso não ocorre”. Portanto, a finalidade em se fornecer uma suplementação mineral neste período é justamente para corrigir os desbalanços e as deficiências nutricionais que temos em nossas pastagens, mesmo nas áreas mais tecnificadas se faz necessário a suplementação mineral, e, neste caso, com maior ênfase. Ou seja, por mais que esta pastagem seja corrigida, ela nunca fornecerá 100% dos minerais essenciais à produção animal.

Gado é bastante sensível à qualidade da silagem

Porém, Pompei ressalta que quem busca aumento na produtividade e melhora na rentabilidade precisa fornecer aos animais, além dos minerais, produtos que contenham proteína e energia além dos macro e micro minerais durante o período das águas, pois com isso você consegue melhorar a degradação do capim a nível de rúmen, e consequentemente melhorar a eficiência alimentar, possibilitando ganhos lineares (contínuos) e não mais um pico como vemos até hoje, uma vez que os ruminantes necessitam em sua dieta níveis de 10 á 15% de proteína e as pastagens em sua maioria concentram em média 10% de proteína bruta nos melhores períodos de produção.

Um rápido estudo das opções de misturas minerais e proteicas disponíveis no mercado e uma orientação bem direcionada de um bom médico-veterinário que trabalhe com produção e nutrição animais, podem resultar em grandes ganhos de produtividade.

*Assessor de comunicação do Grupo Matsuda