Mercado

 

INÍCIO MODESTO, MAS COM BOAS EXPECTATIVAS

O ano novo chegou, mas, por enquanto, sem muitas novidades. O mercado, que fechou 2011 como grande exportador de carne bovina e com valores pagos pela arroba ao produtor acima de US$ 60,00, iniciou o ano de 2012 mantendo os índices estáveis, com algumas leves alterações.

Após as festas de fim de ano, quando a demanda de carne fica naturalmente aquecida, o mês de janeiro iniciou com estabilidade nos preços e redução dessa demanda, o que vem pressionando o setor produtivo da cadeia. Paralelamente, o mercado futuro do boi gordo aponta para aumento de produção e diminuição de consumo e, tanto o governo quanto o próprio mercado projetam que a inflação em 2012 deve ser menor que 2011.

Devido a esse desaquecimento específico na demanda do início do ano, o escoamento da produção no decorrer do mês de janeiro – e mais precisamente na sua segunda quinzena – ficou mais difícil, apesar de o período de safra normalmente oferecer maior disponibilidade de gado. Além disso, a tentativa de pressão baixista pelos frigoríficos não surtiu efeito, e estes seguem segurando os animais no pasto, enquanto a indústria não consegue repassar preços. Essa posição adotada por alguns pecuaristas foi possível devido ao período chuvoso em estados que são grandes produtores de carne, pois a disponibilidade de pasto permite que os animais já terminados permaneçam em espera. Apesar do recuo ocorrido em relação a dezembro, a indústria frigorífica segue com margem relativamente estável, trabalha com escalas homogêneas de 3 a 4 dias e, analisando-se historicamente seus equivalentes, todos apresentam índices superiores em relação aos passados. Ou seja, o preço pago pela @ do boi ao produtor e o preço recebido pelos frigoríficos estão, historicamente, maiores.

Com a tendência de aumento de renda observada no país para o ano que se inicia, devido ao aumento de 14,1% no salário mínimo, estima-se que haja uma melhora na demanda por proteína, já que os gastos com alimentação representam, segundo dados do IBGE, 19,8% do total que o brasileiro investe mensalmente em bens de consumo e, quando a renda das classes sociais melhora, a primeira atitude do consumidor é investir na alimentação. Além da demanda do mercado brasileiro, ainda há a demanda de países como China e Rússia, onde as classes de renda inferior também estão tendo melhores oportunidades de comer carne e, mesmo com o embargo imposto pela Rússia, a Associação Brasileira de Indústrias Exportadoras de Carne espera crescimento nas exportações para esse país, já que alguns frigoríficos brasileiros já foram por ele reabilitados. Frigoríficos de três estados brasileiros – Mato Grosso, Paraná e Rio Grande do Sul –, no entanto, continuam impossibilitados de vender para os russos.

Diante deste cenário, é possível crer que o país continuará entre os maiores mercados mundiais. Seja devido ao aumento da renda do consumidor brasileiro ou à flexibilização nas negociações para exportação com grandes nações compradoras do produto, a demanda por carne deve ter aumento em 2012 e se manter firme tanto no mercado nacional quanto internacional. A previsão de associações de criadores e exportadores é de que o volume de exportações aumente, atingindo recordes em volume e receita, contrariando o observado nos últimos quatro anos.

Ainda no que diz respeito às previsões para exportação de carne in natura do Brasil, espera-se, em 2012, uma flexibilização das normas e exigências por parte da União Europeia. A publicação mensal pela European Comission da lista ERAS/Traces, que especifica quais as fazendas produtoras de carne habilitadas a exportar para a UE, está em negociação e, após visita desta Comissão ao Brasil, a se realizar em fevereiro deste ano, serão decididas as novas medidas para essa seleção, com a possibilidade de o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) ficar responsável pela fiscalização, auditoria e habilitação das fazendas. Esta autonomia reduziria o processo de habilitação das fazendas, que atualmente leva cerca de 80 dias, para 45 dias. A última lista divulgada pela European Comission consta de 1.950 fazendas, contra as 1.975 divulgadas na lista anterior. Estas fazendas estão distribuídas da seguinte forma: 11 no Espírito Santo, 279 no Mato Grosso do Sul, 432 no Mato Grosso, 36 no Paraná, 172 no Rio Grande do Sul, 144 em São Paulo, 431 em Minas Gerais e 445 em Goiás.

Segundo dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex), foram exportadas 63,1mil toneladas de carne bovina “in natura” em dezembro de 2011, 13% menos que em novembro de 2011 (72,6mil t) e 7,7% mais que em dezembro de 2010 (58,6mil t). A receita das exportações em milhões de dólares para o último mês de 2011 foi de 313,5.

O número de cabeças abatidas no Brasil em janeiro até o momento, segundo o MAPA – SIPAs/DFAs, foi de 428.054. Em dezembro de 2011 este número chegou a 1.706.132 cabeças, quantidade 6,58% menor que em 2010. No estado de Mato Grosso, responsável por 39,5% do total abatido, a quantidade de bois no período de safra, normalmente maior do que na entressafra, teve comportamento atípico, atingindo índices menores com relação ao mesmo período do ano passado. Este comportamento pode ser consequência de um maior investimento em confinamentos e semiconfinamentos por parte dos pecuaristas para a terminação dos animais, sendo que o número de animais confinados no estado, em 2011, teve aumento de 29%. Isto ajudou a estabilizar a oferta na região, assim como o preço da @ durante todo o ano que passou e agora, no início de 2012. Cada vez mais relevante na formação do preço do boi gordo, a oferta de bois do Mato Grosso empatou pela primeira vez, em 2011, com São Paulo e Mato Grosso do Sul, sendo que os três apresentaram quantidade de abates semelhantes. Outro estado que merece destaque na quantidade total de animais abatidos é Goiás, já reconhecido como maior confinador do país.

A quantidade de vacas abatidas também atingiu números superiores ao longo de 2011. Com a saída de alguns pecuaristas da atividade, devido ao arrendamento da terra para cana e soja, a retenção dos animais no pasto, que vinha diminuindo nos últimos anos, só se recuperou no final do ano, tendência que deve se manter em 2012. Outros dois fatores que influenciaram o aumento do abate de fêmeas foram, em algumas regiões, a forte seca, que afetou a fertilidade das fêmeas, antecipando o descarte e a elevação dos custos de produção, o que reduziu a margem de lucro do pecuarista (16% em janeiro de 2012 contra 17% no mesmo período do ano anterior).

O preço da arroba do boi gordo no mundo, considerando os 22 dias úteis comprecompreendidos entre os dias 21/12/11 e 19/01/12, comparado ao período anterior (16/11 a 20/12/11) teve queda em todos os países analisados. Como pode ser observado na tabela referente ao preço da @ do boi gordo no mundo, a média, em dólares, da arroba foi de 54,7 no Brasil; 63,02 na Argentina; 53,94 na Austrália e 72,36 nos Estados Unidos.

No período atual analisado (de 21/12/11 a 19/01/2012), o preço pago pela @ do boi gordo em todas as unidades federativas consideradas permaneceu estável até o final do ano de 2011 e início de 2012, quando, nos primeiros dias de janeiro, sofreu ligeira alteração, voltando, porém, a ficar estável no decorrer do período. Ligeiras variações diárias sofridas pelos estados refletem negócios pontuais, sendo que para estes, de modo geral, a variação na evolução do preço da arroba do boi gordo não ultrapassou a margem de R$ 4,00 durante o período. Como exceções, temos Santa Catarina, que iniciou o período com o valor da arroba para as negociações a prazo a R$ 105,00 e fechou com R$ 100,00; e o Rio Grande do Sul, que, em recuperação à queda sofrida no período anterior, apresentou aumento nos últimos dias analisados, chegando a R$ 104,14/@ a prazo.

Os preços da arroba do boi gordo pago à vista, apesar de mais baixos que os valores a prazo, seguiram a mesma tendência. O deságio pago aos pecuaristas nas negociações à vista em relação ao valor a prazo (30 dias), no período de 21/12/11 a 19/01/12 foi de 2,20%. Este valor ficou 13,9% acima do observado no período anterior (de 16/11 a 20/12/11), que foi de 1,93%. Para todos os estados considerados nesta análise, o valor à vista da arroba no período foi menor do que no período anterior, menos no Rio Grande do Sul, onde houve aumento de 0,24%.

O preço do bezerro, que em 2011 impressionou o mercado, teve média de R$ 664,10, considerando todos os estados analisados no período, o que significa uma queda de 2,32% em relação ao período anterior, quando tinha obtido média de R$ 679,88. Os maiores valores médios do preço por cabeça desses animais encontram-se em São Paulo, onde a média ficou em R$ 705,71, e no Paraná, com média de R$ 724,76. Nos demais estados, em ordem decrescente, os valores médios encontrados foram de R$ 694,29/ cabeça em Mato Grosso do Sul, R$ 669,52/ cabeça em Goiás, R$ 660,00/cabeça em Minas Gerais, R$ 642,86/cabeça em Mato Grosso, R$ 610,00/cabeça no Pará e R$ 605,71/cabeça no Rio Grande do Sul.

O valor do boi magro apresentou uma queda de 2,07% com relação ao período de 16/11 a 20/12/11, e sua variação de preços foi menor que a variação nos preços de bezerro, tanto para o período analisado com relação ao período anterior, quanto entre as praças consideradas. Esta categoria (boi magro) apresentou queda nos índices na maioria dos estados considerados, ficando com os valores médios de R$ 1.218,10, em São Paulo, R$ 1.132,86 em Minas Gerais, R$ 1.101,90 em Goiás, R$ 1.125,71 em Mato Grosso do Sul, R$ 1.101,43 no Pará e R$ 1.175,71 no Paraná. Os estados de Mato Grosso e Rio Grande do Sul, no entanto, apresentaram índices superiores aos do período de 16/11 a 20/12/11, sendo eles, respectivamente, R$ 1.100,00 e R$ 1.110,48 para o período atual.

Os índices de relação de troca, que representam a equivalência em valores dos preços pagos por cada categoria animal no setor, ficaram, para relação entre desmama e boi gordo no período analisado, com valores entre 2,13 em MS e 2,99 no RS. Entre as categorias boi magro e boi gordo foram obtidos valores mínimos de 1,23 no RS e máximos de 1,35 em MG.

A média nacional para a relação de troca entre desmama e boi gordo foi de 2,27, não apresentando alteração no período de 21/12/11 a 19/01/12, em relação ao período anterior de 16/11/11 a 20/12/11.

Também no período atual (21/12/11 a 19/01/12), o valor médio nacional da relação de troca entre boi magro e boi gordo foi de 1,32, ou seja, 2,22% abaixo do valor médio para esta relação referente ao período anterior (de 19/10/11 a 14/11/11), que foi de 1,35. O estado do Rio Grande do Sul não entra no cálculo, por trabalhar com cruzamentos industriais.

Natalia Laperuta e Andrea Brasil Boviplan Consultoria