O Confinador

CUIDADO COM O MANEJO NUTRICIONAL

Welton Cabral*

Dentre os manejos básicos feitos ao iniciar o confinamento, três são essenciais: controle sanitário, identificação dos animais e formação correta dos lotes. Lotes mal apartados causam efeito negativo na hierarquia e dominância dos animais.

Apartação e sanidade corretas contribuirão para diminuir o estresse, maximizar a eficiência biológica da dieta e o desempenho dos animais no confinamento. A formação e aparte dos lotes deverão seguir uma ordem de classificação como: sexo, idade, grupo racial e peso do animal.

Segundo Quintiliano e Paranhos da Costa (2007), é preconizada a formação de lotes de no máximo 120 animais.

A identificação individual dos animais do lote é importante, pois é muito comum o entrevero de animais entre os currais de confinamento. A marcação a fogo facilita. Ainda, durante o período de confinamento, não é recomendável a troca ou mistura de lotes.

Animais doentes e machucados devem ser apartados e tratados corretamente; são ineficientes na conversão alimentar. Deve-se evitar também a excessiva movimentação dos animais e constante presença de pessoas estranhas.

O manejo dos animais para o confinamento, ou no próprio confinamento, deve ser feito sempre com calma. A observação sobre a aparência e o comportamento deverá ser sempre constante.

A água também é questão de sobrevivência do animal, não devendo faltar jamais nos bebedouros. Por mais que forneçamos uma dieta balanceada, nada disso terá retorno se o consumo de água não atender à necessidade do animal. O máximo de consumo coincide com pico de consumo de matéria seca e temperatura do dia. Bebedouros devem ser limpos duas vezes por semana, uma vez que o acúmulo de sujeira inibe o consumo, o que reflete no ganho de peso.

Ração

O balanceamento de rações, além da energia, deve levar em conta a proteína. No balanceamento da proteína, deve ser considerada a proteína necessária aos micro-organismos do rúmen e aquela necessária ao bovino. Modernamente, o conceito de proteína digestível (PD) para o balanceamento de rações foi substituído pelos conceitos de proteína degradável no rúmen (PDR) e proteína não degradável no rúmen (PNDR) ou de proteína metabolizável.

A avaliação da eficiência de um confinamento não está mais somente no ganho de peso diário, mas na quantidade de alimento necessária para a produção de uma @ no ganho, pois esta avalia a qualidade da dieta utilizada.

As exigências nutricionais para bovinos variam segundo o sexo, a estrutura corporal, o peso vivo e a taxa de ganho em peso esperada. Nunca devem ser utilizados alimentos mofados, rancificados ou com qualquer outro indício de deterioração.

É de extrema importância que os animais sejam adaptados gradativamente à dieta do confinamento, em especial aqueles antes mantidos exclusivamente em pastagens. A não adaptação à dieta tem sido responsável por distúrbios como acidose e timpanismo nos confinamentos.

O anseio de que os animais passem a consumir o mais rápido possível a dieta definitiva, que proporciona melhor ganho de peso e conversão, acaba por atrapalhar e prejudicar a saúde e o desempenho animal. A duração do período de adaptação vai depender do nível de concentrado, principalmente de grão e de extrato etéreo (caroço de algodão, soja grão, etc).

Dietas com 60% de concentrado

1. Começar com 20% do concentrado. Fornecer volumoso de maneira moderada para que os animais sintam fome, mas não disputem espaço no cocho. (3 dias).

2. Aumentar para 50% a partir do 4º dia, se os animais estiverem comendo todo concentrado estipulado no item 1 (3 dias).

3. Aumentar para 75% do concentrado a partir do 7º dia se os animais estiverem comendo todo concentrado estipulado no item A.2 (4 dias).

4. Aumentar para 100% do concentrado a partir do 11º dia se os animais estiverem comendo todo o concentrado estipulado no item 3.

Dietas 60 a 80% de concentrado

1. Começar com 20% do concentrado. Fornecer volumoso de maneira moderada para que os animais sintam fome, mas não disputem espaço no cocho. (3 dias)

2. Aumentar para 40% do concentrado a partir do 4º dia se os animais estiverem comendo todo concentrado estipulado no item 1 (3 dias)

3. Aumentar para 60% do concentrado a partir do 7º dia se os animais estiverem comendo todo concentrado estipulado no item 2 (4 dias)

4. Aumentar para 80% do concentrado a partir do 9º dia se os animais estiverem comendo todo concentrado estipulado no item 3 (4 dias)

5. Aumentar para 100% do concentrado a partir do 14º dia se os animais estiverem comendo todo o concentrado estipulado no item 4.

Os animais só vão atingir os níveis de consumo estimados a partir do final da fase 3 ou início da fase 4 – nessas fases, ajustar o fornecimento do volumoso ao apetite dos animais.

Após o final do período de adaptação, manter as proporções das fases 4 (60%) e 5 (60 a 80%).

Manejo de cocho

Nas mãos do tratador, está o lucro e prejuízo de um confinamento. O recomendável é que a ração seja fornecida em quatro ou cinco porções diárias. No entanto, quem determina o momento certo e a quantidade necessária de trato são os animais. Tudo aquilo que é colocado no cocho acima da capacidade de consumo do animal nas próximas uma ou duas horas, deixará de ser atrativo para o animal devido à diminuição da umidade e ao começo do azedume.

O tratador, ao ver o consumo fraco por parte da boiada, passa um novo trato. A ração mais velha ficará no fundo do cocho, cujo tratador deverá dispensar ou forçar o animal através da fome.

O desperdício é o maior prejuízo dentro de um confinamento. Assim, para cada R$ 1,00 de ração jogada fora, ela vai dar mais R$1,40 de prejuízos, pois não se converteu em peso.

Outro fator importante no manejo da alimentação é o horário de fornecimento: bovinos gostam de rotina.

Para evitar distúrbios digestivos e estresse dos animais, nos cochos deve haver sempre alimento à disposição, exceto no período mais quente do dia, entre 12h e 13h. Nesse horário, é a hora de fazer a limpeza. Logo no início da tarde faz-se a limpeza dos cochos (caso seja necessário) para evitar que resíduos fermentados ou apodrecidos sejam consumidos pelos animais. No entanto, é importante frisar que quem deve fazer a limpeza dos cochos é a língua dos bois. Cocho com sobra de ração é ineficiência de trato: devemos limpar somente fezes, sujeiras, pedras, etc. Não existe justificativa para se jogar ração fora – a menos que esteja molhada pela chuva.

Não é desejável que durante a engorda em confinamento seja alterada a composição da ração. Em caso de necessidade de mudança de algum dos componentes, esta deverá ser feita também de forma gradual, de maneira a permitir que a população microbiana do rúmen se adapte à nova dieta. Deve-se também cuidar muito bem da qualidade da mistura da dieta, evitando oscilações e desbalanceamento na dieta ingerida pelos bovinos, o que terá reflexo também no desempenho dos animais.

É comum em confinamento o fornecimento contínuo de ração como uma tentativa de maximizar o consumo. Sabemos que o ganho de peso diário (GPD) é ligado à ingestão de matéria seca, mas animais que recebem ração à vontade ou em excesso geralmente acabam em um chamado consumo cíclico (efeito “ioiô”), caracterizado por uma variação excessiva entre altos e baixos consumos. Logo, o manejo alimentar correto não é aquele que oferta o máximo, mas aquele que oferta apenas o necessário para máxima ingestão de alimento de qualidade e sempre fresco.

Um bom manejo de trato deve ser sempre com uma camada fina de ração e dividir o fornecimento no maior número possível que o manejo operacional, o custo com mão de obra e maquinários permitam. Dessa forma, o animal estará sempre consumindo ração fresca.

Precisamos estar sempre acompanhando o manejo de arraçoamento para ver se está correto, através de avaliação do comportamento do animal e do escore de cocho antes do primeiro trato do dia, e nos tratos intermediários. Ao encontrar cocho vazio e animais agitados, sabemos que alguns dos animais não comeram o suficiente, e será necessário fazer os ajustes no trato. Conforme indica Murta et al. (2008), o comportamento ideal dos animais a qualquer hora do trato deve ser: 25% dos animais prontos para o consumo, 50% caminhando para o cocho e 25% dos animais se levantando. A leitura de cocho nos dará parâmetros de quanto devemos aumentar ou diminuir a quantidade de ração no dia.

Assim, pode-se concluir que o confinamento de sucesso passa inevitavelmente pelo manejo de trato para engorda eficiente de bovinos, devendo tomar os devidos cuidados e monitorar para intervir no momento certo, antes que as falhas ocorram, pois no confinamento não existem chances de falhas: errou, perdeu.

Problemas alimentares

Podem ser considerados como problemas no confinamento de gado de corte aqueles fatores ou condições que contribuem para o insucesso ou diminuição do rendimento da atividade. Os fatores que levam à diminuição do desempenho animal e/ou que comprometem a produtividade ou lucratividade do sistema podem ser subdivididos em: a) fatores que afetam os animais individualmente e b) fatores que afetam o lote de animais.

Cocho dever ser abastecido de três a quatro vezes por dia

No primeiro caso, estão incluídos distúrbios metabólicos, doenças e intoxicações. Os prejuízos dependem da intensidade de ocorrência destes e do número de animais acometidos. Em geral, tal prejuízo é facilmente visualizado e contabilizado, pois o(s) animal(is) doente(s) se destaca(m) dos demais. No segundo caso, os prejuízos são de difícil avaliação ou visualização pelo produtor, pois o efeito negativo é uniformemente distribuído entre os animais. São derivados de fatores ou condições que impedem que a eficiência máxima seja obtida. Ou seja, não há perda concreta, mas deixa-se de ganhar.

Dentre os problemas que podem afetar os animais no confinamento, está a acidose, caracterizada pelo aumento do ácido lático no rúmen, geralmente em consequência do consumo excessivo de alimentos ricos em carboidratos facilmente fermentescíveis (do concentrado da ração). O animal perde o apetite e, com a evolução da acidose, pode morrer. A acidose tende a ocorrer quando não há introdução gradual da ração ou quando há aumento na quantidade consumida de grãos em decorrência de uma mudança climática, por exemplo; além do fornecimento de silagens de baixa qualidade ou água contaminada. Para controle da acidose, pode-se reduzir, temporariamente, o fornecimento do concentrado e dar bicarbonato de sódio com a ração. Alguns ionóforos também auxiliam na prevenção da acidose.

O timpanismo também pode acometer bovinos em confinamento. Alguns alimentos, como leguminosas e resíduo da pré-limpeza do grão de soja, podem favorecer seu aparecimento. O timpanismo pode ainda ocorrer quando a frequência de alimentação não é adequada ou há alternância de super e subfornecimento de concentrados, especialmente os finamente moídos (pode haver evolução até o aparecimento de paraqueratose).

Quando mal utilizada, a ureia pode provocar intoxicação nos bovinos. A princípio, os animais mostram sintomas de desequilíbrio (animal “tonto”), podendo evoluir rapidamente até à morte. Para prevenir esse quadro, a ureia deve ser fornecida acompanhada de carboidratos prontamente fermentáveis, em quantidades balanceadas, e introduzida na ração de forma gradual. Para acudir animais intoxicados, recomenda-se forçar a ingestão de água, de preferência gelada, e vinagre. Quaisquer dos problemas citados podem ser evitados quando os princípios básicos de alimentação e manejo de animais em confinamento são respeitados.

Dentre os problemas que afetam o desempenho dos animais em conjunto, impedindo que o rendimento seja maximizado, destacam-se: presença de lama nos currais; comprimento de cocho insuficiente; uso de alimentos de baixa palatabilidade em proporção relativamente alta; picagem do capim verde a ser fornecido com muita antecedência à hora da refeição (esquenta e fermenta, perdendo paladar).

*Zootecnista, Assocon