Shorthorn

Funcional e de carne macia

Shorthorn busca ampliar participação na pecuária brasileira

Entre os fatores que favoreceram a retomada do cruzamento industrial no Brasil, está o objetivo de se produzir animais altamente eficientes em termos de precocidade de terminação, acelerado ganho de peso e que sejam capazes de proporcionar carcaças padronizadas e com qualidade de acabamento de gordura, além de uma carne macia e saborosa. Esta é exatamente a proposta do Shorthorn no País. Britânica como o Angus, o Hereford e o Devon, a raça é oriunda dos condados de Durham, Northumberland, York e Lincoln, na Inglaterra. “Pesquisas mostram que o Shorthorn está entre as três raças produtoras de carne de maior qualidade em todo o mundo”, revela Thales Medeiros Ferreira da Costa, tradicional selecionador da raça em Alegrete/RS e atual presidente da Associação Brasileira de Criadores de Shorthorn (ABCShorthorn). No Brasil, foi a primeira raça a registrar um produto na Associação Nacional dos Criadores Herd Book Collares, em 22 de agosto de 1906.

A “raça mãe”, como é conhecida em vários países que valorizam sua habilidade materna, bem como sua contribuição na formação de novas raças, ela vem sendo selecionada para a produção de carnes nobres e tem atraído cada vez mais pecuaristas. Hoje, está presente na Argentina, Uruguai, Austrália, África do Sul, Estados Unidos, Canadá e Irlanda, além de Inglaterra e Brasil. Dados do respeitado Clay Center, em Nebraska/EUA, que estuda este taurino desde 1986, posiciona a raça muito bem qualificada em todos os atributos necessários para a produção de carne de qualidade: maciez, marmoreio, área de olho de lombo e precocidade de terminação. Inclui-se ainda efeitos maternos e uma incrível facilidade de parto (99,9%). Na Austrália, a atuação do Shorthorn é expressiva e em concursos de carcaça tradicionalmente realizados obtém as primeiras colocações, estando entre as três principais, ao lado do Angus e do Hereford. No Brasil, a eficiência reprodutiva, adaptabilidade e rusticidade também chamaram a atenção dos criadores.

“Para avaliar o potencial genético dos exemplares no Brasil, temos utilizado a tecnologia dos marcadores moleculares para identificação de animais cada vez mais superiores em qualidade de carne,principalmente quanto à maciez”, comenta Thales. Ele revela que esta metodologia tem sido amplamente utilizada na Cabanha Ibirocai, pioneira na tecnologia aplicada à raça na América do Sul. Animais participantes do programa estiveram, inclusive, expostos na Expointer 2011, em Esteio/RS. O Dr. Luís Arthur Chardulo, zootecnista formado pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), com mestrado e doutorado em bioquímica da carne, que atua no laboratório de qualidade e certificação da carne (Unesp/Central Bela Vista), em Botucatu/SP, revela que a característica mais preconizada no consumo da carne bovina nos diferentes mercados é a maciez. Embora os demais aspectos de qualidade sejam extremamente abrangentes, sendo ligados também às culturas regionais, a facilidade de mastigação é imprescindível para a aceitação do produto.

“Alguns outros pontos também são importantes para a obtenção final de qualidade, como a eficiência de produção, ou seja, a capacidade financeira e organizacional que o pecuarista possui para produzir uma boa matéria-prima. Neste aspecto, o cruzamento industrial é uma grande aliada para otimizar a oferta de produtos de valor agregado”, aponta. De acordo com o presidente da ABCShorthorn, as raças taurinas, especialmente as britânicas, apresentam habilidade natural de maciez e marmorização mais precoce e por conta disso são ferramentas fundamentais a serem utilizadas no gado industrial. A estratégia para o Shorthorn no Brasil é fomentar a raça como opção para quem deseja produzir essa carne com valor agregado. “O trabalho de seleção a campo da raça está focado na produção de animais altamente precoces, de bom porte para uma raça britânica, adaptados, dóceis, rústicos e, com apoio dos marcadores moleculares, que possuam uma carne extremamente macia, suculenta e saborosa. No sentido de associação, também vamos nos dedicar para uma expansão nacional da raça, promovendo abates técnicos, expor experiências com cruzamentos e, se possível, formalizar alianças mercadológicas para os produtos Shorthorn”, diz Thales.

Além dos atributos funcionais, a raça tem por característica racial a presença de quatro tipos básicos de pelagens: vermelha, branca, rosilha e vermelha e branca, como pode ser visto na foto que abre esta matéria. No Brasil, embora o rebanho ainda seja pouco numeroso, com cerca de 37 mil animais registrados, os criadores já percebem o crescente interesse nacional pela raça. Os produtos cruzados de Shorthorn em matrizes zebu, em geral, são mais dóceis, muito precoces e apresentam carcaça de excelente qualidade, devido à rápida deposição de cobertura de gordura, diminuindo, desta forma, o tempo e custo necessários para a terminação dos novilhos. Leonardo Mazzei, criador desde 1943 na Cabanha Tesouro, em Alegrete/ RS, também presencia essa grande demanda. “Os produtores estão cada vez mais satisfeitos com os resultados da raça nos cruzamentos, finalidade principal na compra de touros. Um exemplo é um produtor alegretense, que utilizou os touros Shorthorn em matrizes meio-sangue continental/ zebu”, informa o criador.

Além da heterose, os produtos reuniram importantes características como o ganho de peso e rendimento de carcaça da raça continental, rusticidade e conversão alimentar do zebuíno e qualidade de carne, habilidade materna e precocidade sexual do Shorthorn. Leonardo produz touros rústicos anualmente em sua propriedade, sendo a Cabanha Tesouro uma das maiores fornecedoras do estado. O manejo nutricional utilizado no sistema produtivo da propriedade é baseado em alimentação em campo nativo, e somente a pasto. Em época de exposições e leilões, os animais recebem uma suplementação à base de pastagem de azevém. “Quanto ao manejo de reprodução, as novilhas emprenham facilmente aos dois anos, sendo extremamente longevas”, acrescenta. Leonardo também exalta as demais características importantes do Shorthorn, como a facilidade de parto e a incrível habilidade materna das fêmeas. “Em todos estes anos de seleção, nunca tive problemas de distocia com as matrizes. As vacas são extremamente zelosas com sua cria e muito leiteiras, o que resulta em bezerros mais sadios, pesados e precoces ao desmame”, conclui.

Habilidade materna e rusticidade são outros grandes trunfos da raça