Do Pasto ao Prato

 

VAI FÍGADO AÍ?

Há algum tempo venho reparando o número de comentários de pessoas que não são leitores frequentes do BeefPoint, em artigos sobre carne com sabor de fígado. Fico com a impressão de que são consumidores de carne bovina à procura de esclarecimentos e de diálogo. Não são criadores; não são frigoríficos. Não fazem parte do “setor produtivo”. São apenas consumidores de carne bovina.

Eles chegam ao site para dar depoimentos, reclamar, buscar informações. Estão insatisfeitos. Estão chateados e não têm para quem protestar. Percebo também insatisfação parecida com amigos e familiares.

Muita gente vem me falando nos últimos meses que está insatisfeita com a carne que compra. Isso porque correm um risco, não desprezível, de ter uma péssima experiência. Afinal, você compra algo que é caro e espera garantir uma experiência de consumo de alto nível.

Minha dúvida: qual o real impacto do gosto de fígado no consumo e nas vendas? Isso deve ser muito difícil de se medir precisamente, mas deve ser possível estimar escutando varejo.

Acredito que o SIC (Serviço de Informação da Carne) tenha uma ideia com base no número de atendimentos.

Eu imagino que esse impacto não seja desprezível. Talvez as pessoas não saibam precisar ou explicar suas ações de consumo, mas o risco “sabor de fígado” mostra que o consumidor o leva em conta, inconscientemente, antes de comprar carne bovina ou outra carne.

E como nos últimos anos a renda do brasileiro cresceu muito e o consumo veio a reboque, podemos estar mascarando esse problema com o aumento da renda. Será que se tivéssemos uma garantia de sabor teríamos mais vendas?

Qualquer compra é uma decisão que leva em conta custos e benefícios. Quanto mais corriqueira e comum, mais essa análise é feita de forma automática, ou sem nos darmos conta, mas ela sempre é feita. Eu costumava explicar isso em palestras, com o exemplo da picanha no Brasil.

Custos da picanha:

- preço (alto)
- conhecimento necessário para preparar (baixo)
- risco de um prato de baixa qualidade (baixo)

Benefícios:

- sabor (alto)
- experiência de consumo (alto)
- status junto aos amigos (alto)

Ou seja, apesar do custo financeiro alto, todos os outros fatores eram favoráveis e por isso a picanha é o corte mais procurado, mais em falta, mesmo com preço mais caro. Ninguém faz essa avaliação de forma racional e fria para produtos como a picanha. Faz para produtos de valor muito mais alto, ou de risco muito mais alto, ou faz sem perceber, e automaticamente.

Temos a impressão que o gosto de fígado foi um novo custo adicionado à carne, um novo risco, difícil de se prever, de que aquela carne poderia ser uma experiência negativa, mesmo você tendo pago por ela um valor mais alto.

Qual sua impressão sobre esse problema? Com qual frequência você ouve amigos e familiares reclamando? Qual o impacto desse problema no consumo de carne? Você tem alguma sugestão de como reverter a situação?

Miguel da Rocha Cavalcanti é engenheiro-agrônomo e coordenador do BeefPoint, site especializado na cadeia produtiva da carne bovina (www.beefpoint.com.br)