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GANHO COMPENSATÓRIO

Conhecer um pouco da fisiologia ajuda a melhorar a produtividade do gado zebu

Pedro Veiga Rodrigues Paulino*

Embora a pecuária de corte tenha evoluído consideravelmente desde meados da década de 90 até os dias atuais, a idade média de abate dos animais ainda pode ser considerada alta, estando por volta dos 40-42 meses. Embora o Brasil não disponha de um sistema de informações confiável, que forneça as estatísticas da atividade pecuária, basta acompanhar abates nas diferentes regiões do país para observar que a maioria dos animais apresenta 4-8 dentes incisivos permanentes, sendo menos comum encontrar animais de 2 dentes e menos ainda de dente de leite. Isso significa que os animais abatidos no Brasil chegam ao frigorífico com idade variando de três a cinco anos de idade, correspondentes à erupção definitiva de 4 a 8 dentes incisivos na arcada inferior.

Tomando como base que a média de peso ao nascimento de um bezerro Nelore, genótipo que representa cerca de 80% do rebanho brasileiro de bovinos de corte, é em torno de 30kg e que o peso de abate seja em torno de 480kg ([email protected], considerando rendimento de carcaça de 53%), o ganho de peso médio, ao longo de toda a vida do animal, fica em torno de 375g/dia, considerando o abate aos 40 meses de idade. Ou seja, muito pouco diante do potencial genético apresentado por animais zebuínos, que quando bem alimentados e tendo boa genética, podem apresentar ponderal em torno de 1,0 kg/dia somente a pasto e mais de 1,5 kg/dia quando confinados.

Esse baixo desempenho é reflexo direto de limitações nutricionais de ordem quantitativa e/ou qualitativa que os animais sofrem ao longo da vida, especialmente durante a fase de recria, tornando- a a fase mais longa do ciclo produtivo da pecuária de corte. Entretanto, o problema começa bem mais cedo do que imaginamos. Durante a gestação - que em animais zebuínos dura em torno de 290 dias – é que ocorre a formação dos tecidos corporais do bezerro, incluindo o tecido muscular. A formação do tecido muscular, também chamada de miogênese, que ocorre dentro do útero da vaca, tem um efeito de longo prazo, podendo afetar a capacidade de crescimento do bezerro durante toda a vida.

De acordo com pesquisas realizadas recentemente, a maior fase de formação das fibras musculares, que são as células que compõem o músculo do animal, ocorre no terço médio de gestação, ou seja, entre o segundo e o sétimo mês, aproximadamente. Esse período é considerado extremamente crítico, uma vez que qualquer fator que venha a interferir na formação do músculo nessa fase comprometerá o crescimento do bezerro pelo resto da vida. Isso ocorre porque, após o nascimento, não há mais aumento no número de células musculares, ou seja, elas não conseguem se multiplicar mais, como ocorria durante a fase uterina, e passam a crescer somente pelo aumento do tamanho. Portanto, se a vaca prenha sofrer algum tipo de restrição nutricional, por exemplo, isso prejudicará a formação do músculo do bezerro que ainda está na barriga. A ideia que se tem de que a vaca exige mais atenção somente no terço final da gestação é totalmente equivocada e deve ser esquecida pelo pecuarista. Antes de mais nada, a vaca deve ser bem nutrida durante todo o período pré-serviço e durante a gestação. Vaca bem alimentada significa bezerro saudável, com grande potencial de crescimento após a desmama.

Mesmo que o bezerro nasça com seu tecido muscular devidamente formado, ele pode sofrer algum tipo de restrição alimentar durante o crescimento. Quando o animal passa por uma restrição, seja ela quantitativa, como falta de pasto, seja qualitativa, como pasto seco, sem suplementação protéica, e tem o crescimento prejudicado e depois volta a ser realimentado, ele apresenta um ganho de peso acima do que seria normalmente observado caso não tivesse passado pela restrição nutricional. Esse fenômeno é, então, chamado de ganho compensatório.

É sempre bom lembrar que existem diferentes tipos de ganho compensatório. A forma com que o ganho compensatório vai ser expressado dependerá de uma série de fatores, como: intensidade e severidade da restrição, idade do animal em que a restrição ocorreu, tipo de dieta ofertada durante e após a restrição, etc. Quando se fala em restrição nutricional, muitos pecuaristas e técnicos logo pensam em uma condição em que o animal está magro, perdendo peso e em que, depois desse estágio, irá apresentar um ganho compensatório extraordinário. Entretanto, para que o ganho compensatório ocorra, a restrição prévia não precisa ser, necessariamente, tão severa a ponto de o animal perder peso. Se o animal tem potencial genético para ganhar por volta de 1,5kg/dia e está submetido a um plano nutricional em que seu desempenho é de 0,5kg/dia, então, está passando por alguma forma de restrição nutricional. Na pecuária moderna, não se admite mais que a curva de crescimento do bovino seja interrompida, levando-o a perder peso, que depois poderia ser recuperado pelo ganho compensatório. Hoje, dentro do conceito de pecuária de ciclo curto, o crescimento do animal deve ser contínuo, da gestação ao abate. Se o ganho compensatório fizer parte do processo, será um mero coadjuvante e não o ator principal.

Terço médio da gestação é crucial para o bom desenvolvimento dos músculos do bezerro

O fenômeno do ganho compensatório envolve diversos mecanismos fisiológicos, em que o organismo tenta se adaptar à oferta restrita de nutrientes, em um primeiro momento, e depois, quando a restrição é interrompida, e o animal passa a ser alimentado à vontade, o organismo desencadeia uma série de respostas fisiológicas que levam ao incremento no ganho de peso. Dentre os mecanismos biológicos envolvidos no fenômeno do ganho compensatório, alterações no tamanho ou da massa visceral e das exigências de energia de mantença são algumas das mais importantes. As vísceras, principalmente, fígado e trato gastrintestinal (rúmen, intestinos, etc), embora representem apenas em torno de 6-7% do peso de corpo vazio total de um animal, utilizam cerca de 55% da energia total requerida pelo bovino. Ou seja, são tecidos com grande demanda energética. Em situações em que a dieta oferecida resulta em restrição do consumo de energia, as vísceras diminuem de tamanho, como uma forma de o organismo poupar energia. Isso acontece, por exemplo, quando um animal recebe uma quantidade de alimento aquém do seu potencial de consumo. Por outro lado, mesmo que a dieta implique em consumo baixo de energia, porém, muito enchimento, as vísceras não encolherão tanto, uma vez que há o estímulo físico para que mantenham ou até aumentem de tamanho. É o caso, por exemplo, de animais em pastagens de baixa qualidade, na época seca do ano, sem qualquer tipo de suplementação protéica. Nesse caso, o consumo de alimento e de energia é baixo, já que falta nitrogênio no rúmen, e os microorganismos ruminais não conseguem retirar a energia latente presente na forma de FDN (fibra em detergente neutro) potencialmente digestível. Entretanto, os estômagos do animal têm estímulo físico para manterem ou até aumentarem de tamanho. Nessa situação, as exigências de mantença podem ser aumentadas, diminuindo, assim, a magnitude do ganho compensatório quando o animal for submetido a uma dieta de melhor qualidade.

Alterações hormonais e, principalmente, no padrão de consumo também explicam grande parte da ocorrência do ganho compensatório. Outro aspecto importante a ser levado em consideração é a composição do ganho compensatório, ou seja, é importante conhecer quanto do ganho compensatório é de tecidos componentes da carcaça, uma vez que o pecuarista recebe pelo peso da carcaça. De nada adianta um ganho compensatório monstruoso, de 2 kg/dia, por exemplo, de um animal que havia perdido peso previamente por ter passado fome, se um percentual significativo desse ganho é de vísceras, que, nesse caso, aumentam de tamanho consideravelmente após a restrição.

Portanto, o ganho compensatório deve ser encarado de uma forma mais técnica e menos extrativista, como ainda se vê pelo Brasil. O mais sensato a se fazer é explorar o ganho compensatório de um garrote que durante a fase de cria não sofreu restrição e que durante a recria, mantido em um plano nutricional médio, não teve capacidade de explorar todo o seu potencial de ganho. Posto isso, na fase de terminação, quando ainda jovem, ele pode apresentar um desempenho superior, mas não devido ao aumento do tamanho das vísceras ou da deposição de gordura e sim do crescimento hipertrófico da musculatura, já que o músculo, dentro de certos limites, também tem capacidade de apresentar crescimento compensatório.

Para se obter eficiência técnica do sistema de produção, associada a economicidade coerente com a atividade, torna-se fundamental conhecer um pouco mais sobre a fisiologia de crescimento dos bovinos, de forma a explorar as diferentes fases da melhor forma possível. Dessa forma, é sempre recomendável ter por perto um técnico competente, seja qual for sua formação, seja ele zootecnista, veterinário ou agrônomo, desde que entenda do processo de produção de carne de forma eficiente.

*Professor-adjunto do Departamento de Zootecnia da Universidade Federal de Viçosa/MG