Caprinovinocultura

INTEGRAÇÃO é um bom negócio

Experiências mostram que o consórcio da criação de ovinos com outras atividades pode render resultados interessantes

Denise Saueressig [email protected]

A solução para um projeto de diversificação pode estar mais acessível do que o produtor imagina. É possível aproveitar a mesma área da propriedade para integrar atividades diferentes. Experiências realizadas com rebanhos de ovinos mostram que o consórcio com outras espécies animais ou culturas agrícolas pode gerar bons resultados.

No Centro-Oeste, onde os campos são ocupados tradicionalmente pelo gado, os estudos vêm provando que plantéis de ovinos e de bovinos podem conviver pacificamente. “Montamos uma estação experimental a partir da observação de que as propriedades no Mato Grosso do Sul frequentemente têm as duas espécies entre os rebanhos”, explica o zootecnista Fernando Reis, pesquisador da Embrapa Caprinos e Ovinos no Núcleo Centro-Oeste da unidade.

Bastante comum também nos pastos do Rio Grande do Sul, essa interação tem como uma de suas principais consequências a diminuição nos índices de verminose entre os ovinos, o que fica provado pelos exames de OPG (ovos por grama de fezes). “O benefício é bem significativo, uma vez que é o principal problema sanitário desses animais”, destaca o especialista.

Alguns produtores chegam a administrar vermífugos até 12 vezes por ano nos rebanhos ovinos. Na fazenda modelo da Embrapa, as doses são aplicadas cinco ou seis vezes ao ano. Segundo Reis, os parasitas que atacam as duas espécies não são os mesmos. “Quando o boi pasteja, promove uma limpeza na área e diminui muito a presença dos vermes”, detalha.

A integração é considerada viável para diferentes perfis de propriedade, inclusive as de menor porte. “Podemos pensar no consórcio com a pecuária de leite, também. No período em que a vaca não pode reproduzir, existe a possibilidade de o produtor conseguir duas crias de uma ovelha”, cita o pesquisador.

Entre os cuidados que devem ser adotados num sistema desse tipo, estão é um bom negócio REVISTA AG - 81 a instalação de cercas periféricas e internas nos piquetes e a separação do sal mineral que será administrado. É importante lembrar que o sal dos bovinos tem um nível de cobre mais elevado, o que pode intoxicar os ovinos. Nesse caso, o produtor pode providenciar um cocho mais alto, para os bois, e outro mais baixo, para os ovinos. Nos bebedouros também é preciso avaliar a necessidade da instalação de um degrau para que os ovinos possam acessar a água.

No manejo do pasto, é necessário considerar que os ovinos são mais seletivos. Na estação experimental da Embrapa, a lotação é de duas UA (unidade animal) por hectare, considerando a UA = 450 quilos. “Se colocarmos um boi com 450 quilos nessa área, não vamos trabalhar com nove ovinos de 50 quilos cada, mas sim com cinco ou sete ovinos, justamente devido à maior exigência nutricional da espécie”, observa Reis.

O especialista conta que pretende avançar nos estudos sobre o sistema realizando trabalhos com integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF). Na opinião dele, o projeto com ovinos é perfeito para adoção nas práticas defendidas pelo Programa ABC (Agricultura de Baixo Carbono), lançado no ano passado pelo Ministério da Agricultura. “Estamos implantando uma área de milho junto com a pastagem e acreditamos que podemos obter um pasto de qualidade no residual da lavoura”, salienta.

Junto do pomar

A Embrapa Semiárido, em Petrolina/ PE, estuda há muito tempo, de forma pioneira, a frutiovinocultura. As avaliações estão direcionadas principalmente à rentabilidade da atividade, ao manejo das áreas e ao desempenho produtivo dos animais e das culturas agrícolas.

Consórcio com o gado ajuda a reduzir os índices de verminose entre os ovinos

O zootecnista Tadeu Voltolini, pesquisador da unidade, ressalta que produtores da região que cultivam manga em áreas entre 50 e 100 hectares e têm 500 matrizes, chegam a obter R$ 5 mil com a venda de animais e outros R$ 1 mil com a venda de esterco. “Eles ainda conseguem economizar R$ 1 mil por mês com turmas para capina e aplicação de herbicidas. O sistema é viável porque requer poucos investimentos, consistindo basicamente em aproveitar a vegetação que cresce espontaneamente na área para alimentação dos animais. Outros custos serão com as instalações e cercas, se for necessário, e com mão de obra para manejar o rebanho”, enumera.

Ao adotar um esquema de consórcio com frutas, os produtores devem ter o cuidado de observar o porte da pastagem. Com o porte baixo, não é aconselhável a presença dos animais, que poderão consumir as copas das árvores.

No caso de regiões onde a produção é voltada para o mercado externo, é preciso prestar atenção às normas dos países compradores. “Alguns protocolos destinados à exportação não permitem a exploração conjunta do cultivo de espécies frutíferas e animais para evitar contaminações dos frutos. Existe ainda o receio quanto ao desenvolvimento de moscas domésticas em função da presença de animais, o que também é fácil de ser controlado com o manejo das áreas e instalações”, declara Voltolini.

Em qualquer projeto voltado à integração, o aconselhável é que seja realizado o planejamento das atividades, com a elaboração de projetos e o acompanhamento de um responsável técnico. “São importantes fundamentos para a intensificação de exploração das áreas, considerando-se particularidades, sem prejuízos à produção de frutas, e com melhor eficiência na utilização dos recursos naturais”, acrescenta o pesquisador. Seguindo esses passos, o produtor tem mais chances de obter sucesso com uma nova fonte de renda e com a redução dos custos na propriedade.