Sanidade

 

Mosca-dos-estábulos

Controle é prolongado e segue até meados de abril

Gabriel Sandoval* e Daniela Miyasaka Cassol**

Atualmente a Stomoxys calcitrans, mais conhecida como “moscados- estábulos” ou “mosca da vinhaça” é responsável por causar prejuízos de grande impacto econômico nas cadeias produtivas da pecuária bovina e sucroalcooleira em alguns estados do Brasil, dentre eles Mato Grosso do Sul, São Paulo, Paraná, Rio de Janeiro e Minas Gerais.

As picadas destas moscas hematófagas são dolorosas e carregam diversas doenças, como a Escherichia coli e tripanossomas.

Este inseto tem como hospedeiros a maioria dos animais, incluindo o homem. Os restos alimentares e o vinhoto – subproduto da indústria canavieira – atraem e estimulam a postura de ovos, bem como palhas e sobras de culturas que permanecem no campo por algum tempo, principalmente se esses materiais encontrarem- se fermentados ou umedecidos com urina e fezes de animais.

Essa matéria orgânica acumulada cria substratos propícios à proliferação das moscas, que fazem a postura em um raio de até 11 km.

Dessa maneira, a proximidade das usinas pode afetar diretamente a pecuária. Segundo o pesquisador Ivo Bianchin, o inseto é comum nas três Américas. O mais importante é controlar a proliferação no ambiente. O uso indiscriminado de inseticidas tem provocado a resistência desse parasita, além de causar o desequilíbrio ambiental ao eliminar possíveis predadores. A melhor estratégia para combater o inimigo é o manejo e o controle integrado.

Wilson Werner Koller, especialista em Entomologia, destaca que o problema da infestação da mosca-dos-estábulos não é atribuído somente à produção da cana-deaçúcar, mas a todo resíduo orgânico úmido, como confinamentos, usinas, aviários e muitos outros. O controle deve ser feito também na palhada, modificando o ambiente e impedindo seu desenvolvimento.

João Batista Catto, outro pesquisador, acrescenta que o problema se agravou com o excesso de chuvas.

De acordo com Fernando Paiva, da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, a expansão da indústria sucroalcooleira é inevitável, provocando consequentemente o aumento no número de confinamentos instalados na região.

Alguns autores relataram no Brasil que as moscas podem causar prejuízos na ordem de 100 milhões de dólares anuais, mas esses estudos devem ser revistos para identificar a real perda econômica causada diretamente por esse muscídeo.

Superficialmente, a S. calcitrans é parecida com a Musca domestica. O método mais simples para distinguir as moscas-dos-estábulos de outros gêneros não picadores é por meio da probóscide, que na S. calcitrans é saliente e projetada para frente. As moscas-dos-estábulos podem ser distinguidas de muscídeos picadores do gênero Haematobia pelo tamanho maior e pelos palpos mais curtos.

mais curtos. As moscas (machos e fêmeas) nutrem-se de sangue de uma a duas vezes por dia, variando de acordo com a temperatura ambiente. As fêmeas podem por de 25 a 50 ovos, semelhantes às moscas domésticas, em matéria vegetal em decomposição, como feno e palha, contaminados com fezes e urinas. Os ovos eclodem dentro de um a quatro dias; as larvas, dentro de seis a 30 dias, dependendo das condições climáticas. Após a emergência, as fêmeas adultas precisam de várias ingestões de sangue para que os ovários amadureçam e possam iniciar a oviposição. O ciclo evolutivo completo desde o ovo até a mosca adulta pode durar de 12 a 60 dias, dependendo principalmente da temperatura. São necessários três minutos para a ingestão de sangue e frequentemente a alimentação é interrompida, permitindo assim a transmissão mecânica de micro-organismos e protozoários patogênicos – como os tripanossomas.

A S. calcitrans também atua como hospedeiro intermediário do Habronema SP (ferida do verão).

As moscas adultas vivem durante cerca de um mês e são abundantes ao redor das instalações rurais no final do verão e do outono nas regiões temperadas. Preferem a luz solar forte e picam principalmente ao ar livre, embora acompanhem os animais até recintos fechados. Estas moscas, em grandes quantidades, são uma enorme fonte de estresse para bovinos, e em algumas áreas há estimativa de queda de produção de leite e carne de até 20%.

Controle

Para o controle da S. calcitrans, a redução da fonte de proliferação é de fundamental importância, com a remoção regular de camadas úmidas, feno, resíduos alimentares e dos estábulos.

As administrações de inseticidas à base de organofosforados e piretroides na forma de aerossol dentro e em volta dos estábulos proporcionam bom controle local.

Limpeza e desinfecção das instalações

O controle químico nos animais pode ser feito com a utilização de produtos ectoparasiticidas organofosforados (exemplos: clorpirifós, diclorvós, diazinon), associados ou não aos piretroides (exemplos: cipermetrina, deltametrina), administrados pela via pour-on e pulverização. Na administração em pulverização, o produto deve ser diluído em água limpa, banhar toda a superfície do animal e utilizar, aproximadamente, cinco litros de calda por bovino adulto. Para os tratamentos pour-on, o produto deve ser aplicado em toda linha dorsal do animal, da inserção da cauda até o meio do pescoço. Outro método é a colocação de brincos mosquicidas.

O manejo de esterqueiras é prioridade no Programa de Controle Integrado, em virtude da proliferação intensa da mosca no ambiente. Em muitos países, os efluentes oriundos da produção animal já são a principal fonte de poluição dos recursos hídricos, superando os índices das indústrias, consideradas até então as grandes vilãs da degradação ambiental. Esses resíduos orgânicos, quando manejados e reciclados adequadamente no solo, deixam de ser poluentes e passam a constituir valiosos insumos para a produção agrícola sustentável. Na exploração leiteira, quando os animais são mantidos em regime de semi ou confinamento total, é preciso planejar os melhores métodos de tratamento e aproveitamento desses dejetos.

Um manejo de esterqueira simples e que pode ser recomendado é o “sistema de montes”. Realizado através da remoção e acúmulo do esterco durante uma semana em local de baixa umidade e cobrí-lo com lona plástica. Realizar este procedimento durante quatro semanas. A partir da 5ª semana, pode-se utilizar o primeiro monte, ou seja, incorporar ao solo.

Mosca vista parcialmente. Sua principal diferença em relação à mosca doméstica é a probóscide, cumprida e voltada para frente

Diante do exposto, conclui-se que além do clima favorável para a S. calcitrans, o vinhoto, juntamente com a palha, eventualmente incorporados às fezes e urinas, contribuem para a proliferação do parasita e são os principais fatores responsáveis pela sua elevada incidência, acarretando um desequilíbrio ambiental e, consequentemente, perdas econômicas ao rebanho.

Portanto, o controle físico (limpeza e desinfecção do ambiente e manejo de esterqueiras), associado ao controle químico no animal e nas instalações rurais, constituem um programa integrado eficaz no combate e controle desse inimigo.