Sala de Ordenha

 

Safra vai acabando e preços se sustentam

Se observarmos os valores pagos em janeiro em comparação com o valor de pico no ano anterior (Gráfico 1), é possível verificar que, neste ano, o preço recebido pelo produtor, em média, pouco se alterou. Antes do início da safra, apostava-se em reduções entre R$ 0,10 e R$ 0,15/litro, o que não se confirmou. A queda ficou restrita à metade desse valor, se considerado o valor de pico menos o preço de janeiro.

Mesmo que alguma redução nos preços do leite ainda apareça, as baixas serão discretas. Os Conseleites dos três estados do Sul, por exemplo, projetaram reduções leves.

A principal explicação para esse comportamento reside na oferta de leite em 2011. Embora não tenhamos os dados oficiais do IBGE, se utilizarmos os valores conhecidos até setembro e aplicarmos a variação estimada pelo Cepea nos meses seguintes, chegaremos a um aumento de 1,7% na produção inspecionada de 2011 (Gráfico 2), um aumento de menos de 300 milhões de litros. De fato, considerando 2011 como um todo, o Cepea apontou queda de 2,2% na captação.

Ainda que o IBGE traga números mais altos e que a curva do final de 2011 não seja tão baixa quanto a apresentada pelo gráfico 2, parece que a razão para a manutenção dos preços é a baixa oferta de leite.

O crescimento do consumo tem girado em torno de 3 a 7% ao ano; uma produção apenas 1,7% maior não seria suficiente para manter o mercado equilibrado.

Há de se considerar o aumento das importações. Porém, mesmo neste item, deve ser observado que os valores em equivalente leite importados (a quantidade de leite utilizada para produzir um quilo de determinado produto) nos últimos dois meses do ano de 2011 apresentaram redução. Portanto, se a importação foi menor em novembro e dezembro e a oferta interna também não respondeu à demanda, tudo indica que o mercado ficou com pouco leite.

Os altos valores dos preços pagos no campo fizeram com que as margens das indústrias ficassem mais apertadas, uma vez que as vendas de UHT no atacado vinham enfraquecendo.

A partir de meados de janeiro, agentes do mercado têm reportado alguma reação nos preços do UHT no atacado, provavelmente pela demanda normalizada com o retorno das aulas ou até por algum movimento das empresas em busca de preços mais elevados em futuro próximo. Os preços do UHT no atacado têm forte correlação com os preços do leite ao produtor, sendo um indicador interessante.

Além disso, janeiro foi marcado pela estiagem. Contrariando índices anunciados de perdas na produção de leite de até 10%, informações de agentes de mercado pronunciaram que o reflexo ainda não foi sentido de forma representativa e as perdas na produção de leite girariam 5% para menos. Ao que tudo indica, a produção de silagem produzida será de baixa qualidade, assim, para os próximos meses, é possível que a produção do Sul venha mais tímida. Os acordos de importação com a Argentina, a possibilidade de o Uruguai não ter o mesmo desempenho de 2011 e uma possível melhoria da situação cambial podem contribuir para uma disponibilidade de leite mais ajustada no primeiro semestre, elevando os preços.

Por outro lado, os principais lácteos têm subido mais que a inflação. Os preços ao produtor foram os que mais destacaram. Ainda é cedo para tecermos comentários mais definitivos sobre o comportamento no ano. O cenário mais provável continua sendo de relativa estabilidade, sempre lembrando que há diversos fatores que definem o mercado. Um deles é a política de preços nos próximos meses: se houver forte estímulo à produção, ainda mais em um cenário de custos controlados, o resultado poderá ser o de forte elevação na oferta e consequente redução de preços, fazendo com que os preços em janeiro de 2013 se assemelhem mais ao comportamento verificado em 2008/07, 2009/08 e 2010/09 do que nos últimos dois anos.

Marcelo Pereira de Carvalho, diretor-executivo da AgriPoint Maria Beatriz Tassinari Ortoloni, Analista de Mercado do Milkpoint