Integração

Pasto após Soja

Seis anos de validação da integração lavoura-pecuária (ILP) no Paraná, de 2005 a 2010

Fernando Penteado Cardoso*

Por seis anos consecutivos vem se produzindo forragem para gado de leite na Estância JAE, em Santo Inácio/PR, no intervalo de duas culturas de soja de verão.

Trata-se de um dos mais completos trabalhos de monitoramento realizados no país em uma propriedade particular com finalidade econômica em que se procura a otimização da rentabilidade. O projeto vem sendo executado com apoio da Fundação Agrisus, em ambiente e condições técnicas de uma pequena propriedade familiar, onde as observações e demonstrações abrangem uma área de 8 ha, subdivididas em duas parcelas iguais.

Solo

O terreno, da série Arenito Caiuá, com 70% de areia, foi recoberto originalmente por mata alta de perobal denso não muito grosso. Porém, sem os padrões de alta fertilidade, como figueira branca, por exemplo, plantada com café na década de 1950, durou poucos anos no limite da fertilidade inicial e em consequência das geadas intensas. Seguiu-se algodão substituído por pastagem, devido à erosão. A braquiária cede hoje lugar aos cereais depois de adotado o plantio direto.

A fertilidade original é média, com teores de bases (2/3 cmol/dm3) e MO (Matéria Orgânica) (1/2%) baixos, compatíveis com a textura arenosa com menos de 30% de argila e silte. O P (Fósforo) extraído por resina é baixo, seguindo a regra da maioria dos solos tropicais. A acidez é média (pH 5/6- H2O), sem toxidez por Al (alumínio), ou muito baixa. A CTC (Capacidade de Troca de Cátions) (4/5 cmol/ dm3) e a saturação (50/60%) são médias, a primeira dentro da faixa das terras com mais de 70% de areia como o solo em questão.

Clima

Na sequência dos seis anos, as chuvas de abril a agosto somaram de 137 a 520 mm, a temperatura média das máximas ficou entre 25 e 32º C, a média das mínimas foi de 10 a 18º C e a mínima absoluta de 0 a 13º C. O clima ameno foi favorável às gramíneas tropicais, sendo que a fraca geada em maio de 2008 afetou mais o Tanzânia que a Ruziziensis, ainda que muito de leve.

Pastagem

Após diversos experimentos, a produção comercial adotou o melhor resultado, que é o de capins Tanzânia consorciado com Brachiaria ruziziensis, utilizando sempre sementes revestidas (ditas peletizadas) na proporção de 1.200 pontos de valor cultural por hectare, sendo metade de cada espécie. As variedades da soja de ciclo mais curto, de colheita antecipada, possibilitaram substituir – desde 2008 – o sobressemeio pelo plantio direto, com melhor germinação e maior densidade de touceiras.

O pasto formado, que recebeu 30 kg/ha de N (nitrogênio) por ano, mostrou na sequência dos seis anos de 6,7 a 14,8 touceiras por m2, com proteína bruta - PB de 10,6 a 12,8% e nutrientes digestíveis totais - NDT de 64,2 a 69,4% (Quadro1).

Calculando uma ingestão diária de 12kg de matéria seca - MS por cabeça, somada à matéria seca aferida no final do pastoreio, pode-se estimar a produção de forragem em 3,4 a 7,4 t/ha, durante 130 dias, a partir da colheita da soja até o fim do pastoreio.

As reduções verificadas em 2007 e 2010 explicam-se pelas variações climáticas com maiores intervalos sem chuva. Outrossim, a persistência da cobertura residual na soja reduziu a germinação das gramíneas pelo menor contato da semente com o solo, reduzindo o número de touceiras por m2. A partir de 2008, a opção por variedades precoces de soja permitiu que os capins passassem a ser plantados com plantadeiras de Soja (45 cm entre linhas ), com melhoria da densidade de touceiras.

Produção de Leite

O pastoreio de vacas cruzadas girolanda em regime exclusivo de pasto perdurou por 35 a 52 dias nos meses de agosto/setembro, com 125 a 234 diárias e uma pressão de pastoreio de 2,5 a 5,7 cabeças/ha, proporcional à duração do pastoreio.

A produção diária de leite durante o período de pastoreio variou entre 8,2 e 12,3 litros/cabeça/dia, correspondentes a 1.927 a 2.356 litros/ha, exclusivamente a pasto. As menores produções em 2007 e 2010 resultaram da menor oferta de forragem devido à pouca chuva (Quadro 2).

Fitomassa

Findo o pastoreio, a área teve um período médio de 30 dias para regeneração do capim, o qual após dessecação mostrou uma fitomassa de 4,1 a 6,9 t/ha (Quadro 3), sobre a qual foi semeada nova cultura de soja em novembro e início de dezembro.

A aferição da cobertura morta aos 90 dias indicou uma persistência de 35 a 47% da quantidade inicial. O volume de resíduos remanescentes por ocasião do sobressemeio da gramínea dificultou em 2007 a germinação reduzindo a densidade de touceiras por m2, como mencionado anteriormente. A partir de 2008, o capim foi semeado após a colheita da soja.

A produção de soja após a produção indicada de leite e de fitomassa foi de 48,9 a 63,0 sc/ha durante o período em revista, sendo que em 2008 alcançou o dobro das lavouras da região sem cobertura morta no solo, devido aos 40 dias sem chuva após a germinação.

O projeto utilizou capim Tanzânia consorciado com Brachiaria ruziziensis

Pesquisa conduzida anteriormente (2005), cotejando a produtividade da soja sobre fitomassa de diferentes origens, mostrou certa vantagem em favor da B. Ruziziensis, admitindo-se um efeito sinérgico favorável dessa espécie. Pesquisas complementares virão definir o significado desse sinal promissor.

Economia

Os custos dos procedimentos são cuidadosamente anotados a partir da sobressemeadura das gramíneas antes da colheita da soja até o momento da dessecação para plantio da cultura de verão (Quadro 4). A alternativa oferecida seria de pasto raspado mais cana e ração no cocho, cujo custo, na opinião dos proprietários, seria mais elevado se calculado por diária, para uma produção de leite inferior à alcançada no sistema de ILP.

No ano de 2007 usou-se sulfato de amônio em vez de ureia por falta deste produto. Houve acréscimo no custo do produto bem como na aplicação em maior quantidade para manter a norma de 30 kg N/ha. As condições climáticas menos favoráveis reduziram a oferta de forragem e o número de diárias de pastoreio com correspondente acréscimo do respectivo custo.

Os custos obtidos, sejam pelas diárias (R$ 1,30 a R$ 3,71/dia) ou por kg de matéria seca – MS (R$ 0,10 a R$ 0,27/ kg/ MS), se comparam favoravelmente com os preços vigentes no mercado para confinamento ou para feno.

O acompanhamento cuidadoso dos procedimentos possibilitou um controle técnico e econômico satisfatório, capaz de consolidar a conclusão da viabilidade da produção de forragem pastoril de baixo custo e alta qualidade no intervalo entre dois plantios sucessivos de soja.

A elevada produtividade da soja comprova que está sendo mantida a alta fertilidade do solo e, consequentemente, a sustentabilidade da produção e do sistema.

A ILP descrita está comprovada tanto na dimensão da pequena propriedade familiar, na qual vem sendo realizada, como em estabelecimentos de qualquer escala, pois os princípios técnico-administrativos envolvidos são universais.

Considerações Finais

O objetivo da educação coletiva vem sendo alcançado através de 12 Dias de Campo no período em revista, com comparecimento de mais de 2 mil participantes que, após presenciarem as demonstrações ao vivo, têm oportunidade de debater a matéria com os responsáveis pelo projeto. Presentes ao debate, os professores da Universidade Estadual de Maringá (UEM), os quais vêm tomando parte nos trabalhos de pesquisa e acompanhamento técnico desde o início.

A Fundação Agrisus sente-se gratificada em poder oferecer os resultados acima à agropecuária do país, esperando que assim venha a contribuir para o desenvolvimento de uma agricultura sustentável e lucrativa, como é seu objetivo.

Pouco ou nada representa o trabalho feito de pesquisa, validação e demonstração se não vier a ser adotado e praticado pelos produtores em benefício próprio e de seus sucessores. O levantamento feito em 2009 (Projeto 605/09 – Tour do ILP) com visitas a 44 propriedades no noroeste do Paraná indica uma adoção crescente das pastagens de inverno – após soja e milho – utilizadas, principalmente, para recria com uma lotação média de 4 cab/ha.

*Ex-presidente da Fundação Agrisus. O mandato findou logo após a elaboração do artigo