O Confinador

GESTÃO DE RISCO NA PECUÁRIA

Conhecendo os custos de produção, é possível travar preço da arroba no mercado futuro

Fernando Rodrigues*

A pecuária brasileira é caracterizada pela baixa produtividade. Apesar de inúmeros projetos pecuários com alto nível de tecnificação, a grande maioria ainda segue o modelo extensivo de criação.

No processo de intensificação da atividade, as ferramentas de gestão de risco e proteção às oscilações de preços estão quase em último, não pela importância, mas às vezes pelo simples desconhecimento de como funciona.

Atualmente, na BM&F (Bolsa de Mercadorias e Futuros), existem aproximadamente 20 mil contratos abertos de boi gordo (um contrato equivale a [email protected] ou 20 bois de 16,[email protected]), o que representa cerca de 400 mil animais. Esse volume representa apenas 0,2% do rebanho brasileiro e 1% do abate.

Essa participação já foi muito maior – quando o número de contratos na BM&F chegou perto de 1,5 milhão de cabeças em 2008. Apesar da queda, observa-se o aumento na procura por essa ferramenta, sobretudo por parte do pecuarista. Veja a seguir como funciona.

O Hedge é uma proteção ou cobertura. O “Hedge de Compra” é utilizado por quem pretende se proteger de uma possível alta nos preços de uma commodity. Como exemplo, podemos citar os exportadores, indústrias e frigoríficos.

Já o “Hedge de Venda” é adotado por quem quer proteção contra a queda dos preços de uma commodity, como produtores, exportadores (hedge cambial).

O pecuarista, diante do risco de queda nos preços, procura travar sua venda futura. Para isso, precisa ter conhecimento do seu custo de produção e visualizar uma boa rentabilidade para, em seguida, vender no mercado futuro.

Se o preço futuro cair, a mercadoria perderá valor, mas ele ganhará na BM&F a diferença entre o preço vendido no início da operação e o preço de fechamento, de forma a cobrir o que perdeu no físico. Assim, se cair o preço, ele estará protegido e, se subir, deixará de ganhar um lucro adicional.

Para os compradores, o risco é de alta nos preços da matéria-prima, o que poderia estrangular a rentabilidade. Os frigoríficos buscam travar o preço de compra do boi gordo na BM&F para garantir o custo de seu produto final.

Se o preço subir, a mercadoria que ele tem de comprar ficará mais cara, mas, em compensação, obterá ganho na Bolsa que cobrirá essa diferença. E, se cair, pagará mais barato no mercado, mas desembolsará a diferença na Bolsa.

Exemplo de operação

Hedge com Futuros

Confinamento: 1.000 cabeças

Custo de produção: R$ 95,00/@

Na BM&FBOVESPA, a cotação é de R$ 105,00/@ para Novembro/11

Produtor vende na bolsa a R$ 105,00/@ - potencial de lucro de R$ 10,00/@

1º Cenário Preços caem para R$ 100,00/@ No mercado físico (100,00 –95,00) lucro de R$ 5,00/@

Na bolsa (100,00 – 105,00) lucro de R$ 5,00 Resultado final R$ 10,00

2º Cenário Preços sobem para R$ 110,00/@ No mercado físico (110,00 – 95,00) lucro de R$ 15,00

Na bolsa (110,00 – 105,00) prejuízo de R$ 5,00 Resultado final R$ 10,00

Com o hedge, o pecuarista fixa seu preço de venda e garante uma margem de lucro, eliminando importante fonte de incerteza (risco).

Hedge com Opções

Uma alternativa ao mercado futuro é o mercado de opções. O pecuarista pode comprar uma opção de venda (put) da qual ele garante um preço mínimo, pagando um prêmio.

O funcionamento é idêntico a um seguro qualquer, ou seja, paga-se um valor adiantado para garantir uma condição específica no futuro.

Confinamento: 1.000 cabeças

Custo de produção: R$ 95,00/@ Na BM&FBOVESPA, a cotação é de R$ 105,00/@ para Novembro/11

Produtor compra put strike 100,00 a R$ 1,00/@ - potencial de lucro de R$ 9,00/@

1º Cenário

Preços caem para R$ 90,00/@ No mercado físico (90,00 – 95,00) prejuízo de R$ 5,00

Na bolsa put strike 100,00 vale R$ 10,00

Custo da put R$ 1,00

Resultado final 10 – 5 – 1 = R$ 4,00

2º Cenário

Preços sobem para R$ 110,00/@

No mercado físico (110,00 – 95,00) lucro de R$ 15,00

Put strike 100,00 = 0

Custo da Put R$ 1,00

Resultado final 15 – 1 = R$ 14,00

Pelo resultado da operação com put, quando o mercado sobe, pode-se observar que a grande vantagem dessa ferramenta é garantir um preço mínimo de venda ao mesmo tempo em que aproveita as altas do mercado. Outras estratégias com opções permitem reduzir o custo do hedge, mas limitam os ganhos em uma eventual alta.

Conclusão

Uma das premissas para realizar o hedge da produção é o conhecimento do seu custo, além da correta operacionalização do processo.

A importância do hedge fica evidente ao comparar a diferença entre expectativa de mercado e os preços de fechamento. Neste ano, no dia 25 de abril, o contrato de outubro/11 na BM&FBOVESPA chegou a registrar R$ 107,70/@, hoje dia 21/10 o indicador ESALQ segue cotado a R$ 99,41/@, ou seja, uma queda de 8,33% entre a expectativa e a realidade. Esse pode ter sido o fiel da balança entre rentabilidade positiva e prejuízo.

Esta ferramenta permite ao pecuarista garantir o preço de venda do gado terminado, ou seja, previsão de receita, melhorando assim a gestão financeira da fazenda, aumentando a capacidade de lucro e sustentabilidade do seu negócio.

*Sócio-diretor da Brasil Hedge Investimentos


Assocon reforça compromisso em qualificar mão de obra

A Associação Nacional dos Confinadores (Assocon) confirmou a realização do 3º ano da Escola de Capacitação em Confinamento, idealizada em 2010 exatamente para oferecer treinamento teórico e prático a funcionários que trabalham nos confinamentos.

Como em toda atividade produtiva, o manejo da pecuária de corte intensiva demanda a busca constante da produtividade, eficiência e qualidade, resultados que têm exigido dos pecuaristas uma preocupação constante com a formação dos funcionários que atuam no dia a dia da fazenda.

A Assocon realizará cinco novas etapas em 2012, duas em fevereiro no estado de Goiás (Goiânia e Jataí); ao final de março, uma no Mato Grosso, na cidade de Barra do Garças; ao final de abril, uma no Mato Grosso do Sul, no município de Três Lagoas; e, ao final de maio, a quinta e última etapa, em Tocantins, em Paraíso do Tocantins. Este último estado estreia na programação.

“A capacitação destes profissionais é de suma importância porque são eles que manejam, cuidam da alimentação, imunizam, pesam o gado e fazem avaliações periódicas. Qualquer falha nesses procedimentos pode fazer toda a diferença entre o lucro e o prejuízo na hora da venda do gado para o abate”, diz Fábio Maia, diretor-executivo da Assocon.

Cada uma das etapas conta com o respectivo apoio do Sindicato Rural ou Associação de Criadores local ou da região e de empresas parceiras, imprescindíveis para assegurar o suporte necessário para a realização das aulas, que, em geral, acontecem no período de uma semana, com aulas teóricas e práticas em instalações de confinamento.

“Este é um projeto considerado pioneiro no segmento e que tem por objetivo estimular a qualificação profissional de peões, capatazes, vaqueiros, gerentes de fazendas e demais interessados. Esta capacitação também é importante como elo entre os diferentes setores que trabalham para o desenvolvimento da pecuária de corte no país”, considera Bruno de Andrade, analista técnico da Assocon.