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Antes os campeões de pista;

AGORA OS CAMPEÕES DO PASTO

Centrais de inseminação preferem avaliação genética em detrimento dos títulos nacionais como diferencial para contratação de um touro

Adilson Rodrigues [email protected]

Em um passado não muito distante, era muito comum, após as exposições nacionais da raça Nelore, os representantes das centrais de inseminação artificial digladiarem-se na tentativa de contratar o touro Grande Campeão. No presente 2012, a história é diferente, pois apenas as vitórias na pista já não bastam para garantir a diferenciação do animal dentro de uma bateria de doadores de sêmen. Agora, as avaliações genéticas são o fator decisivo, apesar que aqui também abre-se um parêntese sobre os perfis dos sumários.

Esta movimentação do mercado não é fruto de discussões recentes, mas sim o ápice das cobranças em torno dos critérios de julgamento das exposições da raça Nelore, que ainda hoje valorizam animais de frame (tamanho) exagerado e mais tardios para fertilidade e terminação, devendo-se estes se aproximarem mais da realidade do pasto brasileiro. É o que os jurados mais críticos da própria Associação Brasileira dos Criadores de Zebu (ABCZ) definem por “gigantismo do Nelore”. E como 90% da clientela das centrais de inseminação são pecuaristas que vivem de produzir carne a pasto, uma antítese acontecia.

Segundo o zootecnista Alexandre Zadra, ex-gerente de central e MBA em Agronegócios pela FGV, o problema reside no conceito de cada segmento. “Os animais de pista provêm de uma genética mais tardia e com metabolismo mais acelerado para responder com ótimo desempenho a dietas com ração de alto consumo. No entanto, encontramos nos animais de pasto uma genética mais precoce e que necessita produzir vacas que reconcebam a cada 12 meses”, define. De acordo com ele, o mercado de sêmen Nelore é divido em três pilares atualmente: elite, produção (touros) e bezerros pesados. Vale lembrar que a ponta da pirâmide, a elite, também precisa de material genético, mas, atualmente, se tornou somente um nicho de mercado. “A elite necessita de indivíduos que complementem acasalamentos com matrizes de linhagens Gim, Ludy e Visual, por exemplo”, lembra Ricardo Abreu, gerente de Corte/Zebu da CRV Lagoa.

Todavia, Abreu reconhece que a raça Nelore passou por uma verdadeira transformação nos últimos anos, tanto na quantidade de doses comercializadas quanto no tipo do animal desejado. “Atualmente, o campeão de pista é uma fatia importante para ter na prateleira. Sempre digo que um bom touro precisa ter um currículo diferenciado: ser melhorador e capaz de transmitir seus diferenciais à progênie com elevada confiabilidade”, relata o gerente. E quem é capaz de medir o quanto o touro possui alta ou baixa confiabilidade é a avaliação genética, que submete os reprodutores aos reconhecidos testes de progênie. A pecuária leiteira é assim, prioriza os touros provados.

Indo um pouco além, é fato que as centrais preferem os touros provados, ou em outras palavras, que tenham avaliação genética e participam de sumários. “Só contratamos touros que possuam avaliação genética. Hoje, existe uma inversão de mercado e 80% dos nossos clientes querem reprodutores com essa qualidade. São pecuaristas focados em programas de seleção”, relata a zootecnista Roberta Gestal de Siqueira, consultora Técnica Zebu/ Corte da Alta Genectis. O gerente de Produtos da central, Gabriel Sandoval, aconselha que o pecuarista extensivo escolha genética de animais provados na mesma condição. “Temos uma bateria diversificada. Para quem quer pista temos touros campeões, mas que integram sumários. Para o pecuarista comercial temos touros de produção e touros com CEIP (Certificado Especial de Identificação e Produção)”, complementa. Os dois últimos grupos são utilizados largamente na criação extensiva.

Eduardo Biagi, presidente da Associação dos Criadores de Zebu (ABCZ), em entrevista concedida à Revista AG sobre o tema, reconhece a necessidade de aproximar a realidade pista da do pasto e, para tanto, vem promovendo uma série de cursos periódicos para atualizar os critérios de julgamento.

“A meu ver, a avaliação nas pistas tem sido, nos últimos 20 anos, um pouco distorcida, favorecendo mais o peso do animal em detrimento de aspectos como funcionalidade. Transitamos do excesso de valorização dos aspectos raciais para o abuso na valorização do peso. Pista e pasto devem ser complementares”, destaca o dirigente. O ideal é o equilíbrio entre peso, raça e funcionalidade. A funcionalidade, por si só, é um conjunto bem amplo de atributos, envolvendo rusticidade, fertilidade, facilidade de parto e precocidade em condições de pasto.

Um ponto levantado por William Koury Filho, zootecnista, jurado efetivo da ABCZ e mestre em Reprodução Animal, em artigos publicados na Revista AG, relata a necessidade de acirrar debates em torno da reformulação dos critérios de julgamento, que é um momento único de apreciação da qualidade morfológica de uma raça. “O problema é que a maioria das associações tem se omitido em apontar um biótipo ideal para o Nelore e não definem critérios a serem seguidos, jogando toda a responsabilidade nos ombros dos juízes”, afirmou.

“Os julgamentos mostram-se distorcidos, mas resultam de uma época em que ainda não existiam tecnologias”, Eduardo Biagi

Na pista, o discurso é de equilíbrio entre profundidade de costelas e altura de membros, frame moderado e funcionalidade. Mas, na prática não é bem assim, segundo ele. Mesmo assim, não surtirá efeito inscrever animal com escore corporal razoável na exposição, mesmo tendo qualidades interessantes para pastejo. “Não tem como dar um prêmio a um animal mal preparado. Também não existe parâmetro comparativo para afirmar que o mesmo poderia estar bem a pasto, o que existe é um biótipo bom, ou sadio, para o pasto”, adverte o jurado.

Para Ricardo Abreu, um bom touro precisa ter um currículo diferenciado não só em pista

A dúvida que fica é quais qualidades um reprodutor PO registrado deve ter. Na opinião do jurado, ele deve ser destacado para profundidade de costelas e musculatura, apresentar perímetro escrotal desenvolvido para a idade e harmonia de conjunto. Além disso, precisa ter escore corporal destacado/ sadio condizente ao sistema de produção onde será utilizado (se pasto ou pista), e, claro, possuir uma avaliação genética “forte” para características econômicas de interesse. Nas centrais, o perfil comercial atual da demanda de sêmen Nelore é por reprodutores detentores de um verdadeiro pacote de qualidades.

Típico exemplo de Nelore pernalta e tardio, algo que a pista deve abandonar, segundo os debates

“Precocidade sexual, habilidade materna, peso, precocidade de acabamento, beleza racial e opções de linhagem (esta última para o nicho de elite)”, define Gustavo Morales Brito, gerente Corte/Zebu da ABS Pecplan, ressaltando ainda que sem avaliação genética destacada touro algum entra na bateria de qualquer central. “Além da boa avaliação genética, o reprodutor tem de ser harmônico nas características mensuradas, sendo líder - na maior parte delas - no sumário do qual participa e possuir bom fenótipo, com características funcionais adequadas, como aprumos e prepúcio corretos”, completa Caio Tristão, gerente de Produtos Corte da Semex do Brasil.

Daniel Carvalho, gerente de Produto Corte da CRI Genética Brasil, lembra ainda de atributos como boa conversão alimentar, acabamento precoce, musculosidade, fertilidade para filhos e filhas, características correlacionadas à precocidade sexual das filhas, rusticidade e bom temperamento. Com tantas qualidades necessárias, a única forma de atender a demanda é com uma seleção mais criteriosa do criador, com índices de descarte cada vez maiores. Existe uma cultura no mercado de elite de que o touro, ou até mesmo uma matriz, que não “dá” pista pode ser bom para o pasto, mas esta é uma prática já condenada pelo mercado. Este comportamento compromete, inclusive, o fomento de outras raças, não só zebuínas. O animal até poderia ter bom desempenho em pastagem, mas quem vai ratificar ou não a informação são seus filhos em prova.

Avaliação Genética

Atualmente, é uma ferramenta que ganha cada vez mais espaço na pecuária nacional, até mesmo pela baixa oferta de touros avaliados, estimados em 55 mil por ano, segundo dados da Associação Nacional de Criadores e Pesquisadores (ANCP). Para Gustavo Morales, da ABS Pecplan, os trabalhos feitos vão no caminho certo, só precisam de ajustes. “Há necessidade de unificação dos sumários e a ponderação de algumas características tão importantes como as de peso. Mas, de forma geral, tem norteado os pecuaristas. Os resultados estão no campo”, conclui.

Pista Rediscutida

Grandes selecionadores elite da raça Nelore falam abertamente conduzir duas seleções, uma para pista e outra para pasto, fato relatado também por Alexandre Zadra. Presume-se que aquilo que é bom para uma pode não o ser para outra. “É um sinal de que critérios precisam ser melhor conversados, pois ambos devem cumprir objetivos semelhantes”, assinala William Koury. Morales informa que a ABCZ tem feito várias atualizações técnicas para frame mais moderado, aprumos corretos e costelas compridas e bem arqueadas .

“O ambiente de seleção pista tem cada vez menos adeptos. A demanda por touros funcionais cresce em evidência, devido à profissionalização e concorrência das atividades agrícolas”, finaliza Carvalho. Por este motivo, os grandes campeões do passado como Fajardo, Enlevo, Ludy de Garça, Helíaco e Big Ben, entre outros tantos que à época deram sua contribuição à pecuária, cederam lugar a nomes como REM Noturno, CFM Obstinado, Avesso, Backup, Macuni e Jaçanã AJ. Todos selecionados em ambiente de pasto e avaliados em sumários de fazendas (em parceria com universidades respeitadas), dos programas nacionais de melhoramento ou das próprias centrais de inseminação.

Alerta nos sumários

No Nelore, tanto o sumário ABCZ quanto o ANCP (os principais da raça), com consulta pública disponível na internet, possuem touros líderes no ranking de raça e nos sumários excelentes para ponderal e ruins para características importantes de carcaça, fundamentais para produção de carne a pasto ou até mesmo semiconfinamento. Acompanhe na tabela acima as sinalizações azul (excelente), verde (muito bom), branco (bom), amarelo (atenção) e vermelho (ruim) para as deps (diferenças esperada na progênie) de cada touro avaliado. O índice utilizado é o “TOP”, que indica a posição do animal na base genética da ANCP, que realiza o Programa Nacional de Melhoramento Genético da Raça Nelore (Nelore Brasil) e possui mais de um milhão de animais na base genética. Lembrando que TOP, 0,1% significa que o reprodutor é melhor em mil, TOP 1% o melhor em 100 e TOP 51 a 100% os piores.