Feno & Silagem

 

INOCULANTE facilita ensilagem

Produto pode reduzir o cheiro e melhorar a palatabilidade

Maria Regina Ferretto Flores*

Utilização de silagem para nutrição animal é uma prática usual em vários tipos de criações, especialmente para bovinos. A vantagem disso é que o produtor encontra a matéria-prima na propriedade mesmo, reduzindo custos de produção. Contudo, para que o barato não se torne caro ao bovinocultor, alguns detalhes precisam ser seguidos. A começar pela escolha do material a ser destinado à silagem, desde o grão úmido até a planta inteira e outros. O produtor precisa estar atento à escolha da forragem ideal para plantio, ponto de corte, tamanho de partículas; garantia de uma fermentação lática pura e rápida; compactação da silagem e também ao fechamento do silo.

Uma “ferramenta” eficaz ao produtor que utiliza a silagem é a introdução do inoculante na fabricação. O inoculante é uma cultura de bactérias puras, em altas concentrações, que garantem a máxima preservação do valor nutritivo da forragem fresca. As vantagens na utilização desse ingrediente são várias. Em capim e planta inteira, a estabilização se dá por diminuição do pH = abaixo de pH 4,5, as bactérias coliformes, salmonellas, clostridios e outras se inativam e é importante que isso aconteça o quanto antes. Quando se trata de grão úmido, é preciso baixar o pH e impedir o aparecimento de fungos. No segundo caso, fungos não se inativam ao pH a que uma bactéria lática pode chegar. Por isso, usa-se uma bactéria produtora de ácido propiônico que possui ação fungistática. O mesmo caso para a silagem de cana de açúcar.

Qualidade

A aceleração da fermentação da silagem ocasionada pelo uso do inoculante não prejudica a qualidade final do alimento, preserva valor nutritivo, melhora a palatabilidade e diminui as perdas de silagem. Quanto mais rápida for a fermentação, maior será a qualidade da silagem, lembrando que o inoculante permite que o produtor possa abrir um silo no qual foi utilizado o inoculante bem antes do que no processo normal. Depende de quantas UFC/g de forragem se inocula. Mas em até 48 horas já é possível.

Outro fator em favor do inoculante é que ele melhora a palatabilidade (por inativação rápida das bactérias indesejáveis) e também a estabilidade aeróbica, quando se usa bactéria específica para tal (formadora de ácido propiônico ou outro ácido graxo de cadeia curta, que tem ação fungistática). Além disso, não há interferência na digestibilidade, o que reflete em uma ótima conversão alimentar.

Matéria-prima

O inoculante sempre vai oferecer benefícios em planta inteira, com maior preservação do valor nutritivo (energia e potência). Em grão úmido, garante a inexistência de fungos; e na cana, provoca a diminuição da produção de álcool e preservação da matéria seca.

A orientação é que no momento de escolher o inoculante, não é importante o fator das UFC/g de inoculante em si, mas sim saber, dentro das recomendações do fabricante, quantas UFC/g de forragem se está inoculando, lembrando sempre que a pesquisa recomenda um mínimo de 200 mil UFC/g de forragem.

Para calcular, deve-se multiplicar a garantia de UFC/g do inoculante pelos gramas indicados de inoculante por tonelada de silagem, o que nos dará UFC/ton, que será convertida em UFC/g de silagem.

*Diretora-técnica da Kera Nutrição Animal

Plantio de sorgo para SILAGEM

Maior amplitude é de setembro a março

João Eustáquio Cabral de Miranda e Joaquim Resende Pereira*

Dentre as diversas espécies de gramíneas que se prestam para ensilagem, o milho e o sorgo são as que melhor se adaptam para tal finalidade, pela facilidade de cultivo, pelos altos rendimentos de massa verde e grãos, e especialmente, pela qualidade da silagem produzida, sem necessidade de qualquer aditivo químico ou biológico.

Em locais e/ou épocas em que existam restrições hídricas, o mais adequado é o plantio do sorgo, por ser uma espécie mais tolerante à seca. Ainda apresenta vantagens como:

• Maior rusticidade;

• Plantio em regiões marginais ao cultivo do milho; Fotos: Leandro M. Mittmann REVISTA AG - 17

• Maior amplitude de época de plantio – de setembro até março;

• Menor custo de produção;

• Elevado potencial de produção, até 100 t/ha de massa verde, por ano, em dois cortes;

• Possibilidade de uso da rebrota, colhendo-se no segundo corte de 30% até 70% da produção obtida no primeiro, diminuindo o gasto de produção por hectare;

• Na colheita, o corte é mais fácil e mais uniforme;

• Maior facilidade de compactação durante o processo de ensilagem;

• Em áreas próximas a centros urbanos, plantios de milho estão sujeitos a roubos de espigas. Com a lavoura de sorgo, isto não acontece.

Entretanto, este grão também apresenta algumas limitações, como:

• Falta de tradição da cultura;

• Lento estabelecimento inicial da lavoura;

• Existem poucos herbicidas seletivos; • Sensibilidade ao frio;

• O período de colheita é menor;

• Ataque de pássaros, que pode ser um problema em lavouras pequenas;

• Sensibilidade ao fotoperíodo, principalmente em cultivares de porte alto;

• Possibilidade de acamamento ou tombamento da planta, que limita muito o plantio de cultivares de porte alto, acima de 2,70 metros de altura. Essa é uma característica genética, muito influenciada por fatores de meio ambiente, como adubação, balanço entre nitrogênio e potássio, ventos, doenças, densidade etc. O sorgo apresenta três tipos de cultivares com características bem distintas: forrageiro tradicional, duplo-propósito e granífero.

FORRAGEIRO TRADICIONAL

São plantas de porte alto, acima de 2,7 metros de altura, o que confere a essas cultivares um alto potencial de produção de massa verde. Existem no mercado diversas empresas produzindo híbridos e variedades adaptadas às diversas condições brasileiras. As variedades geralmente têm menor potencial de produção que os híbridos, especialmente em termos de grãos. A produção de massa verde dos híbridos é alta, variando de 50 a 70 t/ha no primeiro corte e tem boa rebrota, colhendo-se de 30 a 70% no segundo corte, dependendo da temperatura, da disponibilidade de água, da fertilidade do solo e da adubação. A maior vantagem do sorgo forrageiro tradicional é o baixo custo da silagem produzida. Entretanto, a qualidade do alimento é inferior ao de uma boa silagem de milho, devido à baixa produção de grãos. Em geral, os sorgos forrageiros de porte alto comercializados no Brasil apresentam colmos suculentos, com alto teor de açúcares, pois são derivados de materiais genéticos chamados de sorgo sacarino. Ao utilizar tais cultivares, o produtor deve atentar para o fato de, ao fazer a colheita, as plantas apresentarem-se com 30% de matéria seca, aproximadamente, para evitar a perda de nutrientes por lixiviação, quando a umidade escorre no fundo do silo, para obter bom padrão de fermentação, e, consequentemente, obter uma silagem de boa qualidade. Cultivares de porte alto desenvolvidos no Centro-Sul do país geralmente são sensíveis ao fotoperíodo, ou seja, diminui a produção de forragem quando o plantio é efetuado tardiamente. Quanto mais tarde o plantio, menor será o crescimento das plantas, implicando menor produção de massa verde. Cultivares de porte alto são muito propensos ao acamamento ou tombamento das plantas, causando sérios prejuízos aos produtores, afetando a qualidade e o custo da silagem pela perda de grãos e de folhas, além de dificultar ou impossibilitar a colheita mecanizada.

Ao optar pelo plantio do sorgo forrageiro tradicional, o produtor e o técnico devem estar bem cientes dos riscos quanto ao acamamento. Este tipo de cultivar não deve ser indicada para produção de silagem para animais de alta lactação, porque haverá a necessidade de se suplementar a dieta com maior quantidade de ração concentrada. Entretanto, pode ser uma boa opção para rebanhos de média/baixa produção de leite ou para alimentar animais em recria durante a seca. O espaçamento entre linhas deve ser de 80 a 90 cm, distribuindo-se de 10 a 12 sementes por metro linear de sulco, no plantio, para se obter uma população de 90.000 a 110.000 plantas por hectare na colheita, visando a diminuir os riscos de acamamento. Gasta-se cerca de 6kg de sementes/ha. A adubação deve ser equilibrada em termos de nitrogênio e potássio, para minimizar os riscos de tombamento das plantas.

DUPLO-PROPÓSITO

Na verdade, é preferível dizer que são sorgos forrageiros de alta qualidade. Produzem silagem de qualidade comparável à de milho. São híbridos de porte médio, com plantas variando de 2 a 2,3 metros de altura. A produção de massa verde é alta, variando de 40 a 55 t/ha no primeiro corte, com boa produção de grãos (4 a 6 t/ha), o que confere alta qualidade à silagem. Normalmente, a participação das diferentes partes da planta na composição da matéria seca da silagem varia de 35 a 45% de grãos, 15% de folhas e 40 a 50% de caule.

No mercado brasileiro existem alguns materiais genéticos desse tipo. A Embrapa Milho e Sorgo desenvolveu os híbridos BR 700 e BRS 701, especialmente para a produção de silagem de alta qualidade. As cultivares BR 700 e BRS 701 são resistentes ao acamamento/tombamento das plantas, possuem boa resistência a doenças foliares, apresentam tolerância a acidez do solo e possuem o caule seco (isoporizado), o que permite excelente padrão fermentativo.

O rendimento da rebrota desse tipo é razoável, variando de 20 a 50% do obtido no primeiro corte, dependendo da luminosidade, umidade, temperatura e fertilidade do solo. Geralmente, também são cultivares sensíveis ao fotoperíodo, reduzindo o porte quando plantadas tardiamente. O espaçamento mais indicado é de 70 cm entre linhas, com 14 a 16 sementes por metro linear de sulco, com o objetivo de se alcançar uma população final de 140.000 a 170.000 plantas por hectare na colheita. Utiliza-se cerca de 8 kg de sementes por hectare.

Este deve ser o material preferencial a ser plantado para se produzir silagem de sorgo de alta qualidade.

Sorgo de duplo propósito possui 45% de grãos, 15% de folhas e 40 a 50% de caule - Embrapa Milho e Sorgo

GRANÍFERO

São cultivares de porte baixo, menor que 1,7 metro de altura, desenvolvidas especialmente para a produção de grãos, podendo chegar a 8t/ha de grãos secos, ou mais. Quando utilizadas para silagem, a produção de massa verde é muito baixa, geralmente abaixo de 30t/ ha, o que eleva o custo de produção, mas a qualidade da silagem é alta, devido à elevada percentagem de grãos na matéria seca. Para compensar o menor porte da planta, elevar a produção de massa verde e reduzir o custo da silagem, recomenda-se aumentar a densidade de plantio, utilizando-se espaçamento de 60 cm entre linhas, e 18 a 20 sementes por metro linear de sulco, objetivando obter uma população final de 250.000 plantas por hectare. São necessários cerca de 10 kg de sementes/ha. Em plantios na época normal, a rebrota produz pouca massa verde, não compensando a colheita para silagem, mas a produção de grãos chega a 2 t/ha ou mais.

No mercado brasileiro, existem inúmeras boas cultivares de sorgo granífero. As pesquisas científicas sobre uso de sorgo granífero para produção de silagem são escassas, devendo ser recomendado com reservas e apenas para produtores de alto nível tecnológico e animais de alta produção. É uma boa opção para produção de silagem na safrinha, com plantio até 15 de março nas regiões do Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba (MG), Sul de Goiás, São Paulo e Mato Grosso do Sul.

Sorgo possui elevado potencial de até 100 t/ha de massa verde no ano

CUIDADOS

Para se obter silagem de alta qualidade, é necessário tomar alguns cuidados, como análise do solo, para se definir a calagem e a adubação; escolher cultivar adaptada à região de cultivo, que seja boa produtora de grãos, apresente resistência às principais doenças foliares e ao acamamento, além de boa estabilidade de produção. A semente de sorgo é pequena, daí ser essencial um bom preparo do solo. A profundidade de plantio deve ser de 3 a 4 cm. Utilizar espaçamento e densidade adequados para cada tipo de cultivar. Manter a cultura no limpo até 50 dias. Muito cuidado ao usar herbicidas, pois não há muitos produtos seletivos para o sorgo. Porém, maior cuidado deve ser na colheita: a recomendação é colher quando os grãos estiverem no estádio de pastoso, com 30 a 35% de matéria seca. Colheita anterior ao estádio pastoso implica perda de produção de matéria seca total e grande lixiviação de nutrientes no silo. Cortes tardios implicam maior risco de acamamento das plantas; maior ataque de pássaros, com perda de grãos; redução na rebrota; maior incidência de doenças foliares, aumentando a percentagem de folhas secas na forragem; perda na qualidade da silagem, pela diminuição do teor de proteína bruta; significativa perda de grãos inteiros nas fezes. Para se definir o ponto de colheita, analisar ao acaso várias plantas em pontos diferentes da lavoura, observando-se a maturação dos grãos no meio da panícula, pois esta inicia a maturação de cima para baixo. Picar o sorgo em pedaços de 8 a 15 mm. Encher o silo o mais rápido possível, de preferência em até três dias, compactando bem. Cobrir o silo com lona plástica e cercar, para evitar entrada de animais

Uma das vantagens é o corte, mais fácil e uniforme

*Pesquisadores da Embrapa Gado de Leite

Uma das vantagens é o corte, mais fácil e uniforme