Entrevista

 

O voo da ÁGUIA

A águia é um pássaro nobre, que enfrenta um árduo e doloroso processo de renovação para perpetuar sua sobrevivência. No mercado de alimentação animal ocorre da mesma forma. As empresas, como um todo, se adaptam às novas realidades do mercado. Para tratar das expectativas do setor, ouvimos Jorge Matsuda, presidente empossado da Associação Brasileira das Indústrias de Suplementos Minerais (ASBRAM).

Adilson Rodrigues [email protected]

Revista AG - Quais são os desafios iminentes para o mercado de alimentação de bovinos no Brasil?

Jorge Matsuda - Um dos grandes desafios que os criadores brasileiros devem vencer é a sazonalidade das pastagens, que não possuem a mesma produção e valor nutricional durante todo o ano. Se a pecuária brasileira (respeitando as particularidades de cada região) investisse mais no manejo correto das pastagens, na suplementação forrageira na seca e na suplementação mineral, proteica e energética diferenciada o ano todo, teríamos um grande salto na produtividade e na viabilidade econômica do segmento pecuário. Felizmente, uma parte significativa dos nossos criadores já se atentou para o fato.

Revista AG - A crise europeia pode, de alguma forma, representar ameaça ao mercado brasileiro de alimentação animal? Pergunto referente a uma possível concorrência das multinacionais.

Jorge Matsuda - Embora muitas empresas estrangeiras tenham o Brasil como o grande mercado consumidor para seus produtos, não acredito que representem uma ameaça às boas e tradicionais empresas nacionais. Não tenho certeza se elas teriam a paciência, a velocidade de mudança de estratégia e, principalmente, a versatilidade que a realidade socioeconômica brasileira exige diariamente dos empresários. Ter uma empresa de nutrição animal no Brasil é tão desafiador e desgastante que demanda muito mais que conhecimento técnico e experiência. Exige paixão pela pecuária e comprometimento diário da equipe, para levar a tecnologia mais adequada e viável a cada um dos milhões de criadores brasileiros. Toda concorrência é saudável e necessária para o desenvolvimento de um mercado, mas acredito muito mais no “know-how” nacional para transformar uma pecuária atrasada e frágil no maior e mais precioso “banco de proteínas nobres” existente na Terra.

Revista AG - Os pecuaristas brasileiros aprenderam a mineralizar o gado corretamente, ou ainda há muito que se fazer para que eles enxerguem a importância da técnica?

Jorge Matsuda - A suplementação mineral tem evoluído muito, principalmente na última década. A pecuária moderna não admite a falta de tecnologia ou sua subutilização, pois os desafios a serem vencidos na pecuária tropical e subtropical são muitos e, embora tenhamos a maior área pastoril do globo, infelizmente, nossas pastagens são muito pobres em muitos minerais essenciais, como fósforo, zinco, selênio e cobre, entre outros.

Revista AG - Calcula-se em quantas toneladas o mercado de suplementos minerais no Brasil? E o quanto podemos crescer?

Jorge Matsuda – Hoje, o mercado de suplementos minerais brasileiro é de cerca de dois milhões e cem mil toneladas. Incluso nessa conta estão todos os tipos de suplementos minerais e misturas múltiplas (proteinados de baixo, médio e alto consumo). Esse número representa cerca de 45 a 50% do que os técnicos acreditam que deveria ser o consumo pelo rebanho brasileiro atual. Ou seja, temos muito trabalho e muitos desafios para crescer. Acredito que poderemos chegar aos três milhões de toneladas até o final da década e a quatro milhões de toneladas em um futuro mais distante, dependo da economia mundial, (principalmente países emergentes).

Revista AG - O Brasil consome a totalidade do que é produzido? Há planos para que o país passe a exportar esses produtos?

Jorge Matsuda - Algumas empresas exportam há muitos anos para diversos países da América Latina, mas devido a seu tamanho e importância, o grande mercado é o nacional.

Revista AG - Até pouco tempo o uso intensivo de fertilizantes comprometeu as reservas de matéria-prima para o fosfato bicálcico, gerando aumento de preços dos suplementos minerais. Qual a expectativa a respeito disso para este e o próximo ano?

Jorge Matsuda - De todo mercado do fósforo, certamente o segmento de fertilizantes é o mais importante, pois consome mais de 92% da produção. O consumo dessa substância pela nutrição animal não chega a 5%. Sendo assim, o “poder de abaixar ou aumentar” o preço do fósforo está na indústria de fertilizantes. Com o momento de grande cautela que a economia mundial passa, pelos problemas que se iniciaram nos Estados Unidos e se agravaram na Europa, nada indica aumentos significativos no fosfato bicálcico. Mas, cabe lembrar que não só é o fósforo o formador de preço do suplemento mineral. Há muitos mais elementos pesando no custo final, como a tributação de PIS e Cofins, o custo absurdo da energia; do frete; dos microminerais e o aumento significativo do sal branco nos últimos anos, entre outros.

Revista AG - Nos últimos anos, temos notado movimentos de intensificação da produção pecuária. Com isso, o crescimento do uso do confinamento é um caminho sem volta?

Jorge Matsuda - A pecuária brasileira tem progredido muito nos últimos anos e a intensificação do uso de tecnologia no manejo das pastagens e na suplementação dos animais criados nestas pastagens têm quebrado “tabus e dogmas” históricos sobre as limitações da pecuária nos trópicos. A produção intensiva é muito dependente dos preços dos grãos. Anos de preços baratos aumentam o número de animais confinados e o inverso também ocorre. Dentre os diversos tipos de criação, acredito que o confinamento total deve ser visto mais como uma estratégia pontual de mercado do que uma opção geral. O que define a viabilidade econômica do confinamento basicamente é: 1) o tempo para acabamento. Menos de 70 dias é o preferível. 2) conversão alimentar. Deseja-se entre sete a oito quilos de matéria seca ingerida para cada quilo de peso vivo ganho.

Revista AG - E como esta tendência tem afetado as empresas de nutrição animal? Estão organizadas para atender a grande demanda que se ensaia?

Jorge Matsuda - A maioria das boas empresas se prepara, e com ajuda de seus técnicos formularam vários produtos para suprir esta demanda. O mercado brasileiro está muito bem servido pelas empresas sérias, que detêm registros no Ministério da Agricultura, possuem BPF (Boas Práticas de Fabricação), são associadas à ASBRAM e têm controle de qualidade na compra da matéria-prima e de seus produtos finais. Isso dá segurança aos produtores de animais e aos consumidores da carne e leite, oriundos desses animais.

Revista AG - Ainda neste quesito, como está o crescimento do mercado de probióticos?

Jorge Matsuda - Cresce de forma consistente e constante ano a após ano, mas ainda é pouco utilizado pela grande maioria dos criadores.

Revista AG - Atualmente, os produtores já sabem fazer uso de tal tecnologia?

Jorge Matsuda - Embora seja inquestionável seu valor nutricional, infelizmente seu uso pelos produtores é ainda muito discreto. Mas, certamente, seguirá crescendo e, no futuro, terá importância muito mais reconhecida pelos criadores de animais e, assim, sua utilização crescerá muito.

Revista AG - Quanto aos insumos utilizados na formulação de rações, o milho continuará sendo a vedete ou tem outras opções tão boas quanto ele?

Jorge Matsuda - Existem outras fontes energéticas tão boas quanto o ele, mas, pela “cultura tradicional da nutrição animal”, o milho é, e continuará sendo por muito tempo ainda, a base das formulações de ração. Todavia, nada indica que os tempos de milho barato voltarão, pois 80% do grão produzido no mundo é de origem norte-americana, sendo que 25 a 30% estão comprometidos com a indústria de biocombustíveis até 2025.

Acredito que poderemos chegar aos três milhões de toneladas de suplementos minerais até o final da década e a quatro milhões de toneladas em um futuro mais distante, dependendo da economia mundial, (principalmente países emergentes.)

Revista AG - Quais serão as prioridades da ASBRAM na sua gestão?

Jorge Matsuda - Como presidente da entidade, represento um grupo de empreendedores que há muitos anos trabalha e acredita em um Brasil moderno e próspero, onde a pecuária seja cada vez maior e melhor. Temos muitas metas, mas a principal, que não vem de hoje, é conseguir a mesma isonomia tributária com a isenção do PIS e Cofins dada a outros setores afins e que, infelizmente, não foi oferecida ao setor de nutrição animal. Mais que uma questão de justiça tributária, essa isenção do imposto será um grande fator de desenvolvimento, para um segmento que gera renda e trabalho para dezenas de milhares de pessoas, por ser um produto presente em toda a cadeia produtiva da carne e do leite. Todos os membros da ASBRAM querem, precisam e buscarão a redução do PIS/Cofins para o suplemento mineral. O Brasil só ganhará com essa medida.

Revista AG - A qualificação dos técnicos e a intensificação do investimento nas revendas das indústrias de alimentação vão merecer atenção especial?

Jorge Matsuda – Certamente. Tudo começa pelo departamento técnico das empresas que criam tecnologia própria e desenvolvem produtos para servirem da melhor forma possível seus clientes e parceiros, os criadores de gado. A profissionalização e tecnificação cada vez maior e melhor dos representantes das empresas de suplementos minerais é fundamental para o desenvolvimento da pecuária brasileira, pois são eles os grandes difusores de tecnologia e extensão.

O milho é e continuará sendo a base das formulações de ração. Todavia, nada indica que os tempos de milho barato voltarão, pois 80% do grão produzido no mundo é de origem norteamericana, sendo que 25 a 30% comprometidos com biocombustíveis até 2025.

Revista AG - Norte e Nordeste são regiões as quais as indústrias estão atentas?

Jorge Matsuda - A região Norte abriga, hoje, cerca de 20% do rebanho nacional e, neste percentual, uma parte significativa são fêmeas em fase reprodutiva. O futuro da pecuária brasileira está diretamente ligado à quantidade e qualidade de seus ventres. Já a região Nordeste tem um potencial pecuário incalculável, seja para bovinos e principalmente para pequenos ruminantes, como caprinos e ovinos, bastando se adequar a suas particularidades pastoris e de disponibilidade de água.

Revista AG - Quais as perspectivas do setor para os próximos cinco anos?

Jorge Matsuda - São muito promissoras e acreditamos que chegaremos aos 2,5 milhões de toneladas de suplementos minerais consumidos pelo rebanho brasileiro, no cenário menos otimista.

Revista AG - A tecnologia empregada na alimentação animal no Brasil perde em alguma coisa para outras potências do agronegócio?

Jorge Matsuda - Em hipótese alguma. A tecnologia brasileira em nutrição animal para a realidade tropical e subtropical é única e superior a qualquer outra que exista no restante do planeta. Temos excelentes empresas de nutrição animal, que possuem os melhores e mais experientes técnicos para a nossa realidade continental e tão diversa. Técnicos estes que desenvolveram uma tecnologia nutricional própria para a pecuária pastoril brasileira, muito moderna e eficiente, que foi fundamental para transformar, em menos de duas décadas, uma pecuária extrativista e atrasada, em uma pecuária moderna e pujante, que fornece proteína de alto valor biológico para mais de 190 países. Certamente, em todo o planeta não há forma mais racional, barata e eficiente de alimentar a humanidade com nutrientes nobres do que com os presentes no leite e na carne oriundos das pastagens brasileiras.