O Confinador

 

GESTÃO DE DADOS

A diferença entre lucro e prejuízo

Eduardo Gonçalves Batista*

A primeira onda de crescimento do confinamento no Brasil ocorreu há sete anos, especialmente em Goiás, de forma desordenada. A simples desvalorização que existia no preço de compra do boi magro garantia uma boa rentabilidade ao confinador, somando-se aos preços dos grãos, muito inferiores aos de hoje. A margem de lucro elevada fazia com que o confinador convivesse com ineficiências e ingerências.

As únicas métricas avaliadas eram ganho de peso e rendimento de carcaça. Até nós, nutricionistas, tínhamos dificuldades, pois eram poucas as informações sobre o rebanho confinado. Muitas informações eram retiradas dos norte-americanos, uma realidade distinta da nossa. Foi quando atentamos para o desenvolvimento de um software de gerenciamento de confinamentos, o qual possibilitaria reunir todas as informações zootécnicas e econômicas em um banco de dados gigantesco.

Uma operação de confinamento envolve muitos recursos financeiros. 700 animais podem gerar receita bruta anual de R$ 1.200.000,00. Há sete anos, essas mesmas operações dispunham de pouquíssimos dados de gestão. Não dispunham de controle de consumo por lotes ou de ingredientes e conversão alimentar. Os tratos eram feitos em vagões forrageiros na “bica corrida”. Comumente, decisões eram tomadas sobre métricas equivocadas.

A lucratividade reduziu e os confinadores foram obrigados a se profissionalizar. É necessário conviver com a lucratividade obtida através das @ produzidas e não mais com valorização das @ magras. Temos que nos acostumar a produzir com grãos cada vez mais caros, e não se admite estar na atividade sem equipamentos e softwares que ajudam no operacional e na tomada de decisões. Um exemplo de ferramenta de gestão em confinamento é o Feed Manager, um software de gerenciamento com foco no manejo dos animais, no controle dos tratos e na fabricação de rações. O programa auxilia no controle de custos, nos estoques e na elaboração de índices de desempenho. Além disso, é possível prever o ponto ótimo de abate de um lote e obter o lucro máximo.

Hoje, os riscos do confinamento são elevados. O principal item de risco são os preços dos animais de reposição (67%), mas o confinador conta com ferramentas, como a venda no mercado futuro BM&F, mercado de opções e boi a termo junto aos frigoríficos. Porém, a “trava” dos preços deve ser tomada após o cálculo do custo de produção. Nesse sentido, um software torna-se fundamental, pois podemos retirar informações de conversão alimentar esperada de acordo com a composição racial dos animais, custo médio da @ produzida de diferentes composições raciais e diferentes pesos de entrada e saída, além de equações de predição que indicam os dias de confinamento necessários para obtermos o lucro máximo em cada lote.

Existem ferramentas no mercado que fazem a gestão de cria e recria a pasto. Integrando esses softwares com o Feed Manager, podemos obter informações valiosas à seleção de rebanho, como relatórios de ganho de peso e conversão alimentar individual, que ajudam a selecionar vacas e touros que produzem animais com melhores resultados zootécnicos. Até então, a seleção de animais era feita baseada principalmente no ganho de peso. Existe uma correlação moderada entre ganho de peso e lucratividade, porém, não é possível afirmar que quanto maior o peso maior a renda. Já a conversão alimentar e a lucratividade têm uma conexão quase perfeita.

Outra ferramenta de gestão que se pode obter com o programa é o chamado “benchmarking”. Podemos comparar o desempenho entre dois ou mais sistemas, sendo possível avaliar o quão eficaz está na nossa atividade, apontar ineficácias e, posteriormente, realizar a correção dos erros, melhorando, assim, o nosso desempenho.

Ao ter acesso a um relatório de índices zootécnicos de 10 lotes abatidos, com 1.088 cabeças de raças diferentes, é possível averiguar, por exemplo, a conversão alimentar (em kg MS/@ produzida), que em uma propriedade foi 13,2% melhor nos animais Nelores quando comparados a animais compostos. Essa informação ajuda na tomada de decisão com relação à aquisição de animais para confinamento. De posse dessa informação, sabemos o quanto podemos pagar a mais em lote de animais de genética superior, ou o quanto devemos pagar a menos em animais de genética inferior.

O Feed Manager, além de tudo, é também uma ferramenta indispensável para o nutricionista, pois permite acompanhar o desempenho dos animais lote a lote, principalmente através do monitoramento da curva de consumo. Durante a fase de adaptação dos animais, período de transição onde a flora ruminal deixa de digerir carboidratos disponíveis exclusivamente de forragem (pasto) e passa a digerir amido oriundo de grãos presentes na dieta, o nutricionista tem de estar muito atento para o consumo dos animais para evitar problemas metabólicos. Nessa fase, o objetivo é o aumento de consumo diário progressivo, atingindo a meta de consumo até o 21º dia de confinamento. Com o gráfico de consumo, acompanhamos essa evolução. Além disso, no gráfico de consumo diário, podemos identificar problemas de manejo, tais como falta de ingrediente, quebra de equipamento, etc. Também pode ser usado para determinar quais lotes devem ser enviados para abate, pois sabemos que animais próximos ao período final de engorda diminuem o consumo de matéria seca.

Os confinamentos brasileiros evoluíram muito nos últimos anos. Em termos de gestão e manejo, estamos muito próximos dos melhores do mundo. O produtor brasileiro é muito dinâmico e adota novas tecnologias com muita rapidez, seja ele um pequeno, médio ou grande confinador. A evolução que tivemos em sete anos, alguns países demoraram décadas para concretizar.

O Feed Manager conta com um banco de dados de mais de 40 milhões de diárias de diversos confinamentos no Brasil. Neste ano, o software estará presente também em outros países, como Paraguai, Bolívia e Argentina.

*Médico-veterinário e gerente Regional de Gado de Corte da Nutron Alimentos [email protected]