Sobrevoando

 

Havaí

Toninho Carancho
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Tenho alguns gurus – estas pessoas diferenciadas que surgem na vida da gente de vez em quando e que te surpreendem com pensamentos ou atitudes fora da média e que você resolve seguir, respeitar e, principalmente, ouvir com muita atenção. Uns são amigos próximos. Outros, nem tanto. Uns são gurus financeiros. Outros, da vida em geral. Mas escrevo agora sobre um guru da pecuária. Homem campeiro e vivido nas lides da inseminação artificial desde sempre. Poliglota, sempre trabalhou com os gringos americanos numa parceria que durou por muitos anos.

Já o conheci ali, na venda de sêmen. Sempre muito bem informado e bem instalado com um ótimo café. Computador sempre ligado e em contato com os States. Ia para pegar umas doses de sêmen – o butijão ficava sempre lá. Imaginava que iria ficar uns quinze minutos mas sempre ficava mais de hora, sem ver o tempo passar. Tratávamos de vários assuntos, deps, acurácias, frames, raças, touros de destaque, pecuária nacional, preços, custos, pecuária americana, velhos tempos, enfim, tratávamos de todos os assuntos e salvávamos a pecuária brasileira. Ele falando e eu ouvindo – muito atento.

Em uma dessas conversas ele me disse que a salvação da pecuária, na grande maioria das vezes, era uma viagem para o Havaí (!!??). Fiquei parado, fingindo que estava entendendo e não disse nada. Então veio a explicação. Ele disse mais ou menos assim:

Carancho, você deve viajar com toda a família para o Havaí e ficar no mínimo um mês lá. Mas não pode ser para outro lugar, nem ir sozinho e nem ficar menos tempo. “Por quê?”, perguntei. O Havaí é longe e caro – bem caro. Indo para lá este tempo todo e com a família você vai gastar uma grana preta. Para conseguir este dinheiro todo, você vai precisar vender uma boa quantidade de gado e, assim, sem querer, vai ajustar a lotação do seu campo, que normalmente está super-lotado. Quando você voltar da viagem e for para a fazenda, vai verificar que o gado está mais gordo, os bezerros mais bonitos, as vacas em cio e o pasto mais viçoso. E é realmente isso que acontece em muitas fazendas deste brasilzão: gado magro e pasto baixo. Superlotação. O pecuarista gosta de dizer que tem tantas rezes, não importando se este número é o mais adequado a sua fazenda e a época do ano. Muitas vezes sobra pasto no verão/águas e o incauto vai no leilão e compra mais gado para aproveitar o pasto, esquecendo que logo ali na frente vem o inverno/ seca, e que aquele pasto que estava sobrando passa a faltar de um dia para o outro.

Quando os campos e pastagens estão superlotados, nada funciona adequadamente. O gado não engorda. Os bezerros não desenvolvem, ficam emperrados, feios e pequenos. As vacas não entram em cio e a situação geral é de penúria. Realmente, a saída é ir para o Havaí. Sabe muito este Léo Warszawsky