Caindo na Braquiária

Notícias vindas do norte do Paraná

Foi passando em frente a um dos entrepostos da Cocamar – cooperativa que, juntamente com a Coamo, forma duas das maiores cooperativas do norte do Paraná, que me dei conta da importância dessas entidades na construção de uma economia forte no estado.

Com a maior parte do rebanho bovino de corte do estado, o norte do Paraná, que nos meados de 1920 foi invadido por cafeicultores paulistas e estoicos agricultores do sul do país em busca das terras ainda sem dono ou dos lotes de colonizadoras, serviu de moradia para essa gente que ali se instalou a fim de formar novos cafezais nas áreas de terra roxa mais dobradas e cultivar milho nas terras mecanizáveis.

Enquanto Renato preparava os implantes reprodutivos, seu colega e também veterinário Eriko palpava com um ultrassom a vacada Nelore comercial da fazenda escola, dando a resenha de leitura visual para que o mesmo efetuasse o implante hormonal.

Contando com mais de 3.000 ha de pastagens que amparam um rebanho de 1.800 matrizes Nelore PO ou comerciais, vacas cruzadas com Red Angus ou então já registradas Red Brangus, o criatório, gerenciado por esses jovens e responsáveis profissionais formados ali mesmo, busca a produção de carne eficiente, além de dar a oportunidade aos alunos de colocarem em prática os ensinamentos teóricos da sala de aula na área de reprodução e manejo.

Ladeada por eucaliptais que tomaram conta de antigas e produtivas plantações de café, a Fazenda escola tem conseguido preços espetaculares pelos seus bezerros ½ sangue Red Angus nos leilões locais, devido à já falta de desmama de qualidade na região. Tais animais desmamados vêm se tornando os bois jovens e pesados tão procurados pelos frigoríficos locais. Já em Amaporã, na companhia de Ronnie Deliberador, veterinário focado na busca de soluções aos pecuaristas da região, chegamos à casa do importante touro Nelore Big Ben. Tão logo desembarcamos no escritório da Santa Nice, linda e bem administrada fazenda da família Grisi, nos deparamos com o próprio Big Ben, empalhado no complexo de 4.000 m2 de lindas baias, totalmente vazias como o paladino dos animais que outrora foram ali zelosamente bem tratados para serem apresentados nas maiores exposições de Nelore do país .

Quem nos recebeu para apresentar-nos o sistema de produção da Santa Nice foi Juninho, veterinário e gerente que administra a produção de touros Nelore criados totalmente a pasto. O rebanho PO é composto atualmente por 1.300 matrizes em reprodução, todas participantes do programa de melhoramento genético da Embrapa, o Geneplus. São produzidos anualmente 300 touros POs superiores. O processo de avaliação inicia-se ao nascimento, sendo os bezerros criados em grupos de manejo de, no máximo, 100 animais e comparados igualitariamente até atingirem a idade reprodutiva. O sistema alimentar é exclusivamente baseado em pastagens cultivadas, formando um sistema rotacionado com projeto final de 500 piquetes, com tamanhos que variam entre 6 e 8 ha.

“A Santa Nice consegue uma renda extra obtida com o ganho de peso dos bois de engorda nas águas, fazendo frente ao arrendamento para plantio de cana”

Foi Tonico, proprietário da fazenda, que mitigou minha ânsia de saber como a Santa Nice ainda não tinha virado para cana , cultura que vem “invadindo” a região e ocupando agressivamente áreas de pastagens. Não perdendo tempo, já logo me explicou: o grupo é composto por 7 fazendas; parte delas acabou migrando para a produção de cana; naquelas fazendas cuja pecuária foi mantida, o grupo se viu obrigado a trabalhar de maneira intensiva, de tal forma a conseguir, com emprego de tecnologia, altas taxas de produtividade e uma rentabilidade no mínimo compatível àquela provida com a cana. O caminho para se chegar a altas lotações e ganhos maiores foi o investimento em pastagens. A cada ano, a fazenda destina uma parcela dos pastos mais antigos à produção de mandioca. Após 20 meses, essa área volta para pasto e passa a ser corrigida anualmente de acordo com o que pede a análise de solo. Essa rotação permitiu a recuperação dos pastos degradados, que passaram a ser intensificados. São 3.000 hectares de pastagens altamente produtivas, cultivadas com variedades de Panicum e Braquiárias. No verão, em função da alta produção dos pastos, a Santa Nice completa as lotações com animais de corte, comprados ou trazidos dos arrendamentos. Esses animais fazem o pastoreio de “repasse”, ou seja, entram nos piquetes após o lote de animais PO (puro de origem) ter comido a “ponta” do capim, o que é chamado de “desponte”. Para cada variedade de capim é definida uma altura de entrada e de saída, procurando aliar altos ganhos de peso a condições ideais para rebrota do capim. No período das águas (6 meses), a Santa Nice tem colocado de 4 a 5 UAs por hectare, e vem somando ganhos médios próximos a 1,00 kg/animal/ dia (os lotes de PO chegam a ganhar 1.250 gramas/ dia). Ao final das águas, aqueles bois que ainda não estão com terminação adequada para o abate são levados ao confinamento por mais alguns dias para completarem a deposição de gordura exigida pelo frigorífico. Dessa maneira, não há sobra de capim no verão e, no inverno, quando todos os machos de engorda saem da fazenda, há uma adequação das taxas de lotação, permitindo que o rebanho de seleção tenha uma boa condição nutricional.

Nesse modelo de produção, a Santa Nice consegue uma renda extra com as arrobas produzidas pelos bois de engorda nas águas, fazendo frente ao arrendamento para plantio de cana e mantendo a chama da pecuária produtiva acesa por mais tempo na região. É a agricultura financiando a pecuária no sentido de se produzir carne com eficiência e lucratividade.

Alexandre Zadra - Zootecnista [email protected]