Caindo na Braquiária

De volta ao nortão

Ao chegar ao aeroporto de Floresta, apelido carinhoso da capital do Vale do Teles Pires, me vi entre engenheiros que também desembarcaram no mesmo voo de Ribeirão Preto/SP. Ali, encontrava-se a mão de obra qualificada para executar o início das obras da Usina Hidrelétrica Teles Pires, edificação projetada para gerar a energia barata que tanto o país precisa. Serão investidos aproximadamente R$ 4 bilhões, gerando mais de 7.000 empregos diretamente na região. Como se não bastasse, a revolução na região não vem se restringindo apenas ao nível urbano, mas atinge, sobretudo, o campo, onde os pecuaristas já instalados na região há mais de 30 anos vêm introduzindo novas culturas consorciadas com o gado.

Na primeira vez que me dei conta dos efeitos causados pela luz do sol de inverno, encontrava-me numa estrada entre paredões de rochas ao chegar à cidade de Pedra Azul, onde os últimos raios de sol daquele inverno de céu limpo iluminavam as imensas montanhas de pedras lisas azuis, deixando pasmo qualquer ser humano com o mínimo de amor pela natureza. E agora, de volta ao Nortão do Mato Grosso, como de encomenda, sob as finas lentes de meus óculos escuros, minha vista capturava novamente a luz da tarde, a qual formava impressionantes matizes no céu de Alta Floresta, enquanto regressava da Fazenda Fortuna, um dos mais interessantes projetos pecuários daquela próspera região do norte do país.

Fazenda da família Wolf, administrada pelo patrono Sr. Mario e por Daniel, seu filho, que vem atuando no gerenciamento da fábrica de ração, a Fortuna faz jus ao nome quando pensamos em abundância de tecnologia.

Por meio de uma parceria com a Embrapa, a Fortuna iniciou há 3 anos o sistema agrossilvopastoril, onde foi plantado Eucalipto e Teca em linhas que distam 20 metros umas das outras, sendo que nos primeiros anos do projeto, no lugar do gado pastoreando nessa área, foi plantado arroz para que houvesse tempo de desenvolvimento das árvores até um calibre suficiente para não serem derrubadas pelo gado. Nesse momento, o projeto atingiu seu ponto de maturidade, com lotes de garrotes ½ sangue Rubia Galega e de Nelore sendo rotacionados ao pé da esparçada floresta. Tão logo os animais atinjam peso suficiente, adentram o confinamento, onde são engordados até chegarem ao peso de 450 a 480 kg, sendo os ½ sangue Rubia vendidos para um projeto de carne especial. Já na raça Nelore, os Wolf acabaram de adquirir excelentes matrizes e mais que depressa buscaram fazer o mapeamento genômico delas, descobrindo as melhores para os marcadores moleculares, a fim de concentrar os investimentos nesses animais geneticamente superiores.

“Com o valor da terra atual, não basta fazermos certo: temos de ser audaciosos, investindo e diversificando conforme o mercado nos sinaliza”

Distante 50 km do município de Alta Floresta, com destino a Juara, chegamos à Fazenda Vista Alegre, propriedade dos Favaro, administrada pelo Sr. Luiz Carlos e seu filho Jean, os quais vêm implantando, a meu ver, um dos mais audaciosos e pioneiros projetos de piscicultura da região. A Vista Alegre possui mais de 4.000 ha de pastagens, formadas há mais de 30 anos pelo patrono Sr. Luiz, homem humilde na sua apresentação, mas perspicaz e inteligente como poucos no gerenciamento da terra. A fim de agregar valor e gerar uma renda atrativa para que os filhos permanecessem nela, Sr. Luiz Carlos abnegou-se de sua paixão por gado para se embrenhar no mundo subaquático. Como a Vista Alegre possui parcos cursos de água, a saída foi recorrer à água que vem do céu, a qual, através de um grupo de barragens estrategicamente posicionadas, pretende chegar a 350 ha de espelho d’água. O projeto da Piscicultura Jundiara, nome dado pela criação de um híbrido de mesmo nome (Cruzamento de Jundia com Cachara), feito no laboratório da fazenda pelos próprios Favaro, terá no futuro o próprio frigorífico, na busca para abater de 5.000 a 10.000 kg de peixe/ dia, rendendo, em relação ao boi, 5 vezes mais por ha ao caixa da propriedade. Tal projeto será tão moderno que existirão canais ligando todos açudes, servindo para alimentação e manejo dos peixes. Assim, a Vista Alegre manterá a bovinocultura nas partes altas da fazenda (onde os Favaro fazem um rebanho de Nelore PO por coleta de grandes doadoras do Brasil), bem como o rebanho comercial, garantindo a estabilidade e segurança ao caixa da propriedade. A piscicultura, que requer mais detalhamentos de manejo, dará à propriedade outra importante fonte de renda.

A visita nesses dois polivalentes projetos me deu ainda mais a certeza de que, com o valor da terra atual, não basta fazermos certo: temos de ser audaciosos, investindo e diversificando conforme o mercado nos sinaliza.

Alexandre Zadra - Zootecnista
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