Leite

 

GIRSEY produz mais por área

APTA regional estuda cruzamento entre Gir Leiteiro e Jersey. Resultados preliminares são animadores

Anibal Eugenio Vercesi Filho*

A APTA Regional é um Departamento da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios pertencente à Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo. O Pólo Regional de Desenvolvimento Tecnológico do Nordeste Paulista faz parte da APTA Regional, tendo como sede uma Fazenda Experimental na cidade de Mococa.

O rebanho Gir Leiteiro da então Estação Experimental de Zootecnia de Ribeirão Preto, do Instituto de Zootecnia (atual Polo Regional Centro Leste – APTA Regional), foi formado no início da década de 60 do século passado por 50 matrizes registradas e pelo reprodutor Xopotó, oriundo do rebanho da Fazenda Experimental Getúlio Vargas (EPAMIG), da cidade de Uberaba/ MG. A organização e elaboração do referido projeto coube ao então chefe da Seção de Genética Animal e Reprodução – Dr. Alberto Alves Santiago. Este rebanho foi mantido sob seleção leiteira no referido Polo até o ano de 1998, quando a maior parte dos animais foi deslocada para o Polo de Pindamonhangaba e o programa de seleção foi interrompido.

No final de 2005, início de 2006, as matrizes Gir da APTA Regional foram levadas para a Fazenda Experimental de Mococa e o projeto resgatou a população de Gir Leiteiro pertencente à Apta Regional, submetendo-a a processo de multiplicação e melhoramento genético de características de interesse zootécnico voltadas à eficiência de produção, sob condições de ambiente e manejo predominantes na região tropical. Efetuou-se o registro genealógico junto à Associação Brasileira de Criadores de Zebu (ABCZ) de 33 vacas e 18 novilhas, tendo ainda 21 bezerras com possibilidade de registro para formação do rebanhobase. Com o registro das matrizes, encerrou-se a primeira fase do projeto que tinha por objetivo a reestruturação do rebanho de Gir Leiteiro. O projeto atual é denominado “Melhoramento genético de bovinos da raça Gir Leiteiro e seus cruzamentos”, e é coordenado pelo pesquisador Anibal Eugenio Vercesi Filho. Integram o projeto os pesquisadores Enilson Geraldo Ribeiro, Sebastião de Lima Júnior, Lenira El Faro, Vera Lúcia Cardoso, Cláudia Cristina Paro de Paz, José Ramos Nogueira, Maria Lucia Pereira Lima (todos esses do quadro de pesquisadores da APTA), André Fernandes Rabelo (Associação Brasileira de Criadores de Gir Leiteiro) e Fábio Carvalho Faria (Universidade Federal do Mato Grosso do Sul - UFMS). O controle leiteiro oficial iniciou-se em março de 2010. O trabalho conta com a colaboração das fazendas Santana da Serra (Gir Leiteiro FB), que cederam, durante os primeiros cinco anos do projeto, os touros FB Tarumã, FB Dodge, FB Acrílico e FB Bosh para fazer o repasse em monta natural das matrizes do rebanho; Terra Vermelha (Gir Leiteiro Campo Alegre - KCA), que cedeu doses de sêmen do touro CA Sansão (líder do sumário ABCGIL/EMBRAPA), e também com a assistência da Associação Brasileira de Criadores de Gir Leiteiro (ABCGIL), com as visitas do técnico André Rabelo Fernandes.

Anibal apresenta projeto ao governador de SP Geraldo Alckmin durante Feileite 2011

Nasce o Girsey

As vacas são submetidas a controle reprodutivo e controle leiteiro mensal, visando à identificação das melhores matrizes que estão sendo utilizadas como doadoras de embriões em processo de FIV (fertilização in vitro) para reconstituir a população pura e acelerar o progresso genético, além da produção de embriões do cruzamento Gir Leiteiro x Jersey. A produção de embriões por FIV foi iniciada em fevereiro de 2012. O restante das matrizes é utilizado para acasalamento com touros integrantes do Programa Nacional de Melhoramento do Gir Leiteiro – PNMGL, conduzido em parceria entre a ABCGIL e a EMBRAPA Gado de Leite; e, também, com touros Jersey para formação de um rebanho mestiço visando à produção de leite em sistema de pastejo rotacionado. Atualmente, o projeto de cruzamento foi direcionado para o cruzamento alternado entre as raças Gir Leiteiro e Jersey para que se possa avaliar a eficiência econômica deste sistema de produção e do referido cruzamento.

Por que o mestiço?

No Brasil, a produção de leite baseada na utilização de animais de raças europeias, especializadas em produzir em clima frio e com alta disponibilidade de alimentos concentrados, não tem alcançado êxito econômico na parte tropical do país, devido, em grande parte, aos elevados custos de produção deste sistema, segundo aponta o pesquisador Dr. Fernando Enrique Madalena. A utilização de animais mestiços oriundos do cruzamento de raças zebuínas (principalmente Gir Leiteiro e Guzerá) com raças taurinas (principalmente Holandês e Jersey) é prática bastante difundida em nosso país, sendo que, segundo levantamento da EMBRAPA, cerca de 80% do leite produzido no Brasil vem de rebanhos mestiços.

Neste contexto, surgiu a ideia de se pesquisar outro cruzamento que não o Gir Leiteiro x Holandês (Girolando), amplamente utilizado no Brasil e já caracterizado por pesquisa científica. Baseado nos resultados experimentais de Teodoro e colaboradores, a equipe Técnica da APTA Regional decidiu por iniciar um rebanho cruzando-se o Gir Leiteiro com Jersey.

Neste trabalho, os autores fizeram a avaliação econômica de cruzamentos tríplices utilizando Jersey, Pardo Suíça e Holandesa em fêmeas Holandês x Gir. A conclusão foi que as fêmeas cruzadas de Jersey trariam um importante benefício econômico para o produtor, quando a gordura e proteína do leite viessem a ser remuneradas, o que já vem acontecendo em boa parte dos laticínios no país, além das normas mínimas para estes componentes no leite estabelecidos pela Normativa 62 do Governo Federal, em dezembro de 2011. Também foram apontados pelos pesquisadores como importantes na composição do lucro deste cruzamento: o menor peso em idade adulta, a maior vida útil no rebanho e a maior fertilidade das vacas filhas de touros da raça Jérsey. Deve-se salientar que neste experimento não foi avaliado o macho, pois este era descartado logo após o nascimento e as vacas ordenhadas sem a presença dos bezerros. Estes foram os principais fatores que motivaram o início do projeto do cruzamento Gir Leiteiro x Jérsey. A expectativa é que tenham maior número de bezerros na vida, menor peso adulto e maior produção de sólidos. A idade do primeiro parto é menor nas Girsey em relação às contemporâneas Girolandas no nosso rebanho. Com 16 primeiros partos, a idade média das Girsey foi 27,6 meses contra 35,6 meses de sete companheiras Girolandas – também meio sangue. Outros dados reprodutivos importantes são 39,8 meses ao segundo parto (cinco vacas) e 54,2 ao terceiro parto de uma vaca.

Matrizes Girsey na sala de ordenha da APTA Regional em Mococa-SP

Porém, a amostra ainda é muito pequena. “O ideal é que tivéssemos pelo menos 60 vacas de cada grupo genético; hoje, são cerca de 20 animais. Apenas com o volume de dados que temos atualmente fica difícil tirar conclusões científicas estatisticamente significativas.

Quanto à produção de leite, os dados são animadores. Das 11 vacas em lactação nos últimos três meses, a média foi de 13,23kg, variando de 5 a 23kg. Essa produção é baseada na utilização de pasto e concentrado segundo a produção de leite.

Ainda não foi iniciada a coleta de leite para análise dos componentes, o que está previsto para acontecer a partir de março deste ano.

O projeto ainda está no início. Precisamos alcançar um número significativo de animais, o que deverá acontecer com a utilização da FIV; intensificar a coleta de dados de produção, reprodução e crescimento e planejarmos a coleta dos dados econômicos, que é o que realmente interessa ao produtor de leite. O interesse dos produtores por esse cruzamento é grande. Recebemos muitas consultas e visitas de produtores de leite do Brasil. A nossa participação na Feileite em 2010 e 2011 foi muito proveitosa. Esperamos continuar nosso trabalho e dele oferecer mais uma opção de cruzamento para o produtor de leite que trabalhe em sistema de pastejo. Esta é a nossa missão: gerar ferramentas que possibilitem uma maior lucratividade ao produtor rural.


Duas raças, um propósito: produzir mais, melhor e barato

Gir Leiteiro

A evolução da raça Gir Leiteiro no Brasil se deu principalmente depois da fundação da ABCGIL em 1980 e da implantação do Programa Nacional de Melhoramento do Gir Leiteiro, com a realização do Teste de Progênie (1985) conduzido através da parceria da ABCGIL com a EMBRAPA – CNPGL. Atualmente, o Programa conta com 221 touros com avaliação genética, sendo 166 positivos para leite e mais 164 touros em processo de avaliação com resultados a serem liberados até 2017. Com a implantação do Programa, a raça vem apresentando crescimento contínuo e sustentável, tendo se transformado, nos dias atuais, na mais importante raça leiteira nacional.

Girsey apresentou maior teor de sólidos no leite, o que pode favorecer bonificação

Jersey

Entre as motivações para o cruzamento com Jersey, aponta-se que este grupo genético tenha a mesma produção de leite do holandês na vida útil, porém, melhor produção de sólidos (gordura e proteína). Como existe uma tendência para o pagamento pelo diferencial de qualidade, o cruzamento com este europeu passou a ser uma opção interessante do ponto de vista econômico.

Outro motivo é o tamanho das vacas Jersey. Quando se trabalha com produção de leite a pasto, o que conta é a produção por hectare, e não por animal. Com animal de menor porte, tem-se mais animais por unidade de área, o que pode refletir em maior produção. Resultados de pesquisas demonstram que o peso da vaca adulta é uma característica importante em sistemas de produção de leite a pasto. Em outras palavras, tirar leite a pasto de vaca muito pesada é antieconômico.

*Pesquisador Científico da APTA