Leite

Qualidade do COLOSTRO

Mara Helena Saalfeld*

O colostro é a primeira secreção da glândula mamária após o parto e uma importante fonte de nutrientes, imunoglobulinas e substâncias bioativas, fundamentais para promover o crescimento e proteger o recémnascido contra doenças infecciosas nas primeiras semanas de vida.

O colostro é importante para todos os mamíferos, especialmente para bovinos. A barreira placentária bovina não permite a transferência de anticorpos da mãe para o feto durante a gestação. Por este motivo, a ingestão de colostro é imprescindível e não pode ser transformada numa fonte de contaminação ao neonato.

A imunidade do colostro garante proteção ao animal até que ele próprio produza células de defesa, quando o organismo estiver maduro imunologicamente, o que deve acontecer após 4 a 6 semanas de vida. O colostro, porém, não é importante apenas para o fornecimento de anticorpos, mas também de nutrientes, hormônios e fatores de crescimento.

Para que estes anticorpos do colostro possam ser absorvidos, há necessidade de que o mesmo seja oferecido nas primeiras horas de vida. Neste período, ainda não há atividade gástrica, permitindo que os anticorpos não sejam digeridos antes de alcançar o intestino delgado, onde serão absorvidos de maneira intacta. Da mesma forma, em até seis horas após o parto, o intestino tem capacidade máxima de absorção de anticorpos, pois são substâncias de alto peso molecular, necessitando da absorção diferenciada que ocorre pelas microvilosidades intestinais, sendo que este poder de absorção vai decrescendo até se tornar nulo em 24 horas, quando o fornecimento de colostro torna-se completamente ineficaz para a proteção do animal.

No entanto, o colostro também pode representar uma das primeiras exposições potenciais de terneiros a agentes infecciosos. O colostro deve ser uma fonte de proteção ao bezerro. Para que isso realmente ocorra, ele deve chegar ao intestino antes das bactérias patogênicas. Tudo deve ser feito para garantir esta imunização logo nos primeiros momentos de vida.

Especialistas têm recomendado que o colostro fresco fornecido aos terneiros precisa conter menos de 100.000 UFC/mL de bactérias totais e de 10.000 UFC/mL de coliformes totais.

Desde o século passado, pesquisadores demonstraram que bezerros que não mamam o colostro tem apenas pequenas chances de sobrevivência, e o produtor muitas vezes não se dá conta disso. Há poucos dias, conheci um que por achar o colostro um leite inadequado o desprezava e dava leite aos bezerros recém-nascidos.

Mesmo com tanta informação, muitos desconhecem a importância deste alimento, ou ordenhando de forma inadequada. O colostro pode tornar-se uma perigosa fonte de contaminantes, causando doenças em recém-nascidos.

Algumas são transmitidas de forma vertical dentro da propriedade, como a paratuberculose, salmonela e micoplasma, que podem passar de mãe para filhos. Para interromper este ciclo, descarte o colostro de vacas conhecidamente positivas. Use um teste de paratuberculose para identificar as vacas portadoras. Embora os testes não sejam perfeitos, um resultado negativo indica que a vaca não está transmitindo a doença naquele momento. Só utilize colostro de vacas negativas para sua região.

Além destas doenças, bactérias que estão no ambiente, no próprio ordenhador, no esterco e até na água podem contaminar o colostro causando diarreias.

Colostro da 1º ao 6º dia de ordenha

A higienização mal feita na vaca para ordenha, baldes ou mamadeiras contaminados e excesso de tempo entre a ordenha e a amamentação podem permitir a contaminação do colostro fresco com bactérias antes que ele chegue ao terneiro. A quantidade de bactérias (E. coli) no produto fresco pode tipicamente ser aproximadamente 20.000 UFC/mL. Esta contagem dobra a cada 20 minutos em colostro morno. Portanto, se ele for armazenado à temperatura ambiente por duas horas antes do fornecimento ao bezerro, a contagem pode ultrapassar 1,2 milhão de bactérias. Em um estudo realizado em 12 laticínios, a média de contagem de bactérias totais e de coliformes totais em mais de 200 amostras coletadas chegou a 16,1 milhões e 2,7 milhões UFC/mL, respectivamente. Nessas condições, os bezerros serão amamentados com uma “sopa de bactérias”.

Em pesquisa realizada no Centro de Biotecnologia da UFPel neste ano, analisamos amostras de colostro in natura de 54 propriedades da região Sul do estado do Rio Grande do Sul e constatamos que a qualidade depende em grande parte de sua microbiologia. Neste trabalho, observou-se que as amostras avaliadas continham contaminação por bactérias que podem causar infecções em recém-nascidos. Os gêneros de bactérias encontradas foram Lactobacillus spp; Streptococcus spp; Staphylococus spp; Escherichia spp; Klebisiela spp; Bacillus cereus e Serratia spp. Também foram isolados fungos leveduriformes.

Todas as amostras continham contaminação bacteriana, sendo observado que em algumas foram elevadas, o que sugere problemas de higiene durante a ordenha. Estes resultados estão de acordo com estudos sobre a saúde do gado leiteiro nos Estados Unidos, os quais mostraram uma mortalidade de bezerros chegando a 8,4%, sendo que em 52% estava associada à diarreia, quase sempre relacionada a falhas na ingestão e manejo dos colostrais. Cabe salientar a importância de avaliar se há contaminação. Se for conservar colostro para uso posterior, resfrie-o imediatamente.

Cálculo do colostro

A bezerra deve receber a primeira mamada imediatamente após o parto. A quantidade deve ser no mínimo 4 litros no período de 8h após o nascimento. Quando houver dificuldade de parto, o bezerro pode não exibir reflexo para mamar tão cedo. Se isto acontecer, não espere que o bezerro procure pela mamada, use uma sonda esofagiana para administrar o colostro.

O atraso diminui a absorção dos anticorpos no intestino. Pesquisas demonstram que a cada meia hora ocorre diminuição de 5% na absorção dos anticorpos, além destes diminuírem seu nível com o passar das horas. De toda a forma, é muito importante que a bezerra continue a receber o colostro até o dia em que a vaca comece a produzir leite. Embora não aconteça absorção, a atuação dos anticorpos e vitaminas em nível local são fundamentais.

Além de ser uma “vacina” para o recém- nascido, o colostro é rico em proteínas, sais minerais, gordura e substâncias bioativas. Grande parte das vacas o produzem em quantidade muito acima da capacidade de ingestão da bezerra, e, até a descoberta da silagem de colostro, este excedente era descartado. A técnica proporciona mais renda ao produtor e diminui os custos de produção.

Qual o melhor colostro?

Se o produtor precisar estocar para formação de banco de colostro (congelado), para caso de morte da vaca, deverá utilizar boas práticas de ordenha e preferir guardar o colostro das vacas mais velhas da propriedade, por terem maior “memória sanitária”. Preferir vacas de menor produção e das tetas da frente, pois este colostro tem maior concentração de anticorpos. Vacas com menos de 10 litros de leite por ordenha tendem a ter maior concentração de anticorpos.

O banco deve ter estoque suficiente para casos de emergência. Depende do tamanho do rebanho. Pode ser necessário guardar apenas 4 litros de colostro, mas podem ter propriedades que necessitam de 40 litros.

Muito colostro ainda é jogado fora. Não dá mais para admitir tanto desperdício. O excedente deve se tornar silagem de colostro.

Silagem de colostro

O processo é simples para técnicos e produtores. Basta usar o excesso de colostro e armazenar em garrafas de plástico higienizadas e secas.

Após acondicionar o colostro nas garrafas, estas devem ser fechadas e guardadas protegidas do calor. Não há necessidade de geladeira ou congelamento.

O processo de fermentação começa no dia do engarrafamento e dependendo da higiene da ordenha, esta silagem já poderá ser utilizada após uma semana de fermentação.

Se o produtor não tiver certeza das condições higiênicas de coleta, deverá esperar pelo processo de fermentação de 21 dias, no qual contaminantes do meio ambiente são inativados, restando apenas os lactobacilos vivos.

Colostro é importante para as bezerras adquirirem imunidade

O processo de ensilagem pode ser feito com colostro de outros mamíferos e também com o leite. A silagem de colostro bovino pode ser fornecida a cordeiros, leitões, cães, gatos e cabritos sem causar problemas. Temos excelentes trabalhos com o uso de silagem de colostro bovino para cordeiros nascidos de parto gemelar, quando a ovelha não dá conta de produzir leite para dois filhotes. Outro relato importante é o uso da silagem de colostro bovino para cabritos. O leite da cabra tem um grande valor de mercado e os derivados têm alto valor agregado. Com o uso da silagem de colostro, os produtores podem industrializar o leite de cabra, passando a alimentar os filhotes com a silagem.

*Médica-veterinária da Emater/RS - [email protected]