Matéria de Capa

O novo ciclo do Brahman

Rendimento de carcaça acima da média, fertilidade e precocidade de crescimento explicam a rápida evolução da raça no Brasil

Patrícia Peixoto Bayão

A raça Brahman completa 17 anos em solo brasileiro com a conquista de ser a que mais cresce no país entre os zebuínos de corte, em termos de registro de nascimentos, com aumento de 45,4% entre 2005 e 2010. Além disso, entre abril de 1994 e agosto de 2011, 206.606 animais foram registrados junto à ABCZ (Associação Brasileira de Criadores de Zebu), o que faz do Brahman a segunda maior raça de corte em número de registros na entidade. De acordo com a entidade, o rebanho da raça aumentou mais de 1.500% entre os anos de 2000 e 2007, de 2 mil para 28,6 mil cabeças.

Ainda segundo dados da ABCZ, nos últimos dois anos, os criadores da raça que registram animais junto à instituição cresceram 20%, de 895 para 1.126. “Outro dado que demonstra a evolução e a crescente procura pela raça é a inclusão do Ceará e de Roraima no mapa brahmista brasileiro. Hoje, 24 estados têm criatórios da raça”, ressalta Lydio Cosac, diretor-executivo da Associação dos Criadores de Brahman do Brasil (ACBB). A raça é também a que mais se valoriza em gado de corte. De 2006 a 2010, os reprodutores alcançaram 46% de valorização, e as matrizes, 39,4%. Outro indicador positivo vem da Associação Brasileira de Inseminação Artificial (ASBIA). Segundo a instituição, o Brahman é a segunda raça zebuína de corte em venda de sêmen.

Robusto, cheio de vigor, tolerante ao calor dos trópicos, resistente a doenças e a vários tipos de parasitas, as qualidades do Brahman não param por aí. De uma docilidade impressionante e grande habilidade materna, a raça ainda tem somado às suas características o fator econômico básico para o sucesso na pecuária de corte: a produção de carne de qualidade a baixo custo.

O presidente da ACBB, Wilson Roberto Rodrigues, explica que nenhum outro zebuíno tem o tipo de carcaça do Brahman. “Carne boa precisa de genética e cruzamentos bem conduzidos. O Brahman é a matéria-prima perfeita, com todas as características já conhecidas. Só por estar em mais de 70 países e ser o zebuíno mais conhecido do mundo, já se tem um fato contra o qual não há argumentos”, ressalta.

Além dessas habilidades, continua Rodrigues, o Brahman é um bovino ecológico, uma vez que pode ser criado comendo capim, é precoce e, com isso, tem um ciclo de vida mais curto, emitindo menos metano. “Com demanda crescente por proteína animal, um bovino com as qualidades produtivas e sustentáveis do Brahman torna-se essencial para que possamos atender esse mercado e ao mesmo tempo as exigências ambientais”, avalia.

Pioneiro na importação do Brahman, Moisés Campos, diretor da Fazenda Querença, explica que, quando conheceu a raça nos Estados Unidos, ficou impressionado com o volume da musculatura do animal. “Optamos pelo Brahman por causa do volume da musculatura, docilidade e habilidade materna – um grande problema que tínhamos com outra raça que criávamos”, explica o diretor.

Para Campos, o cruzamento do Brahman com as raças zebuínas criadas no Brasil daria um produto meio-sangue de melhor volume de musculatura. “Além disso, ficamos encantados com a docilidade dos animais. Em um país em que, a cada dia, a pecuária deixa de ser extensiva e passa para um regime semi-intensivo e intensivo, a docilidade passa a ser uma característica cada vez mais desejada”, explica. A docilidade do animal ajuda no manejo e faz com que a qualidade da carne seja melhor. Os animais ficam pouco resistentes à presença do homem, não se debatem, e, no transporte até o frigorífico, não têm escoriações e áreas de perda na carcaça causadas por edemas. Já a habilidade materna é importantíssima, uma vez que o bezerro bem alimentado ganha mais peso na amamentação e consegue melhor desempenho pós-desmame.

O diretor da Querença conta, ainda, que o Brahman é uma raça desenvolvida para ter bom desempenho a pasto. “Animais de porte mediano, de bom comprimento e costelas espaçadas têm desempenho a pasto fantástico. Nossa seleção é voltada para isso: produzir animais medianos, prontos para produção a pasto”, enfatiza.

Outra vantagem do animal de porte mediano, segundo Campos, é em relação à conversão alimentar. “Existem trabalhos que provam que essa característica no Brahman é melhor até que no Angus, inclusive em confinamento. Desde que o Brahman tenha o fenótipo adequado, que é de animais de porte mediano, seu desempenho em termos de conversão alimentar é muito superior ao das outras raças”, observa.

Genética

Participante do PMGZ e do PMGRB (Programa de Melhoramento Genético da Raça Brahman), realizado pela ANCP (Associação Nacional de Criadores e Pesquisadores), a Querença investe há anos na identificação de animais superiores, com ênfase na realização de Provas de Ganho em Peso (PGPs) na própria fazenda.

Segundo Campos, 100% dos machos da Querença passam por PGP. “Queremos identificar e disponibilizar ao mercado animais de alto mérito genético, uma vez que já percebemos uma forte cobrança do mercado por informação”, afirma o diretor.

Participante do PMGZ desde 2000, o Brahman vem, a cada ano, aumentando seu envolvimento com o programa. Segundo o gerente de corte do PMGZ, Lauro Fraga, isso se deve à preocupação dos criadores da raça em colocar no mercado animais superio16 - OUTUBRO 2011 Matéria de Capa res, que atendam a demanda de produtividade atual.

Fraga explica, ainda, que o PMGZ auxilia, com provas e mensurações, o criador no processo de seleção. “Por meio do PMGZ, o criador visualiza mais claramente as qualidades de cada animal, identifica os melhores indivíduos e famílias, tendo, assim, mais ferramentas para colocar no mercado aqueles que têm as melhores características”, enfatiza.

Para Fraga, o Brahman é uma raça que chegou ao Brasil depois de passar por seleções de diversos países. “Isso é um ponto a favor da raça, que tem muito a agregar ao rebanho nacional”, avalia.

Cruzamentos

Para ampliar o número de animais e a genética privilegiada em nosso país, há também a opção pelo Brahman produzido por absorção, baseado na temática original do cruzamento entre raças zebuínas.

Segundo informações da ABCZ, criadores estão registrando junto à entidade animais frutos do cruzamento do Brahman com outras raças, o que indica o aproveitamento da raça por absorção sobre outros animais PO: 12 criatórios fazem com Nelore; 10, com Nelore Mocho; dois, com Guzerá; dois, com Tabapuã; e quatro, com Holandês.

Para Moisés Campos, a conversão alimentar do Brahman é inigualável

Dado oficial de lactação de Brahman em controle da ABCZ indica mais de quatro mil quilos de leite numa lactação de 305 dias. Os cruzamentos também são compensatórios para pequenos produtores de leite que usam os touros Brahman nas suas vacas ou as inseminam com eles. O bezerro nasce com mais agilidade, cresce mais sadio e, com a venda de machos e fêmeas, os criadores conseguem buscar reposição com menor custo: compram fêmea em lactação para reposição com a venda de menos de quatro bezerros desmamados. “No Brasil, já estão fazendo o que em outros países já é costumeiro, a cruza da Brahman com o Holandês (Brahmolando), um tipo muito produtivo para leite em criação extensiva”, lembra Cosac. A recordista mundial de produção de leite é uma Brahmolando chamada Ubre Blanca, que produziu mais de 24 mil quilos numa lactação de 305 dias.

Para Isaac Cohen Persiano, titular da Fazenda Brahman IC e pioneiro na produção de Brahmolando no Brasil, a raça alia as características do zebu com o Holandês, tendo a fêmea Brahman como base para o cruzamento. “O Holandês puro não resiste ao desconforto técnico, e o nosso país tem um clima tropical. Já o zebuíno é resistente, mas não produz volume de leite suficiente para venda”, explica.

A história da Brahman IC com o Brahmolando começou há três anos, quando, impressionado com a qualidade de úbere das vacas Brahman, Persiano decidiu avaliar o leite de algumas matrizes. Segundo ele, o úbere da vaca Brahman tem bons ligamentos e boa distribuição de teta, além da docilidade peculiar à raça, importante fator para a produção de leite. “Preparamos uma vaca e tiramos o leite, com pesagem oficial da ABCZ. Um técnico acompanha todo o trabalho. Tiramos uma média de 17 kg em uma novilha de primeira cria, depois tiramos 15 kg de outra vaca”, conta.

Foi realizada, então, nesses dois animais a lactação completa, com acompanhamento de aproximadamente 10 meses. “Elas produziram mais de quatro mil kg de leite. Há três anos, solicitei que usassem uma dose de sêmen de touro holandês, o Touchdown, em uma de nossas vacas, a IC 7, que teve uma lactação de 4.200 kg. Na época, muitos acharam uma aventura, mas hoje muitas pessoas estão fazendo o Brahmolando em volume”, explica.

Para produção de carne, o Brahman cruzado com taurinos e outros zebuínos evidencia muito mais que rusticidade. A raça contribui muito na genética de ganho de peso e na qualidade de carne. Vários touros que têm os seus marcadores moleculares conhecidos são referências para obtenção de produtos que são abatidos mais cedo e apresentam bons resultados de rendimento e qualidade de carcaça.

A cruza Brahman é boa tanto na engorda quanto na reprodução. Estudos mostram machos meio-sangue Brahman/ Nelore desmamados com média de 252 quilos e fêmeas com 235 quilos. Os machos confinados são abatidos aos 24 meses, com média de 545 quilos, e o gado engordado exclusivamente a pasto é abatido aos 30 meses, com 530 quilos; ambos com ótima cobertura de carcaça. As fêmeas iniciam a reprodução aos 20 meses, com 400 quilos. O primeiro parto se dá por volta dos 30 meses, e são evidentes a habilidade materna, a docilidade e a rusticidade; ou seja, apresentam as características ideais de uma boa matriz e receptora. A F1 Brahman é uma ótima receptora.

Wilson Rodrigues diz que nenhum outro zebuíno tem o tipo de carcaça do Brahman

Maciez comprovada

Os abates técnicos de animais puros e meio-sangue Brahman comprovaram que o rendimento de carcaça ultrapassa os 55%, e a qualidade da carne obtida é bem classificada diante das tabelas de cortes comerciais. É possível, além da quantidade e da qualidade, obter uma uniformidade no lote, indispensável quando se pensa em exportação. As perdas por aparas de limpeza nas carcaças e retirada de hematomas são mínimas quando se trabalha com Brahman – por causa da índole calma dos animais.

Na desossa, também se apurou maior percentual de carne que o esperado, confirmando que o osso do Brahman, apesar de possuir maior volume, apresenta um peso relativo menor devido aos osteoclastos (células do tecido ósseo) serem mais espaçados. É um osso mais poroso.

Abate técnico realizado em 2008 pela Unesp Botucatu, que avaliou 20 machos castrados, de 30 meses e criados a pasto, da Estância IMA, de Cuiabá/MT, apontou que algumas características de qualidade da carne dos animais apresentaram valores bem superiores a encontradas em animais de outras raças, com o mesmo peso e idade. Os valores encontrados para os índices de marmorização da carne, por exemplo, geraram uma média de escore próximo de 4,0 (excelente).

Segundo o coordenador técnico da pesquisa, professor Luís Artur Loyola Chardulo, o Brahman apresenta uma habilidade maior que a do Nelore de produzir gordura entremeada na carne. “Não se sabe bem se isso acontece em função da seleção a qual foram submetidos esses animais ou se houve uma variação genética de algumas linhagens selecionadas para esta característica. De qualquer forma, é uma característica que coloca o Brahman em uma classificação um pouco diferente da média dos Bos indicus em relação à quantidade de gordura entremeada à carne. Este tipo de produto, em alguns mercados, é muito apreciado e, por consequência, mais valorizado”, avalia.

Outro fator que chamou atenção foi a força de cisalhamento (FC), utilizada para medir a maciez da carne, cujos valores foram considerados bastante baixos, caracterizando as amostras como produtos cárneos com extrema maciez após o cozimento. Cabe ressaltar que o maior valor de FC encontrado foi de 4,80 kg, o que, de acordo com Chardulo, evidencia a habilidade de todos os animais do lote de produzir carnes potencialmente macias. “É senso comum em nosso grupo na Unesp que a difusão da genética do Brahman em nosso meio de produção – confinamento e a pasto – levaria grande vantagem para o setor”, conta Chardulo. Para ele, o Brahman vem há mais tempo sendo selecionado para as características de produção, tanto em quantidade quanto em qualidade de carne, o que confere à raça maiores vantagens na maciez da carne produzida.

DIFERENCIAIS da raça Brahman

Presente em mais de 70 países, em alguns desses há mais de 100 anos, o Brahman apresenta qualidades que o diferenciam de outras raças e justificam a crescente demanda pelo animal no Brasil.

A raça apresenta ótima morfologia para produção de carne: tórax profundo, costelas bem espaçadas e um ótimo volume gastrointestinal; é bem funcional, o que denota boa capacidade respiratória e digestiva, fundamentais para um bovino produtivo. “Sem oxigenação e sem uma boa área de absorção intestinal, nenhuma raça pode produzir bem. As raças mais produtivas e precoces apresentam essas características bem marcantes”, explica o diretor-executivo da ACBB, o médico-veterinário Lydio Cosac. O dorso-lombo e a garupa, onde se localizam os cortes cárneos mais nobres, são pontos fortes do zebuíno, que, ainda em idade jovem, apresenta um volume diferenciado e ótimo desenvolvimento no posterior, com muita convexidade.

O animal apresenta também precocidade de crescimento, de acabamento e de fertilidade. Está preparado para ser abatido, com quantidade de peso e acabamento de gordura, e ainda para entrar em reprodução mais cedo. “Dá retorno muito mais rápido para quem o cria”, explica. No momento da comercialização dos animais com os frigoríficos, é possível obter um adicional pela precocidade e qualidade de acabamento dos animais.

Segundo dados do Anualpec 2010, enquanto a média nacional de abate é de 37,5 meses, a média para o Brahman é de apenas 28 meses. No caso do Brahman PO, esta antecipação no abate é de no mínimo nove meses. “Além da redução da idade de abate, também é possível agregar 128,76 kg a mais no peso final dos animais. Se o animal é abatido mais cedo, o volume de área utilizado para criação é menor, o nível de metano emitido também o é, e há, ainda, a diminuição do custo de produção para o pecuarista”, avalia Cosac.

A pecuária de corte também ganha ao utilizar genética Brahman nos cruzamentos, quando é possível antecipar no mínimo em 10 meses o tempo de abate médio do animal e agregar 87,76 kg a mais no peso final dos animais.

É um zebuíno que tem uma termorregulação que permite uma zona de conforto de muita adaptação. Sua pigmentação de pele, conciliada com as formas e quantidades de glândulas sudoríparas e sebáceas, mais o número de pelos por centímetro quadrado e outras características morfofisiológicas garantem rusticidade.

A libido é boa nos touros, que acompanham bem o lote de fêmeas. “Já é comprovado que antes dos três anos os animais já pariram e reconceberam. Os machos, antes dos dois anos, já começam a cobrir. Ainda acontece que tanto machos quanto fêmeas têm uma vida útil longa no rebanho. São várias as vacas que estão parindo após os vinte anos”, observa Cosac.

O Brahman ficou muito conhecido pela seleção realizada com base na habilidade materna. Cosac explica que fêmeas que não eram boas mães eram descartadas desde o início da formação da raça. Além de ter anatomia para parir bem, a matriz produz quantidade de leite que dá condições para criar e desmamar bezerros mais pesados e oferecer ótima proteção à cria. É um atributo de alta herdabilidade em cruzamentos.