Caprinovinocultura

 

Mais cordeiros, mais renda

Estratégias adotadas pelo criador podem incrementar a produção e melhorar o resultado financeiro da atividade

Denise Saueressig [email protected]

S ão os cuidados adotados pelo criador que determinarão a eficiência na produção de cordeiros. Tanto faz se a propriedade está voltada ao fornecimento de animais para o abate ou se o objetivo é o melhoramento genético. É a atenção à gestação das ovelhas e aos primeiros dias de vida do animal que poderá definir a rentabilidade futura ao produtor.

O manejo começa com a mãe, observa o zootecnista Mauro Sartori Bueno, pesquisador do Instituto de Zootecnia (IZ) da Secretaria de Agricultura do Estado de São Paulo. “A fêmea deve estar bem alimentada, o que significa que não pode estar muito gorda ou magra demais. No caso de fetos múltiplos, no terço final da gestação, esses animais ficam suscetíveis à toxemia da gestação ou cetose, um problema metabólico que tem origem nutricional. Por isso, é extremamente importante alimentar adequadamente as ovelhas”, orienta o especialista.

Além de prevenir a doença com alimentação equilibrada, os criadores podem avaliar a condição corporal das ovelhas. “Nos animais deslanados, por meio da observação, já conseguimos analisar o estado nutricional. No caso das lanadas, é interessante apalpar as vértebras, na região lombar, para definir a condição corporal. Num escore de 1 a 5, sendo que 1 é excessivamente magro e 5 é o equivalente gordo, o ideal é que as fêmeas mantenham-se entre 3 e 3,5”, detalha Bueno.

Entre os sinais clínicos da toxemia da gestação estão falta de coordenação, tremor muscular, quedas e sonolência. Quando grave e não tratada, a doença pode levar ao aborto dos fetos e até à morte da mãe.

Para uma alimentação eficiente das ovelhas, são indicados volumosos de boa qualidade e pastagens novas, com grande quantidade de folhas. O aporte energético pode ter origem na silagem de milho ou de sorgo. “Recomendamos uma ração com boa fonte de amido, como o milho, o farelo de arroz e de trigo. É importante lembrar que a fêmea precisa de energia, que será o combustível para alimentar os fetos”, acrescenta o pesquisador do IZ.

A mortalidade neonatal concentra-se nas duas primeiras semanas de vida do cordeiro, ressalta o veterinário Fernando Henrique Albuquerque, pesquisador da Embrapa Caprinos e Ovinos. Segundo ele, entre as principais causas de morte até os 90 dias de idade estão a pneumonia e o complexo inanição/hipotermia. “Os cuidados com as matrizes poderão promover um maior peso das crias ao nascer e uma melhor qualidade do colostro”, completa.

Para assegurar um manejo adequado, o especialista considera algumas medidas importantes. O primeiro passo é separar em um lote distinto as matrizes no terço final da gestação para que recebam suplementação alimentar. O ideal é que essas fêmeas sejam mantidas em piquetes com adequada oferta de pastagem e próximos ao centro de manejo para permitir um melhor acompanhamento. As ovelhas também devem ser vermifugadas e vacinadas contra clostridioses entre quatro e três semanas antes do parto.

Um mês antes do parto, as fêmeas das raças lanadas devem passar por uma limpeza conhecida como cascarreio, que é a tosquia higiênica em volta da vulva, do úbere e da cauda. A medida facilita o parto e a mamada inicial dos cordeiros.

Primeiros dias de vida

Manter mãe e filho em local tranquilo, limpo, arejado e seco garante o conforto dos animais e aumenta a probabilidade de aceitação do cordeiro pela ovelha. “Em criações extensivas, se a fêmea parir dois filhotes e estiver sozinha, no campo, crescem as chances de que um dos filhos seja rejeitado”, conclui o zootecnista Mauro Bueno, do IZ. O ideal é que, logo após o parto, mãe e filho sejam mantidos em contato para que a ovelha faça a “limpeza” da cria e para que seja estabelecido o vínculo materno.

Logo depois do nascimento, é recomendável direcionar o cordeiro ao úbere da mãe para a ingestão do colostro. Atenção maior deve ser dada em partos múltiplos, para assegurar que todas as crias tenham acesso ao colostro. “A mamada inicial já ajuda a fortalecer o cordeiro. É importante observar especialmente os 15 primeiros dias. Se o filhote estiver muito magro, é grande a chance de que haja algum problema com a mãe e que pode estar relacionado com a baixa produção de leite. Uma das causas, por exemplo, pode ser a mastite”, resume o especialista.

Após a identificação e pesagem dos cordeiros, deverá ser realizado o corte do umbigo com tesoura desinfetada a uma distância de, aproximadamente, dois a três centímetros da pele da região ventral da cria, orienta o veterinário Fernando Albuquerque, da Embrapa. “A desinfecção do coto umbilical deve ser feita por imersão em solução de tintura de iodo a 10%, com auxílio de um frasco de boca estreita. Esta imersão deve ser feita durante os três primeiros dias após o nascimento”, explica.

Os cordeiros devem permanecer com as mães durante as primeiras 72 horas após o nascimento. Depois desse período, as crias seguirão o manejo específico do sistema de produção, seguindo as mães para o pasto ou permanecendo separados da mãe e mamando duas vezes ao dia até a idade de desmama.

Ainda durante o período de aleitamento, o criador poderá iniciar um esquema de suplementação especial para os cordeiros, o “creep feeding”, que são cochos privativos onde os animais recebem uma ração concentrada à base de milho e soja com cerca de 20% de proteína. “Assim é possível estimular o desenvolvimento do rúmen, permitindo que estes animais apresentem uma maior capacidade de ingestão de alimentos sólidos, reduzindo o estresse da desmama e aumentando o ganho em peso na fase de cria”, sustenta Albuquerque.

Perto do desmame, que ocorre por volta dos 60 dias, é indicada uma vacina contra clostridioses e a administração de vermífugo. Em sistemas intensivos, aos 60 dias, os cordeiros com peso entre 15 e 20 quilos seguem para terminação. Assim, ficam prontos para o abate com idade entre 120 e 150 dias. O peso no abate vai depender da demanda do mercado.

Em tempos de valorização da carne de cordeiro, é importante o criador lembrar que as práticas de manejo na fase de cria, desde a gestação da ovelha até o desmame dos animais, poderão ter influência sobre o padrão da carcaça que será produzida. O veterinário Fernando Albuquerque comenta que isso ocorre em função do desenvolvimento dos músculos iniciarem ainda na barriga da mãe. Portanto, animais que passaram por desnutrição durante a gestação terão redução no desenvolvimento de grupos musculares, o que comprometerá o rendimento de alguns cortes da carcaça após o abate.