Entrevista

 

Atletas bons de pulo E DE RENDA

Selecionar animais para características que se deseja explorar no rebanho é uma prática comum tanto na pecuária comercial quanto na seletiva. No mundo dos rodeios não é diferente. É um mercado que necessita de bois bons de pulo, que, aliás, são preparados como verdadeiros atletas. Um bom animal é raro de se encontrar e pode valer muito! Quem fala mais sobre o assunto é Flávio Junqueira, diretor-presidente da PBR Brasil (Professional Bull Riders).

Adilson Rodrigues [email protected]

Revista AG - A venda de touros de pulo é uma novidade no Brasil ou a inovação é a realização do circuito de remates?

Flávio Junqueira - A venda de touros de pulo sempre existiu entre os criadores. A diferença é que, a partir deste ano, democratizamos a oferta por meio de remates, levando esses animais a empresários que não atuavam no setor, abrindo oportunidade para que eles também possam fazer parte deste esporte.

Revista AG - Antes, a comercialização era realizada basicamente nos encontros entre tropeiros? Como começou essa história?

Flávio Junqueira - Várias pessoas mostraram interesse em ter animais de rodeio, especialmente touros para montarias. Mas não possuíam um espaço adequado e, muito menos, tempo para cuidar desses “atletas” e, obviamente, dirigir companhias de rodeio. Hoje, com as mudanças que propomos, os empresários podem comprar uma porcentagem de um animal junto com alguém especializado no assunto e até colocá-lo em um centro de treinamento específico.

Revista AG - Até o momento, foram realizados quantos leilões? Até o final do ano devem ocorrer quantos mais?

Flávio Junqueira - De janeiro até agora realizamos dois leilões. Para o decorrer do ano, estamos planejando mais nove remates durante os circuitos de rodeio. A meta da empresa que realiza os eventos, a Boi na Pista, é atingir os R$ 4 milhões por ano.

Revista AG - Quanto movimenta este mercado atualmente? Qual tem sido a média de preço?

Flávio Junqueira - O mercado sempre necessita de bons touros. Quanto melhores eles forem, maior será o valor venal e a movimentação no mercado. No leilão de Olímpia/SP, realizado em fevereiro, tivemos um total de R$ 306 mil em vendas, um grande aumento em relação ao anterior, de R$ 95 mil.

Revista AG - Quanto um bom touro de montaria pode valer?

Flávio Junqueira - Esse é um valor que varia bastante, dependendo muito da qualidade do “atleta”. No último leilão, por exemplo, o touro Daliti, de Washington Scatolin, foi vendido por R$ 105 mil. Também tivemos a venda de 50% do touro Riachinho Terra Alegre, por mais de R$ 40 mil. Esta é uma das tendências que estão por vir nos leilões.

Revista AG - Em média, quanto tempo dura um remate e, normalmente, quantos lotes são colocados à venda em um leilão?

Flávio Junqueira - Quanto maior a disputa dos compradores, maiores serão os lances. Em média, os leilões duram cerca de três horas e podem ter 40 lotes, por exemplo.

Revista AG - Além dos animais, também há comercialização de genética? Qual o valor dos pacotes de sêmen?

Flávio Junqueira - Normalmente, o leilão de sêmen acontece junto com a apresentação dos animais, e tem atraído vários criadores. Genéticas de touros como Bandido e Agressivo podem custar R$ 2,8 mil por dose.

Revista AG - Como funciona o trabalho de seleção e quais características um bom touro deve ter?

Flávio Junqueira - Os touros são avaliados em itens específicos, como intensidade e dificuldade do pulo, giro e coice. O atleta de peso é observado nesses quesitos por pessoas do ramo, como juízes, tropeiros e até competidores. No geral, precisam apresentar bons índices de dificuldade para que o desafiante não consiga ficar o tempo determinado. Costumamos dizer que, para ser bom, um touro deve saber pular – e pular bonito.

Revista AG - Temperamento bravio pode ser considerado o principal atributo?

Flávio Junqueira - O temperamento bravio dos touros não influencia na avaliação do pulo. O instinto de saltar vem das características genéticas, e é isso que atribui respeito e prêmios a um bom touro. Esse tipo de atributo é uma característica de personalidade.

Revista AG - Além disso, o animal precisa alcançar um peso mínimo em determinadas idades?

Flávio Junqueira - O animal se torna adulto entre quatro e cinco anos e está, nessa idade, formado fisicamente para participar dos campeonatos em montarias. Até os dois anos, eles podem começar a treinar usando o robô cowboy, um equipamento de 11 quilos que colocamos no lombo do bicho, simulando um competidor. Não é gerado nenhum tipo de choque. O aparelho é acionado por controle remoto, deixando o animal após o tempo especificado.

Revista AG - Quais as linhagens mais valorizadas pelo mercado? Também há touros novos despontando?

Flávio Junqueira - As linhagens mais valorizadas e procuradas no mercado são de criadores e donos de companhias famosas, como é o caso de Paulo Emílio, dono do Bandido, Agressivo, Insano e Britânico. Também há novos e bons touros surgindo, como o Daliti, da Cia Scatolin.

Revista AG - O Touro Bandido – que foi clonado – foi um nome muito forte, inclusive na mídia. Os leilões devem oferecer filhos dele?

Flávio Junqueira - O Bandido é um dos touros de pulo mais lembrados pelos brasileiros. Ele contribuiu muito para a divulgação da montaria em todo o país. O sêmen do Bandido é vendido, em média, por R$ 2,8 mil/dose.

Revista AG - Além do trabalho de seleção genética, esses animais são submetidos a algum treinamento específico?

Flávio Junqueira - Não existe um treinamento específico para saltar. O touro é considerado apto para o esporte quando ele tem o instinto para pular. O que nós fazemos é dar toda estrutura necessária para o “atleta” se desenvolver fisicamente, como alimentação balanceada e tratamentos especiais com veterinários.

Revista AG - Como são as provas de avaliação para que o animal seja aprovado para venda?

Flávio Junqueira - Eles participam das provas da ABBI (American Bucking Bull, Inc.), competição que avalia as futuras estrelas das arenas. Durante as etapas realizadas ao longo do ano, os animais são avaliados por juízes, que analisam pulo, sua intensidade e dificuldade, giro e coice. Os animais que conquistarem a maior pontuação ao longo da competição são os vencedores.

Revista AG - Após aprovados e também após as competições, os animais necessitam de cuidados especiais?

Flávio Junqueira - O cuidado com o animal deve ser ininterrupto e começar antes mesmo de ele nascer. Uma das preocupações da PBR e da ABBI é com a saúde dos animais, que são constantemente avaliados por médicos-veterinários. No geral, os touros precisam de boa alimentação e muito preparo físico, como todo atleta.

Revista AG - Quantos e quem são os criadores envolvidos no circuito de leilões? É possível mencionar alguns nomes conhecidos?

Flávio Junqueira - Atualmente, os empresários Paulo Emilio, Washington Junqueira, Emerson Leonardo, Erik Carbonari, Rodrigo Spolon, Caio Furlan, entre outros, participam com muita frequência dos leilões.

Revista AG - Onde conseguem os reprodutores? Já existe algum polo de criação ou os animais são “garimpados” em fazendas ou com os próprios tropeiros?

Flávio Junqueira - Há uma constante avaliação por reprodutores. Eles estão justamente em polos, com criadores e donos de boiadas ou em fazendas. Por meio da ABBI, os pequenos criadores passam a ter a oportunidade de mostrar os animais e, quem sabe, revelar algum atleta campeão, que pode se tornar também um excelente reprodutor.

Revista AG - Os touros de pulo têm raça definida ou necessitam ser mestiços?

Flávio Junqueira - A montaria em touro não exige nenhum tipo de raça definida. Podemos ter animais de uma linhagem diferenciada e das mais comuns. O importante é que o atleta mostre potencial para o esporte.

Revista AG - É muito difícil achar bons animais? Por quê?

Flávio Junqueira - O instinto para pulo é algo muito raro nos animais. Em geral, apenas 4% dos tourinhos que estão em uma fazenda possuem características para serem atletas.

Revista AG - Se algum pecuarista tiver um animal que se encaixe no perfil, quem deve procurar?

Flávio Junqueira - Qualquer criador pode participar da ABBI. Basta, para isso, fazer o cadastro no site www.abbinow.com.br ou entrar em contato pelo telefone (17) 3229-2400.

Revista AG - A saúde do animal é um item prioritário no trabalho? Falhas no controle sanitário causam desclassificação em competições?

Flávio Junqueira - A saúde do animal vem em primeiro lugar nas competições. Para cada etapa dos campeonatos que promovemos, temos um médicoveterinário qualificado que analisa todos os animais e verifica se estão em ordem com as exigências sanitárias. Se eles não apresentarem boa condição, são desclassificados.

Revista AG - Existem substâncias proibidas no tratamento dos animais durante o período de competição?

Flavio Jungueira – Aqui no Brasil ainda não existe o doping. Nos Estados Unidos, a ABBI já faz essa fiscalização.