Do Pasto ao Prato

RENTABILIDADE da cria é comparável à da recria e e

A situação atual da cria na pecuária de corte brasileira é um dos temas que mais me interessam e motivam. A cria é muito pouco estudada e avaliada; é o gargalo da pecuária, o elo mais fraco, que dá o ritmo de expansão da atividade. Se conhecermos mais a cria, como atividade econômica, fica mais fácil analisar os ciclos produtivos, fazer previsão de preços e volume de oferta no médio-longo prazo.

Estes dados abaixo me levaram a uma reflexão sobre o que podemos esperar da cria nos próximos anos.

A cria é uma atividade que carrega uma série de mitos, ou pré-julgamentos. Abaixo avalio uma série de percepções minhas.

Cria é uma atividade de baixa rentabilidade. Acredita-se que a cria garanta rentabilidade menor do que a recria e engorda e a tabela confirma isso. Mas é possível ir mais fundo e avaliar uma série de nuances.

A cria cresce menos que a recria e engorda. Avança menos em tecnologia. É o gargalo da pecuária de corte. Um ponto interessante é que com a profissionalização da pecuária, com cada vez mais gente calculando seus custos e avaliando economicamente suas opções, a cria tenderia a ficar em segundo plano, pois quem mede (e percebe que rende menos), vai para outras atividades.

Um contra-ponto: avaliando- se a rentabilidade média nas colunas “clientes”, é melhor fazer apenas cria do que cria-recria-engorda, uma indicação de que o foco traz melhores resultados. No entanto, o valor máximo é bem superior para quem faz o ciclo completo do que quem apenas cria.

Cria é uma atividade de longo prazo. Isso gera menos opções de financiamento, um maior risco e complexidade ao se avaliar um projeto. Por sua vez, isso diminui a chance de alguns perfis de produtores entrarem na atividade e também dificulta quem já atua nessa área a se expandir com recursos de terceiros. Os projetos de integração, nos quais o comprador do bezerro fornece insumos, tecnologia e serviços em troca de uma garantia de fornecimento e preço ainda são escassos. Gostaria de conhecer mais projetos nesse sentido e estudá-los.

Outro mito que eu tinha é que quem faz cria profissional faz ciclo completo para não perder renda, não repassar o lucro para frente. Acreditava que, devido a isso, seria cada vez mais difícil comprar bezerros de alta qualidade. Analisando a tabela, começo a acreditar que isso não será regra. Perspectivas de bons preços de venda de bezerros e ganhos de se focar e se especializar em apenas uma atividade devem estimular o surgimento de criadores com elevada tecnologia e especialização em produtos de alta qualidade (e alto preço).

Vale lembrar que tecnologia é fazer mais com menos ou pelo menos fazer mais com os mesmos recursos – e não usar essa ou aquela técnica ou produto.

Analisando-se a tabela, pode-se inferir que quem faz recria e engorda com alta rentabilidade é muito bom em duas áreas: produção e comercialização (compra e venda de animais). Ou seja, precisa produzir com muita eficiência, ao mesmo tempo em que avalia o mercado e compra e vende seus animais em bons momentos, de forma sincronizada com a capacidade de lotação da fazenda (que varia ao longo do ano).

Fica muito claro que quem tem alto lucro na pecuária consegue orquestrar muito bem a parte de produção com a comercialização. Quando compra, quando vende e como opera os animais na fazenda nesse meio tempo. São muitas variáveis, em áreas de conhecimento muito diferentes.

Quem faz cria com alta rentabilidade é muito bom em produção e também deve ser em comercialização, mas como não compra animais (em grande volume), o ganho em rentabilidade viria da venda bem feita. Há quem fale que a cria é para quem não gosta de negociar, mas fica fácil perceber que quem ganha na cria, vende muito bem seus animais.

O estudo também levantou números de outras fazendas, que chamaram de “diagnósticos”. Nessas fazendas, a rentabilidade média variou muito. As que fazem cria tem apenas R$ 13,70/ha de rentabilidade. Quem faz recria/engorda tem em média R$ 65,10/ha, ou seja, quase 5 vezes mais lucro por ha. Com menos eficiência, provavelmente produtiva e comercial, se percebe duas coisas: a rentabilidade é muito distante das fazendas de alto nível e a diferença de lucratividade entre as atividades é muito grande.

Entre os clientes da Exagro, a rentabilidade média varia muito menos. Na cria é de R$ 146,50/ha e na recria/engorda (atividade com maior média) é de R$ 154,10/ha. Ou seja, menos de 10% mais alto. Na rentabilidade máxima, entre os clientes da empresa, a variação fica bem maior. De R$ 232,10/ha na cria para R$ 353,70/ha na recria/engorda – 50% mais alto.

Primeira observação, óbvia: a disparidade de rentabilidade entre fazendas é enorme, mesmo fazendo a mesma atividade. A renda média da cria “diagnósticos” é quase 11 (onze!) vezes menor do que a média dos clientes da consultoria. Isso mostra como há espaço para se melhorar a rentabilidade da pecuária como um todo, e com isso ainda aumentar produção, sustentabilidade e até qualidade da carne de uma só vez. Produção eficiente pode trazer tudo isso junto.

E a migração para outras atividades, como cana e grãos? Um criador com menos de R$20/ha vai muito facilmente arrendar suas terras para qualquer atividade agrícola que apareça na sua região. Até mesmo quem lucra R$ 65/ha por ano ficará muito tentado. Por outro lado, quem está na casa dos R$ 200-300/ha ano não irá migrar tão facilmente.

Existe a impossibilidade de se abrir novas áreas, por questões ambientais. A fronteira é onde tradicionalmente a cria cresce e é uma fonte de bezerros baratos. A pressão agrícola por áreas de pecuária vai aumentar daqui em diante. Ou seja, com mais agricultura e mais dificuldade na abertura de novas áreas, a pecuária vai encolher em área. Mas pode aumentar a produção mesmo com área menor. A chave é produção eficiente.

Me perguntam com frequência se é melhor fazer cria ou recria/engorda. Acredito que a resposta depende da vocação da pessoa, da fazenda e da região. É claro que na média, a recria-engorda é mais rentável, mas acredito muito num futuro promissor para a cria.

Flutuações de preços devido aos ciclos de produção vão continuar a existir, e outros fatores, como o crescimento mundial, vão continuar a influenciar os preços pecuários.

Escassez gera bons preços. Essa é uma verdade que deve continuar valendo para o preço do bezerro por vários fatores. A velocidade com que a cria avança ainda é menor do que a recria-engorda. A rentabilidade é em muitos casos menor ou muito menor. A área da cria vai diminuir.

A demanda por carne bovina é crescente e não existe carne sem bezerro (pelo menos por enquanto). Continuamos a ter ciclos, mas o patamar de preço do bezerro deve ser mais alto. Tudo isso me leva a crer que planejar a atividade de recria-engorda mirando no lucro que vinha da compra de bezerros baratos não me parece uma estratégia vencedora daqui em diante.

Miguel da Rocha Cavalcanti é engenheiro agrônomo e coordenador do BeefPoint, site especializado na cadeia produtiva da carne bovina (www.beefpoint.com.br)