Raça do Mês

FORTE dentro e fora do Brasil

Sangue Gir Leiteiro está presente em 80% das propriedades leiteiras brasileiras e, entre as raças zebuínas, é a que mais exporta material genético

Com alto potencial de produção, o Gir Leiteiro é hoje uma opção bastante lucrativa e vantajosa para países tropicais, tanto na utilização de animais puros como nos cruzamentos. Rústico, com menores infestações de ecto e endoparasitas e menos incidência de doenças em relação às raças de clima temperado, tem manejo simples e econômico. O sêmen é o mais vendido para leite no Brasil (689.852 doses em 2010), de acordo com a Associação Brasileira de Inseminação Artificial (ASBIA).

“O Gir Leiteiro é reconhecido como uma alternativa para a produção sustentável e ambientalmente correta. Os criadores e produtores passaram a acreditar no potencial da raça após constatarem o melhoramento genético atingido, e ainda com evidentes possibilidades de avanços”, afirma Sílvio Queiroz Pinheiro, presidente da Associação Brasileira de Criadores de Gir Leiteiro (ABCGIL). A entidade, fundada há 31 anos, reúne, atualmente, 371 sócios.

O diretor-técnico da ABCGIL, Aníbal Eugênio Vercesi Filho, explica que a criação é feita em diferentes sistemas de produção: “O mais indicado é o baseado em pastagens com suplementação na época seca do ano. Pode ser criado em pequenas propriedades e o acesso à genética superior é mais fácil”. Segundo ele, adapta-se muito bem à ordenha mecânica que, se realizada de maneira correta, diminui os custos com mão de obra e melhora a qualidade do leite, entre outras vantagens.

No Brasil, o rebanho tem crescido com as técnicas de reprodução assistida com FIV e TE. A Associação Brasileira de Criadores de Zebu (ABCZ) indica um número superior a 150 mil cabeças Gir Leiteiro, entre machos e fêmeas de todas as idades. Os principais estados produtores são Minas Gerais, São Paulo, Goiás, Rio de Janeiro e Bahia, mas, de acordo com o presidente da ABCGIL, existe uma grande tendência de avanço, principalmente em regiões onde estão se fixando importantes bacias leiteiras.

“Exemplo de expansão é o estado do Rio Grande do Sul. A raça fez bonito na Expointer, em quantidade e qualidade”, conta Pinheiro. Na exposição de Esteio, houve um crescimento de 31% no número de cabeças. Foi a segunda vez consecutiva que a raça compareceu à mostra e reuniu na pista 93 exemplares de 11 criatórios sulistas.

O vice-presidente da entidade, Lúcio Rodrigues Gomes, lembra que, ao longo da última década, houve um crescimento sólido e constante e isso se reflete em todas as exposições, chegando este ano à Expozebu (Uberaba/ MG), que é a maior exposição de gado zebu do mundo, como a raça em maior número, ultrapassando o Nelore. Foram mais de mil produtos.

“É sempre muito importante, para a divulgação da raça, a participação em exposições de bovinos melhoradores. Os juízes comentam as virtudes desses exemplares, orientando e direcionando os criadores para melhoria dos planteis”, opina Gomes. Para ele, os concursos leiteiros são o ponto de maior destaque nas exposições, porque atestam a produtividade dos fêmeas quando desafiadas. “Nesse quesito, nossas vacas têm se destacapordo muito, com recordes de produção sendo batidos seguidamente em todas as categorias de disputa, sejam jovens ou adultos”, informa Gomes.

Um bom exemplo é a fêmea Fécula FIV Mutum (MUT 753), recordista mundial de produção em concurso leiteiro na categoria Vaca Adulta. O título foi obtido na 2ª Exposição Regional de Gir Leiteiro de Luziânia/GO. A produção chegou a 153.680 Kg de leite, que corresponderam à média diária de 51,227 Kg. Estiveram presentes 76 animais em pista de julgamento e 11 vacas no concurso.

Para o vice-presidente, é natural que a expansão da raça também seja sentida nos leilões, no número de lotes comercializados e, consequentemente, nas valorizações. “É importante lembrar que o desempenho desses remates irá sempre refletir a qualidade do gado colocados à venda. Lotes superiores terão sempre mercado e preço”, considera Gomes.

Paulo Horto, da Programa Leilões, concorda que o mercado está aquecido para este zebuíno leiteiro, com liquidez satisfatória e ótimas perspectivas para 2012. A média dos arremates varia entre R$ 30 mil e R$ 60 mil, podendo chegar a mais, se no evento tiver a venda de um animal expressivo, como foi o caso da recordista Fécula FIV Mutum, que durante o 5º Leilão Gir Leiteiro da Fazenda Mutum, teve 50% de sua propriedade arrematados destacapor R$ 1,2 milhão, tornando-a o lote de maior valorização da raça.

Lúcio Rodrigues destaca o crescimento sólido e constante na última década

“Não é todo dia que se faz uma venda desse valor, seja em qual for a raça, mas com certeza temos outras matrizes de Gir Leiteiro que, se fossem disponibilizadas, alcançariam valor similar”, acredita Horto. “O momento agora é de maturidade. Penso que temos de ser o mais exigente possível no que diz respeito à qualidade da oferta. Não podemos nos deixar levar pelo entusiasmo da demanda, ou seja, temos de exigir maior nível da genética disponibilizada nos leilões, pois isso é que dará longevidade a esse ótimo momento da raça”, conclui.

Em busca de melhoramento

O objetivo de unir os criadores em torno da promoção do melhoramento da raça Gir para produção de leite foi o que motivou a criação da ABCGIL. De acordo com o presidente, a ideia era contribuir para a mudança do perfil da pecuária leiteira no Brasil e, como consequência, levar qualidade de vida aos produtores.

Fécula Mutun é recordista nacional de produção e de preço

O fortalecimento da criação, na visão de Vercesi Filho, deve-se ao pioneirismo de ser a primeira raça zebuína no mundo a disponibilizar touros provados para leite por meio de teste de progênie. Com parceria entre a associação, a Embrapa, a ABCZ, empresas de pesquisa e produtores, o Programa Nacional de Melhoramento do Gir Leiteiro (PNMGL) teve início em 1985. O resultado da primeira bateria de touros testados saiu em 1993 e, desde então, anualmente, novos grupos são colocados no mercado.

Já foram avaliados e publicados resultados de 221 touros. De acordo com Rui da Silva Verneque, chefe de P&D da Embrapa Gado de Leite e coordenador técnico do PNMGL, o banco de dados da raça Gir Leiteiro soma mais de 50 mil lactações. A média de produção leiteira total é de 2.906 kg e 286 dias de lactação. A produção até 305 dias de lactação é de 2.730 kg.

“Se considerarmos somente as lactações ocorridas a partir de 1985, a média da produção de leite total é de 3.001 kg, em 283 dias e 2.834 kg em 305 dias. Se considerarmos somente as vacas nascidas a partir de 2000, essas médias passam a 3.579 kg em 286 dias, uma evolução bastante expressiva”, avalia Verneque.

A raça pode ser utilizada na ordenhadeira mecânica e apresenta redução de custos

As avaliações mudaram ao longo dos anos e novos dados foram incorporados. A partir de 2011, por exemplo, começaram os trabalhos na área de genômica que devem ser publicados, provavelmente, em 2012. “Trata-se de um mercado aquecido, especialmente para aquisição de animais e embriões. Nesse quesito, considero o preço elevado para o produtor de leite. Em termos de sêmen convencional, é uma genética totalmente acessível e se tornará cada vez mais fácil de ser usada à medida que tivermos mais touros participando do teste de progênie. Para isso, precisamos que a inseminação artificial seja mais utilizada pelos produtores, ampliando a gama de opções para avaliarmos mais touros por ano”, considera o coordenador.

Verneque acredita no sucesso dos programas de melhoramento genético no Brasil mas, para que sejam contínuos e possam continuar trazendo benefícios para produtores e consumidores, é imprescindível a participação de todos os segmentos da cadeia. “O Governo precisa manter o apoio financeiro, visando estabelecer uma base genética mais ampla. Com isso, teremos maior favorecimento, especialmente para o produtor e consumidor de baixa renda”, avalia.


Uma solução para produzir leite a pasto

O Gir Leiteiro é resultado da seleção efetuada desde a década de 30 nas Fazendas Governamentais do Ministério da Agricultura – Estação Experimental de Umbuzeiro/PB, Fazenda Experimental Getúlio Vargas (Uberaba/MG) e pelos criadores João Batista Figueiredo Costa, Francisco Figueiredo Barretto, Continentino Jacinto, Gabriel Donato de Andrade, no estado de São Paulo; e Rubens Resende Perez e Randolpho de Melo Resende, em Minas Gerais. Eles partiram de descendentes do gado Gir originariamente importado da Índia em 1906 e 1919, bem como das importações de 1930, 1960 e 1962.

“Esses criadores realizaram operações de reconhecimento de muitos exemplares que se distinguiam pela habilidade leiteira, dispersos pelos rebanhos nacionais, formando as linhagens de Gir Leiteiro”, conta o presidente da ABCGIL. “Assim, o grupo foi responsável pela origem do Gir Leiteiro Brasileiro, tendo merecimento equivalente ao das históricas importações das raças zebuínas brasileiras, por não permitirem que esta aptidão da raça se perdesse”.


O Gir Leiteiro também faz parte do Programa de Melhoramento Genético de Zebuínos (PMGZ Leite) da ABCZ. Em nove anos, foram mais de 10.258 vacas em 295 fazendas. O programa, de acordo com Mariana Alencar, gerente de Melhoramento Genético da ABCZ, é fundamental, já que “ajuda o criador a ter nas mãos o poder de decisão sobre quem serão progenitores na próxima geração”. Os reprodutores do PMGZ são apenas puros, enquanto no PNMGL são acompanhadas também vacas mestiças.

Rui Verneque, da Embrapa, conduz o programa de melhoramento nacional da raça

Outros mercados

“O Gir Leiteiro destaca-se entre as raças zebuínas como a maior exportadora de material genético”, informa Icce Garbellini, gerente internacional da ABCZ, projeto Brazilian Cattle. Há um pleito da entidade, inclusive, junto ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, para que se diferencie o tipo de raça nos documentos de exportação, com a finalidade de se obter dados mais precisos. Os números conhecidos são os da ASBIA, que aponta 37.491 doses exportadas em 2010.

Os principais países importadores são Colômbia, Panamá, Venezuela e Bolívia. Países da América Central e norte da América do Sul estão bastante interessados na raça, segundo a gerente, além de africanos como Angola, já importador, e Moçambique, que está discutindo trâmites sanitários. Segundo Garbellini, a abertura de novos protocolos é o principal entrave para as exportações. O processo é demorado e, no momento, existem cerca de dez em estudo com outros países para que o Brasil possa exportar material genético de zebuínos, dentre eles o Gir Leiteiro. “O potencial de produção e a adaptabilidade do Gir Leiteiro são extremamente importantes para auxiliar o Brasil na missão de alimentar o mundo”, conclui Garbellini.