Reportagem de Capa

 

Modificadores Orgânicos

Literatura científica não endossa resultados

Marcos Chiquitelli Neto*

A busca por produzir mais e melhor sem agredir o meio ambiente tem feito pecuaristas recorrerem a produtos promotores de performance, que oferecem muitas sugestões injetáveis. No nordeste paraense, por exemplo, criadores têm usado empiricamente modificadores orgânicos comerciais visando à terminação de bovinos de corte criados em sistema extensivo, de forma a otimizar o aproveitamento de alimentos, principalmente os de alta densidade. O fato é que os dados científicos das universidades não comprovam a plena eficácia desse produto. O problema já começa no conceito comercial, repassado erroneamente pela indústria aos produtores.

Os ditos modificadores orgânicos (MOs) são, na verdade, um complexo de aminoácidos enriquecidos com vitaminas A, D e E. Seriam modificadores se fossem ionóforos. Os ionóforos alteram a flora ruminal dos bovinos, inibindo o crescimento de bactérias maléficas do rúmen, potencializando a produtividade do animal. A própolis é um exemplo de MO natural e comprovado cientificamente. Como inúmeras outras técnicas, o uso dos modificadores orgânicos comerciais foi importado dos EUA, uma realidade totalmente diferente da nossa. Os bezerros norte-americanos, logo após desmamados, são confinados, sendo necessária a compensação de aminoácidos e das vitaminas citadas. No Brasil, onde a criação é a pasto, apenas com a terminação em confinamento (casos específicos), o animal já sintetiza esses nutrientes durante a ruminação do capim. Além disso, para os bovinos, os elementos citados não são substâncias essenciais ao organismo, como ocorre para o homem.

Dezenas de experimentos questionam a eficácia dos MOs, sendo três deles mais recentes e realizados com diversas categorias animais. Um deles, “Efeito do modificador orgânico sobre o desempenho de bovinos castrados e inteiros”, foi conduzido na Fazenda Experimental da Unesp Ilha Solteira (Selvíria/MS), em 2009, e avaliou o uso de modificadores em bovinos da raça Guzerá confinados. O segundo, um complemento do estudo “Efeito do uso de modificador orgânico sobre o desempenho de bovinos de corte em pastejo, na fase de terminação”, foi dirigido na Fazenda Tainã, em Peixe-Boi, nordeste paraense, em 2010, com a aplicação de MO em 40 novilhos Nelore inteiros criados em pasto rotacionado. Assinam o trabalho alunos, professores, mestres e doutores da Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA/Belém do Pará). O terceiro estudo, denominado “Avaliação do uso de modificador orgânico comercial em novilhas de corte”, ocorreu em bezerras de corte Red Norte desmamadas e acompanhadas em confinamento até a reprodução, aos 18 meses, pertencentes à Fazenda Jatobá, em Alfenas/MG.

MO em Guzerá inteiro e castrado

Com duração de 84 dias, o experimento foi desenvolvido na Fazenda de Ensino, Pesquisa e Extensão da Unesp, Campus de Ilha Solteira, em Selvíria, leste do Mato Grosso do Sul. Foram utilizados bovinos machos da raça Guzerá, com médias de 391,4 kg de peso e 30 meses de idade. Destes, 20 castrados e 15 inteiros, dos quais 17 foram selecionados ao acaso para receberem 10 mL do modificador orgânico mais difundido no mercado, sendo aplicado na paleta de dez animais castrados e na de sete inteiros. Todo o gado foi mantido em regime de confinamento, recebendo a mesma alimentação duas vezes ao dia, sendo a primeira às 9h e a segunda às 15h, à base de 50% de silagem de sorgo e 50% de ração concentrada, além de um bebedouro e dois cochos com sal mineral à vontade.

Para aferir o desenvolvimento dos lotes, foram promovidas quatro pesagens com intervalos de 28 dias, sempre respeitando jejum de 24h. Houve efeito do MO apenas no período experimental (primeiros 28 dias) para o grupo de animais inteiros, não ocorrendo efeito do produto em qualquer uma das outras fases ou grupos. Esses resultados podem ilustrar um efeito de melhoria na flora ruminal de animais mais ativos, no período de estresse que envolve o início do confinamento. Os resultados mostraram que o uso do produto não foi efetivo na melhoria do desempenho de bovinos Guzerá de corte, inteiros ou castrados. Vale ressaltar, como houve resposta ao produto de alguns indivíduos em um pequeno período de uma das fases da pesquisa, que cabe uma nova avaliação, com maior número de cabeças. O ganho de médio diário de peso (GMD) desses animais está nas tabelas 1 e 2.

MO em Novilhos Nelore

O estudo foi conduzido na Fazenda Tainã, em Peixe-Boi, no Pará, de 05/06/2010 a 28/08/2010, época de transição entre o período mais chuvoso para o menos chuvoso na região. O gado foi criado em uma área de 40 ha de pasto rotacionado de Brachiaria brizantha CV. Marandú e mineralizado com sal mineral ad libitum, fornecido em cocho coberto. Foram avaliados novilhos inteiros Nelore com média de idade de 24 meses, em fase de terminação, com peso médio de 444,6 kg, distribuídos em dois lotes, dos quais 20 animais receberam aplicação de 10 mL de MO e 20 não. As pesagens ocorreram individualmente, no início do pastejo e a cada 28 dias, totalizando três períodos.

Os resultados mostraram que não houve diferença estatística entre os tratamentos, corroborando com os dados obtidos por Soutello (2002), em que a aplicação de MO não influenciou de forma significativa o ganho de peso médio de novilhos Nelore castrados de 24 meses de idade, assim como a pesquisa de Castro (2009), com 132 novilhos. Em valores, o ganho médio diário obtido foi muito bom, mas atribuído à excelente qualidade do pasto, seu correto manejo e adequado uso da rotação. Os valores de ganho médio diário (GMD) no 2º período se mostraram inferiores em relação ao 1º e 3º períodos. A queda e o posterior aumento de ganho de peso podem ser explicados pelas condições de pastagem, que se apresentou com mais ou menos massa em cada momento do experimento. Acompanhe pesos e GMD na tabela 3.

Novilhas Red Norte

O terceiro ensaio, realizado por pesquisadores da Universidade Federal de Lavras (UFLA - Lavras/MG) e da Universidade José do Rosário Vellano (Unifenas – Alfenas/ MG), procurou avaliar o desempenho produtivo e reprodutivo de bezerras Red Norte, acompanhadas de maio de 2001 a maio de 2002. O trabalho foi financiado pela Fazenda Jatobá, também de Alfenas, que cedeu 54 novilhas – antes desmamadas aos seis meses pesando 160kg, em média.

Elas foram separadas em dois grupos, um de controle e outro tratado com 3 mL de MO – composto por cloreto de cobalto, sulfato de cobre, gluconato de zinco, ácidos nicotínico e pantotênico, ciano cobalamina e L-Taurina. A alimentação, fornecida duas vezes ao dia, consistia de cana-de-açúcar, farelo de algodão, silagem de milho-grão, ureia e sal mineralizado completo, com composição média de 15,26% de proteína bruta e 72,75% de fibra em detergente neutro (FDN), distribuída em cocho duplo a céu aberto.

A aplicação do MO foi feita 28 dias após a desmama, com as pesagens ocorridas na ocasião e a cada 28 dias após as demais aplicações, perfazendo um total de quatro pesagens, mas planejadas de forma a evitar o peso à desmama como covariável. O ganho de peso registrado para cada categoria encontra-se na tabela 4 e a eficiência reprodutiva foi analisada pelo número de prenhezes confirmadas na cobertura realizada de dezembro a março. As bezerras haviam sido vermifugadas e imunizadas contra aftosa, manqueira, brucelose e raiva. O trabalho científico não observou diferença significativa entre os tratamentos. Entretanto, registrou- se um sensível ganho antes relatado em experimento promovido por empresa fabricante de MO, que aferiu ganho compensatório após 60 dias da aplicação.

O interessante é observar que o ganho de peso diário dos animais permitiu visualizar ao final do período que o grupo tratado com MO demonstrou ponderal inferior ao do grupo de testemunha, o que contradiz os 30% de ganho relatados pelo referido estudo do fabricante. A pesquisa foi encerrada após 90 dias de ensaio por não serem registradas diferenças relevantes. A taxa de fertilidade para os dois grupos foram ruins, também indicando que não houve efeito favorável do MO. O percentual de prenhez foi baixo para ambos os grupos, provavelmente em função do ganho de peso diário abaixo do recomendado para a raça (700g/dia), para reprodução aos 18 meses.

Barreiras comerciais

Além da eficácia não comprovada, União Europeia e outros países consumidores de carne bovina brasileira no padrão de certificação Globalgap estão recusando alimentos que contenham excessos de componentes manipulados industrialmente (alimentos ou moléculas sintéticas), como é o caso dos modificadores orgânicos comerciais. Nesse sentido, alguns grupos, como o nosso de Ilha Solteira, em parceria com a Universidade Estadual de Maringá/PR, representada pela profª Lucia Maria Zeoula, têm se mostrado preocupados em descobrir soluções alternativas, como a própolis, substituta natural de componentes químicos em rações de alto desempenho.

Finalizando, é sempre primordial lembrar que temos a tendência de acreditar em pacotes milagrosos para gerar rendimentos extras nos nossos sistemas de produção, e, com isso, descuidamos do manejo diário, que, associado a uma ração deficiente, pode ser o grande impeditivo para almejar o lucro esperado.

*Prof. PhD. Departamento de Biologia e Zootecnia da Unesp Ilha Solteira e coordenador do Manera (Núcleo de Manejo Racional) - [email protected]