Caprinovinocultura

ALIMENTO o ano todo

Medidas preventivas e atenção às variações climáticas ajudam a garantir alimento nas quatro estações

Denise Saueressig
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Os rebanhos ovinos estão presentes em todas as regiões do país. Em parte dos estados, são raças diferentes, criadas sob condições climáticas distintas. Mas, independentemente dessas características regionais, é comum aos produtores a necessidade de garantir uma boa oferta de alimento o ano todo para os animais.

Um correto planejamento do sistema serve como prevenção para épocas críticas, quando as pastagens não fornecem a quantidade necessária de nutrientes para o bom desenvolvimento do plantel. Uma programação eficiente também vai colaborar para diminuir os riscos com os imprevistos e, consequentemente, vai ajudar o produtor a controlar seus custos.

As regiões Centro-Oeste e Sudeste têm o clima bastante parecido, com um inverno bastante seco. “Essa época de pouca umidade e escassez de chuva inicia no final de maio e pode ir até outubro”, observa o zootecnista Mauro Sartori Bueno, pesquisador do Instituto de Zootecnia (IZ) da Secretaria de Agricultura do Estado de São Paulo.

Produzir plantas como o milho, o sorgo e a cana-de-açúcar no ciclo agrícola anterior é a medida mais indicada para ter alimentos disponíveis quando chega o período seco. “Se a propriedade é de pequeno ou médio porte, como são a maioria dos criatórios do país, o produtor precisa ser agricultor em primeiro lugar”, salienta o especialista.

Na hora de planejar o plantio de pastagens, o pesquisador indica sempre uma prévia análise de solo e correção. A aplicação de nitrogênio também é prescrita para elevar a capacidade de suporte e o valor nutritivo das plantas. “Se o produtor quiser economizar, pode plantar uma área com leguminosas, que não precisam de nitrogênio e podem diminuir a necessidade da aquisição de farelos proteicos. É o caso do feijão guandu, do amendoim forrageiro e da leucena”, cita.

Os cuidados na época das águas irão variar de acordo com o ciclo produtivo dos animais. “Para fêmeas em gestação avançada, fêmeas paridas e cordeiros em terminação, além de boas pastagens, aconselho capim elefante para ser fornecido no cocho como suplementação. É uma forrageira para corte com um valor nutritivo muito bom”, orienta Bueno.

Independentemente da região ou da época do ano, a oferta de sal mineral e de água deve ser permanente. É importante o produtor fornecer sal mineral específico para ovinos. “Antigamente, como não existia a diferenciação, o criador acabava usando o sal para bovinos. No entanto, essa prática é prejudicial, porque o sal dos bovinos tem um nível de cobre mais elevado, o que pode intoxicar os ovinos”, explica o pesquisador do IZ.

Clima e ciclo produtivo

A Região Sul e, especificamente o Rio Grande do Sul, onde a ovinocultura é uma atividade tradicional e onde os rebanhos de raças lanadas são mais frequentes, apresenta definições bem específicas nas pastagens de acordo com as estações do ano. Na primavera, os campos estão em plena brotação, com o conteúdo de proteína e a digestibilidade no ponto máximo, detalha o engenheiro agrônomo Sérgio Silveira Gonzaga, pesquisador da Embrapa Pecuária Sul. “No verão, embora aumente a disponibilidade de matéria seca, há algumas perdas qualitativas, visto que a maioria das espécies encontra-se em sua fase de maturação, aumentando os teores de celulose e lignina, decaindo assim a digestibilidade”, acrescenta.

No Sul, os períodos críticos para os ovinos estão concentrados no outono e no inverno. Nessas estações, cai a oferta e o poder nutritivo das pastagens. Além disso, há a coincidência de ser o outono a época do acasalamento, e o inverno, a fase final da gestação, a parição e o início da lactação. “Na fase de desenvolvimento do feto, especialmente nos dois meses finais da gestação, ocorre a formação de 75% do peso que o cordeiro terá ao nascer, e a energia é o princípio nutritivo essencial nesta etapa. É importante prestar atenção principalmente aos ventres com condição corporal baixa e que estão gestando gêmeos”, destaca o especialista.

O comportamento do clima e o ciclo produtivo dos ovinos demonstram a necessidade do planejamento alimentar, especialmente para o final do inverno, quando a ovelha passa a amamentar seu cordeiro. É o momento em que a fêmea precisa suprir as suas necessidades e, ao mesmo tempo, produzir leite de maneira satisfatória e de acordo com a elevada taxa de crescimento das crias, que até três a quatro semanas de vida dependem quase que exclusivamente do leite da mãe.

Nesse período, se o produtor não contar com pastagens adequadas, é importante preparar o rebanho para a suplementação. “É necessário adaptar estes ventres ao consumo de rações, grãos ou resíduos de limpeza agrícola. Isto deverá começar ao menos 45 dias antes do parto”, informa Gonzaga.

Reservas de forragem e pastagens cultivadas de primavera/verão são importantes para a terminação de cordeiros machos em momentos em que a demanda por este tipo de animal é muito grande. “Entre as espécies anuais cultivadas no Rio Grande do Sul, o milheto é a gramínea de estação quente mais utilizada para pastejo. Isso se deve a algumas de suas características agronômicas de alta resistência à seca, adaptação a solos de fertilidade moderada, crescimento rápido, boa produção de forragem, aliado ainda à qualidade forrageira e ao amplo período de utilização”, completa.

Pesquisador Mauro Bueno, do IZ: resíduos de frutas são boas alternativas do ponto de vista nutricional

Alternativas viáveis

No Nordeste, região que detém mais de 50% do rebanho ovino e cerca de 90% do plantel de caprinos do país, a época seca pode variar com o estado e a localidade do produtor, e geralmente compreende seis meses do ano. É quando ocorre a restrição dos alimentos volumosos, ou seja, pastagens e silagens.

Os pesquisadores da Embrapa Caprinos e Ovinos Maria Izabel Carneiro e Marcos Cláudio Pinheiro, dizem que o ideal é elaborar o planejamento alimentar contemplando as fases produtivas e o ciclo de produção. “Devem ser considerados o tipo de criação, se é produção de leite ou carne, e as suas fases produtivas em termos de exigências nutricionais. A partir daí, é possível selecionar os alimentos mais apropriados em termos de valor nutritivo e preço. Assim, também podemos estimar o volume necessário de alimentos, considerando, além da disponibilidade de forragem verde (pasto e capineira), também as técnicas de conservação de volumosos (silagem e fenação) e a estocagem de alimentos concentrados”, analisam.

Para os pequenos produtores, os especialistas recomendam a organização em cooperativas e associações para viabilizar a compra ou o preparo de alimentos específicos.

Dependendo do local onde está a propriedade, a utilização de subprodutos ou resíduos de indústrias é bastante recomendada. Se o criatório estiver próximo ou a uma distância razoável de uma fábrica de sucos, por exemplo, o produtor pode negociar a compra de resíduos de frutas como laranja, manga, limão, maracujá e abacaxi. “Do ponto de vista nutricional, são todas ótimas opções. No entanto, como são úmidos, precisam ser ensilados para garantir a conservação. Em locais de forte concentração agrícola, como o Centro-Oeste, também é possível aproveitar as sobras das indústrias de beneficiamento de grãos”, enumera o zootecnista Mauro Bueno.

Ele alerta que é preciso prestar atenção ao calendário agrícola, já que tanto as frutas quanto os grãos têm produção sazonal. “Assim, o criador pode escapar de ter que pagar mais caro por esses produtos”, assinala.

Outra alternativa interessante é o resíduo das cervejarias. Segundo o pesquisador, além dos benefícios nutricionais, a aceitabilidade pelos animais é muito boa. “É um produto excelente para compor a dieta. Tem entre 20% e 25% de proteína bruta e entre 70% e 75% de valor energético, ou NDT”, relata.

Os pesquisadores da Embrapa Caprinos e Ovinos também destacam a possibilidade do uso da leguminosa gliricídia para formação de bancos de proteína e da palma forrageira em plantios adensados.

Planejamento eficiente colabora para diminuir os riscos e ajudar o produtor a controlar seus custos