Genética

Resultado Comprovado

Genética é base da cadeia pecuária de sucesso e com rentabilidade

Luís Adriano Teixeira* e Gabriela Giacomini**

As principais fases do ciclo de produção que mais respondem aos investimentos em nutrição e sanidade são a recria e a engorda, mas os cuidados com a genética e o impacto na fase da cria ainda são poucos visados. Não se pode esquecer que a genética é um dos pilares de toda a cadeia, servindo de alicerce para que o animal possa responder de forma eficiente a todos os investimentos e recursos a ele destinados.

Estes impactos podem ser medidos não apenas nos índices reprodutivos, mas também na performance dos animais durante toda a vida. Afinal de contas, já está mais que comprovado que animais de melhor genética ganham mais peso, entram em reprodução mais jovens e apresentam uma carcaça de melhor qualidade para a indústria, atendendo aos níveis de exigência cada vez maiores do mercado consumidor.

Fica claro que o melhoramento genético e seleção dos melhores animais é o passo inicial para o sucesso de qualquer projeto pecuário que queira produzir carne de melhor qualidade e com mais eficiência. E, para tanto, devemos encarar a seleção genética, mesmo nos rebanhos comerciais, de forma profissional e como qualquer outro insumo utilizado na fazenda, medindo o grau de investimento e retorno esperado.

Em 2004, o Brasil tornou-se líder mundial na exportação de carne bovina, e o consumo interno, guiado pelo aumento de renda e crescimento da população, vêm garantindo a forte demanda para a carne, principalmente pela qualidade, com maior padronização. Os números emitidos pelos órgãos internacionais apontam que a demanda pela carne proveniente de um animal mais precoce, que produzirá uma carne mais macia, com acabamento desejável é cada vez maior.

Cuidados para a estação de monta

Como já estamos no segundo semestre do ano, já é hora de iniciarmos a preparação da estação de monta do final do ano, trazendo grande movimentação no mercado de touros, sêmen e matrizes. O período reprodutivo está atrelado ao início do período chuvoso, que pode variar entre regiões, mas, em boa parte do território brasileiro, acontece entre os meses de novembro e janeiro.

A estação de monta deve ser muito bem planejada; afinal, as decisões toma- Revista AG REVISTA AG - 21 das agora terão reflexo daqui a 2 ou 3 anos. Mas qual a melhor maneira de se fazer isso? A primeira medida a ser tomada é verificar as condições gerais dos lotes de fêmeas, avaliando-se, por exemplo, a condição corporal das matrizes, que ainda passam pela recuperação do estresse causado pela seca e precisam emprenhar novamente.

Mesmo durante a amamentação, as vacas não podem estar com a condição corporal abaixo do normal, já que isso pode promover o aparecimento de muitos problemas. Assim, é preciso que se tenha um cuidado especial com o manejo nutricional das matrizes, para evitar problemas como o não aparecimento de cio na estação de monta.

Durante a estação de monta, é importante realizar o monitoramento dos trabalhos, seja da inseminação artificial (IA), ou mesmo da monta natural, para que não haja prejuízo futuro às taxas de prenhez e perda no total de animais nascidos. Nos lotes de IA, o cuidado com o monitoramento do cio é mais intenso. Os lotes devem ser observados pela manhã e à tarde no sistema de inseminação tradicional, ou conforme a programação técnica do protocolo usado no caso da Inseminação Artificial com Tempo Fixo (IATF). Durante esse manejo, as fêmeas que estão manifestando cio seguem para o curral, onde serão inseminadas. Qualquer falha nesse manejo pode comprometer o processo, causando perdas econômicas, o que torna o bom treinamento e reciclagens periódicas da equipe dos inseminadores totalmente recomendáveis. Na CFM, fazemos uma reciclagem anual da equipe, além do uso de mão de obra terceirizada e especializada em reprodução.

Outro manejo adotado é o acompanhamento diário das taxas de cio e de sua evolução durante a estação de monta, para monitoramento do serviço e manejo dos lotes de inseminação, para saber qual o momento ideal para início do repasse com touros.

Nos lotes de monta natural, a atenção também é especial. Na CFM, é realizado, ao menos duas vezes por semana, o rodeio em todos os lotes de monta natural, para uma checagem geral. Esse manejo é importante para verificar, por exemplo, se existe algum animal machucado, já que os machos costumam disputar a preferência das fêmeas, ou se existe algum touro dominante ou submisso em excesso, que deve ser remanejado para outro lote.

Além disso, as fêmeas entram na monta com bezerro ao pé. Esse é um bom momento para verificar se há bezerros com algum problema sanitário e já aplicar a medicação necessária. Sem dúvida, com esses cuidados, a estação de monta transcorrerá de forma tranquila e satisfatória.

Retorno da genética provada

Outra preocupação recai sobre os futuros pais da nova safra. A escolha dos touros ou do sêmen deve ser criteriosa e tem impacto decisivo para o sucesso, ou fracasso, nos animais que irão nascer e originar a futura receita da fazenda, seja na venda de bezerros desmamados ou no boi gordo para atender o mercado de carne.

Deve-se fazer uma inspeção nos touros pré-existentes na fazenda, para verificar sua condição física, idade, e, principalmente, o exame andrológico. O exame andrológico deve ser feito todo ano. Touros inférteis ou muito velhos podem causar prejuízos grandes às taxas de prenhez do rebanho, e este manejo simples e rápido gera caixa com o descarte dos touros reprovados, além de evitar surpresas pós-diagnóstico de gestação.

Feito o andrológico e a avaliação dos touros, é possível calcular a quantidade de touros de que cada propriedade necessita para trabalhar com a vacada ou para o repasse da inseminação artificial. Com esse número em mãos, o pecuarista deve procurar um fornecedor de touros confiável, com tradição no mercado, que produza touros verdadeiramente melhoradores, comprovados através das DEPs (Diferença Esperada na Progênie) - ou dos CEIPs (Certificado Especial de Identificação e Produção).

Escore corporal das fêmeas deve ser observado antes da monta

Nos últimos anos, o mercado tem sinalizado com um aumento de interesse por touros oriundos de programas de melhoramento genético, e as razões para isso estão no ganho financeiro que o investimento em genética provada proporciona no médio e no longo prazo.

Escore corporal das fêmeas deve ser observado antes da monta

Para demonstrar este ganho financeiro, ou, vendo por outro ângulo, quanto dinheiro o pecuarista está perdendo ao comprar um touro ponta de boiada, como é conhecido o animal selecionado apenas pela avaliação visual e ponderal, mostramos o cálculo que demonstra, de maneira prática, os ganhos acumulados no decorrer de seis anos, tempo médio de vida útil de um reprodutor.

A conta para este exemplo é simples e considera o ganho de peso médio no sobreano proporcionado pelo touro adquirido. Comparando- se um touro com DEP de Peso ao Sobreano de 24,32kg com um touro de valor genético desconhecido (zero), multiplicando pelo número de 25 filhos e filhas, em média, nascidos por safra, veremos que o resultado soma 608 kg ([email protected]) extras ao peso final dos animais. Multiplicando estes quilos extras pelo valor da arroba do boi gordo, fica fácil saber quanto de dinheiro deixou de entrar no caixa da fazenda, por ano, em decorrência da escolha errada do touro.

Os dados completos do estudo que considerou as diferenças de receita bruta por ocasião da desmama e sobreano podem ser vistos nas tabelas 1 e 2, com base nos preços ESALQ/CEPEA do dia 1/ago até o dia 19/ago/11, quando fechamos o balanço. Consideramos o valor de R$ 101,64 para o Indicador ESALQ/ BM&F/Bovespa da arroba do Boi Gordo à vista, e de R$ 738,39 para o Indicador ESALQ/BM&F/Bovespa do bezerro no Mato Grosso do Sul à vista. Na desmama, a diferença foi de R$ 6.316,89, e, ao Sobreano, o valor foi de R$ 13.100,99, o que remunera o investimento nos touros com folga, gerando lucro. E isso tudo sem contar os ganhos na qualidade da carcaça ou de precocidade sexual das fêmeas, que não calculamos aqui.

Pelos dados apresentados, fica fácil perceber que para se manter numa pecuária competitiva, cortando custos e gerando lucro, é preciso investir em genética de qualidade e em animais melhoradores, comprovando que a genética é o principal insumo da pecuária de resultado e lucratividade.

Somente com a escolha da genética correta, focada em resultados e alinhada com os objetivos de produção da fazenda é que os demais investimentos em nutrição, sanidade e manejo irão gerar o maior retorno possível, aumentado o lucro da fazenda.

*Veterinário e coordenador de Pecuária da CFM; ** Zootecnista da CFM e gerente do Programa Montana - [email protected] com.br