Caindo na Braquiária

 

Noroeste Mineiro – cana, eucalipto e pecuária moderna

“Há 25 anos trabalhando no gerenciamento de fazendas que plantam e criam, não tenho dúvidas em afirmar que sempre foi a pecuária que intercedeu positivamente na superação das diversas crises sofridas”. Foi assim que Julio César, gerente da profícua Fazenda Boa Esperança, nos deu a exata noção da responsabilidade da pecuária frente à moderna agricultura dos dias atuais.

A Boa Esperança, localizada em Paracatu, no noroeste de Minas Gerais, detinha um rebanho de 5.000 vacas Nelore, nas quais aplicava criteriosa seleção, participando, inclusive, de um programa de melhoramento genético nacional. No lugar de vacas, encontramos cana plantada para suprir a demanda da usina recém-instalada nas suas terras. Com um colóquio objetivo, Julio César nos esclareceu que selecionou as 500 melhores novilhas Nelore, oriundas de suas excelentes e produtivas matrizes, com o intuito de produzir carne numa área úmida da fazenda e imprópria para o plantio de cana. Seu desafio é obter com a cria a mesma receita por área que a cana-de-açúcar. Para isso, Julio lança mão do uso da genética e genômica, além de um manejo intensivo de pastagens, mantendo uma lotação acima de 5 cabeças por hectare.

Essa profícua região de MG, que abrigava há dez anos verdadeiras fábricas de bezerros de qualidade, como a AC Agromercantil, Mamoneira Agrop. e a própria Boa Esperança, dentre outras não menos importantes, atualmente vem vivenciando uma mudança no escopo de produção, com a introdução da cana e do eucalipto.

Após cruzar um corredor de mais de 20 km de eucaliptais, chegamos à fazenda administrada pelo experiente Dr. Sérgio, veterinário e diretor de uma das mais bem conceituadas fazendas de seleção de touros e produção de bezerros cruzados de toda região. “Atualmente, estamos com boa parte da fazenda cultivada com eucalipto, onde continuo mantendo praticamente o mesmo rebanho de vacas. Usaremos parte do lucro com a venda da madeira às siderúrgicas no financiamento da pecuária, tornando-a, assim, uma cultura intensiva, pois antes da introdução do eucalipto, tínhamos piquetes de 15 a 20 ha. Hoje, temos a metade da área por piquete com o dobro de gado.”

Mais de cinco siderúrgicas incentivam o plantio do eucalipto no noroeste mineiro, onde somente uma delas já cultiva, em Paracatu, mais de 22 mil ha. Seu consumo mensal de carvão é de 20.000 m3, estimando a necessidade de 200 mil m3 de carvão a cada mês daqui a 10 anos. Isso significa que serão destinados ao eucalipto em torno de 4 milhões de ha para atender a necessidade dessa grande empresa, ou seja, será arrebatada da pecuária uma área que abriga ao menos 4 milhões de cabeças.

“Mais de cinco siderúrgicas incentivam o plantio do eucalipto no noroeste mineiro, onde somente uma delas já cultiva, em Paracatu, mais de 22 mil ha. Seu consumo mensal de carvão é de 20.000 m³”

Sérgio, por sua vez, vem desenvolvendo a prática do sistema silvopastoril em algumas áreas, seguindo o modelo de sucesso já alcançado por outros, onde planta 3 linhas de eucalipto (espaçamento de 2 m entre linhas), deixando 6 m para pastoreio. Com isso, buscará atingir um equilíbrio interessante entre pecuária e eucalipto. E como de praxe, Dr. Sérgio levará a esses seletos nichos de recria e engorda machos ½ sangue Angus, produtos de sêmen de touros com altas DEPs para peso e habilidade materna. A fazenda também retém as melhores matrizes ½ cruzadas, as quais são cobertas com touros Brahman, a fim de produzir pesados e produtivos animais tricross. Já no que diz respeito à seleção do Nelore, a fazenda possui 120 matrizes Nelore, as quais vêm produzindo touros Nelore PO criteriosamente selecionados.

Passava das 14h quando chegamos à Fazenda da Família Petroll, propriedade muito bem administrada por Caroline e sua mãe, as quais possuem 950 matrizes Nelore comerciais. Zootecnista e mestre em economia rural, Caroline foi estagiária da Agropecuária CFM, trazendo na bagagem um conceituado sistema de seleção. A busca pela eficiência é marca da família. Poucas vezes vimos um sistema de gerenciamento e coleta de dados tão prático e preciso. Nesse momento, os Petroll iniciaram um processo de estudo de introdução de um projeto de piscicultura para aproveitamento de 100 ha de lâmina de água, o qual certamente será mais uma fonte de lucro para essa fazenda, que já é modelo de tecnologia na região.

Saímos da região com a certeza de que não podemos defenestrar a pecuária em detrimento de culturas que avançam com financiamentos do governo ou mesmo das próprias empresas que vêm arrendando as terras particulares. O caminho sem volta será o uso do lucro da agricultura para intensificar as áreas de pastagens e inegavelmente haverá o aumento do valor da carne bovina e consequente aumento de lucro para o pecuarista.

Alexandre Zadra - Zootecnista [email protected]